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A processar…
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Passava um pouco das seis menos um quarto da manhã quando a cauda colorida como um pintarroxo do airbus da TAP cruzou o céu ainda escuro de Alvalade, voando de Newark, nos Estados Unidos. A Newark de Philip Roth e do seu satírico Alexander Portnoy, literatura e luxúria logo cedo numa sexta-feira, o que, para um cronista no limiar dos cinquenta e um lado da cama melancolicamente vazio e frio, não deixava de ser algum sinal.

Às oito e pouco, o ventre rolieiro-azul do boeing da Ryanair corta o cruzamento das avenidas de Roma e da Igreja. Desaparece por detrás de um prédio envidraçado, emulando as cenas dos kamikazes terroristas de 11 de Setembro, provocando-me um arrepio.

Um minuto e meio depois, vê-se o laranja pintassilgo da Easyjet que parte do Saint-Exupéry, em Lyon. Aperto ainda mais a mão do meu filho, a caminho da escola, eternamente responsável por quem cativo.

Na infância technicolor em Olinda, também lembro de ser guiado pelos pássaros, acordado pelo assobio ritmado durante o desjejum dos bem-te-vis nas copas das mangueiras no quintal de casa, o aviso de que meu pequeno almoço igualmente logo seria servido.

Nas manhãs de sol, da janela um sabiá sabiamente indicava a direção do vento, a maré a encher e o senhor Atlântico logo ali, as ondas à espera do menino, o corpo franzino uma prancha a deslizar na espuma branca, a liberdade a saber a sal.

Desde que me mudei para Alvalade, transformei-me numa espécie de ornitólogo da aviação civil e, assim como na infância technicolor em Olinda, aprendi a ler no vai e vem dos pássaros de aço os sentidos das coisas.

A ornitologia dos aviões não é um hobby nem uma forma de passar o tempo livre – até porque imigrante não se pode dar ao luxo de tempos livres – e sim uma atividade inevitável quando se é vizinho de um aeroporto. 

Viver junto da Portela é morar ao lado de um vulcão, o que de alguma forma me aproxima dos moradores de Ercolano e Pompeia, ao pé do Vesúvio.

Nenhum deles é um vulcanologista diplomado, porém todos são sabedores das rotinas do gigante de pedra, atentos vigilantes dos achaques do velho de mau feitio e hálito de enxofre, a dormir o sono secular, até ao dia em que despertará para arrasar tudo ao seu redor com os sísmicos ataques de tosse e abrasivos refluxos de fogo e lava.

Foi na posição de observador que aos poucos ajustei o horário de dormir aos hábitos das aves de metal. Sei que é chegada a hora de pousar o livro e apagar o abajour quando ouço o chilrear das turbinas do Ibéria procedente de Madrid, já depois das onze da noite, o voo rasante à janela a incensar o quarto com o irresistível aroma de curry das agitadas ruas de Lavapiés e a tentação de uma furtiva e calórica visita noturna ao frigorífico só é aplacada por uma prece silenciosa.

Da mesma forma, a ornitologia powered by Vinci Airports patrocina-me o despertar um pouco antes das sete da manhã ao som da bossa nova do TP074, que parte do Antonio Carlos Jobim no Rio ou, nos fins de semana, um pouco mais tarde, às nove e um pouquinho, acolhido pelo familiar acorde do frevo no TP016 oriundo do saudoso Recife.

Do estratégico ponto de observação da varanda do prédio – onde a perspectiva às vezes trai os olhos e os aviões parecem singelas andorinhas prestes a pousar no parapeito – descobri que na maioria das vezes as aeronaves aterram vindas do sul, sobrevoando a 25 de Abril até baixarem o trem-de-pouso em Campolide, antes de roçarem os tetos de Alvalade. 

Sentido que se inverte cerca de uma semana por mês, precisamente nas noites de lua cheia, quando os aviões aterram pelo norte e a ponte que se vê é outra, a Vasco da Gama. Qualquer mudança de rota em outras luas pode ser o sinal de uma anomalia climática, mais ou menos frio ou calor do que o costume ou a chegada de uma inesperada chuva.

Não deixa de ter lá sua poesia que a lua cheia, além de apaixonados e lunáticos – muitas vezes, sinónimos – desoriente a biruta na cabeça dos pilotos-automáticos.

E o meu computador de bordo não foge à regra.

Nesses dias, sigo nas noites solitárias como um velho 737 descolado de Veneza, a arrastar as asas em busca de uma companhia que aqueça a gasta fuselagem, um romântico coração guiado pelos astros e pelas torres de controlo do Humberto Delgado. 

Obviamente, não sou o único em Lisboa a ter a vida orientada e desorientada pelos aviões e isso talvez explique a histórica resistência em se tirar o aeroporto de onde está, uma luta de décadas, travada por poderosas forças ocultas, os ancestrais ramos divergentes da maçonaria da aviação civil, os Grandes Cavaleiros Rosa-Cruz de Santos Dumont e os Grão-Mestre do Juiz Comendador dos Irmãos Wright, um conflito que já maculou a reputação de tantos políticos, embora esses não precisassem de muito para isso.

O atual presidente da Câmara talvez tivesse evitado os recentes desastres – e desgastes – com as cheias se, do seu escritório aqui perto, em vez de ouvir tecnocratas que nada percebem da ornitologia dos pássaros de aço, atentamente observasse ele mesmo das amplas janelas o descer e subir dos aviões sobre a vizinha Biblioteca Nacional.

Durante o calamitoso mês de dezembro e início de janeiro, as alterações climáticas também influenciaram radicalmente a natureza no sentido dos voos e as aterragens e descolagens guiaram-se por semanas como se a lua estivesse continuamente cheia, numa aberração do estado das coisas aladas que submergiu Lisboa num metaverso de caos e sofrimento.

Da varanda, testemunhei tudo atento e temente.

Vi aviões agindo feito aves desorientadas, a fugirem do vento frio e da chuva rumando ao sul e não para o norte, para serem engolidos pelas nuvens escuras. Das brumas, ecoava por Alvalade o gralhar dos motores, grave como as vozes dos fumadores inveterados, aterrorizando os vizinhos com o mau agourento silvo das aves de rapina de metal. 

Como na minha infância technicolor em Olinda, encolhi-me por baixo do lençol, à espera de a tempestade passar.

Do lado de fora chegavam apenas os rumores do medonho rulhar das aves de aço, assustadores pássaros de Hitchcock, pousados no brinquedo do parque, aguardando pelo próximo sinal dos tempos para o derradeiro e letal ataque.

É pouco, mas foi o que até agora aprendi como ornitólogo de aviões em Alvalade.


Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 50 anos, há sete em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

alvaro@amensagem.pt

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2 Comentários

  1. Eu, que sou Rouxinol, não conhecia tanto de ornitologia… 😉

  2. Eu era capaz de jurar que o Aeroporto está naquela localização há mais de 6 anos…

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