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Um derbi antigo. Foto: Oriental

Quando se defrontam, os jogadores do Clube Oriental de Lisboa e do Atlético Futebol Clube, como aconteceu no sábado, 21, para o último dérbi da temporada, carregam consigo oito décadas de tradição e paixão dos adeptos das regiões de Marvila e Alcântara.

Os dois clubes já viveram dias melhores e andaram pelos escalões mais altos do futebol português – o Atlético com direito a um título de campeão nacional na sala de troféus. Nas últimas épocas lutam para sair da Primeira Divisão Distrital da Associação de Futebol de Lisboa (AFL), a quinta divisão de Portugal.

Ao todo, são 82 confrontos, com 29 vitórias do Atlético, 28 do Oriental e 25 empates.

Nesse cenário, o dérbi deste 2022 assume estatuto decisivo: a cinco jornadas do fim, Atlético e Oriental são, respetivamente, primeiro e terceiro colocados na classificação, separados por apenas seis recuperáveis pontos (67-61). Como o acesso ao Campeonato de Portugal é privilégio apenas do campeão, a vitória dos alcantarenses pode ter resolvido a questão.

O carroceiro a mandar umas bocas da bancada

Era o que esperava o histórico adepto do Atlético, Rui Baioneta, 49 anos, jornalista de A Bola, quase meio século de vida vividos em Alcântara, não muito longe da Tapadinha, casa dos Carroceiros.

“A alcunha vem de mil novecentos e carqueja, quando havia uma data de carroceiros a circularem pela zona portuária de Alcântara”, explica Rui, no relvado da Tapadinha, sem cerimónias, como cabe a um bom adepto. “E como a malta do Atlético é risonha e gosta de mandar umas bocas da bancada, ganhou a fama.”

Rui Baioneta, jornalista d’A Bola e adepto do Atlético Clube de Portugal, perto do título e de subir mais um degrau de volta aos escalões superiores do futebol nacional Foto: Inês Leote.

Risonho como um bom carroceiro, Rui lembra-se dos tempos de miúdo, quando, de mão dada com o pai, cruzava a Tapada da Ajuda em direção ao estádio, onde, por ironia ou não, o futuro jornalista desportivo se sentava ao lado da tribuna de imprensa da Tapadinha, para acompanhar as partidas.

Rui lembra ainda que os grandes rivais do Atlético sempre foram os vizinhos de Belém, os Belenenses, mas o historial da equipa por todas as divisões do futebol português permitiu confrontos memoráveis com outros clubes de Lisboa e arredores.

Prova disso foi a “invasão” dos adeptos na última partida na competição, em Sintra, quando o Atlético derrotou o 1º de Dezembro (0-1), então líder da prova, assumindo o primeiro lugar na classificação.

A perfeita “comunhão entre adeptos e jogadores” em Sintra foi elogiada pelo técnico Tiago Zorro, na antevisão contra o Oriental. O mister alcantarense espera uma nova “invasão” dos carroceiros em Marvila, no dérbi que pode encaminhar o título.

Rui Baioneta ainda não sabe se lá estará. A natureza da profissão, com trabalho sempre aos fins de semana, aos poucos afastou-o das bancadas. “Continuo a torcer pelo Atlético, mas já não sou um adepto fervoroso. Mas, sempre que tenho tempo, ainda acompanho os jogos. Nasci em Alcântara e a Tapadinha é a minha casa.”

Fusões marcaram o nascimento dos clubes

Fundado em 1942, o Atlético Clube de Portugal é fruto da fusão de dois tradicionais clubes de Alcântara, o União Foot-ball Lisboa e o Carcavelinhos Football Club – este último, campeão português em 1927-28 – palmarés que o Atlético acabou por herdar.

Os troféus vencidos pelo Atlético, antes mesmo da fusão com o União Lisboa e o Carcavelinhos, Foto: Inês Leote.

A fusão de equipas tradicionais de uma zona de Lisboa também faz parte da fundação do Oriental, em 1946, oriundo do Chelas Futebol Clube, Marvilense Futebol Clube e o Grupo Desportivo Os Fósforos.

O ano de 1946 também marcou o primeiro dérbi entre as duas equipas, o empate por 1-1 pelo Campeonato de Lisboa, no mesmo estádio onde ambos voltam a enfrentar-se neste sábado. Foi o início de um longo histórico de embates, marcado pelo equilíbrio de forças.

Ao todo, são 82 confrontos, com 29 vitórias do Atlético, 28 do Oriental e 25 empates, jogos disputados em praticamente todas as competições portuguesas: da Liga e Taça de Portugal às divisões inferiores, até o último dérbi, em novembro de 2021, já pela atual época da Primeira Distrital da AFL, com o 1-1 na Tapadinha.

O adepto do Oriental, Rui Teixeira, em frente aos portões do campo Eng.º Carlos Salema, que vai abrir para mais uma partida decisiva. Foto: Inês Leote.

Se tivesse havido uma vitória do Oriental no dérbi deste sábado, isso poderia ter deixado o histórico de confrontos rigorosamente empatado e relançado a equipa de Marvila à conquista do título e do acesso ao Campeonato de Portugal. Ms não aconeceu, e o Atlético ganhou.

Uma viagem ao passado de boleia numa Vespa

Os três pontos no dérbi eram a aposta de Rui Teixeira, assim como o seu homónimo, também jornalista. As coincidências terminam aí. Rui Teixeira é adepto do Oriental e já garantiu a presença na bancada na final antecipada em Marvila.

Gosta de chegar cedo aos jogos. “Gosto da conversa entre os adeptos antes dos jogos, acompanhado da cervejinha e das bifanas”, conta Rui, editor da TV Guia e do site Flash. Aos 46 anos, porém, o adepto do Oriental reconhece que o pré-jogo já não é o mesmo dos tempos em que vinha ao estádio em família.

Rui Teixeira recorda-se das idas ao estádio na Vespa do tio Benjamim, que trabalhava nas bilheteiras do clube. Foto: Inês Leote.

“Antes, havia uma azáfama maior aqui fora”, diz, apontando com uma certa nostalgia para o atual terreiro vazio ao lado do campo Eng.º Carlos Salema. Na Azinhaga dos Alfinetes, em Marvila antiga, o estádio vem de 1949, e homenageia o açoriano, também ele oriental, vindo de Ponta Delgada, que era director da Fábrica dos Fósforos – uma das unidades industriais da zona, que, aliás, deram origem a todos estes pequenos clubes de Lisboa.

Rui lembra-se em especial do courato a arder no fogareiro gerido pelo pai do avançado Costinha, um dos grandes nomes a vestir a camisa dos Guerreiros de Marvila.

A paixão de Rui Teixeira pelo Oriental foi herdada do pai, Manuel, um portista radicado em Lisboa que se negava a ir aos jogos do Benfica e Sporting. A escolha pela equipa de Marvila não foi por acaso. “Meu tio Benjamim era funcionário do clube. Trabalhava na bilheteira, responsável pela cobrança das quotas dos sócios”, explica.

Juntos, Rui, o pai e o tio, iam aos jogos do Oriental, os três a bordo da Vespa do tio Benjamim. “Como a Vespa tem uma espécie de soalho, ia ali, em pé, com o vento na cara. Hoje, não seria permitido, mas naquele tempo, era”, recorda-se o jornalista, enquanto é fotografado diante da bilheteira onde o tio costumava trabalhar. 

Quando o Oriental jogava em Marvila, também Rui jogava em casa – começando por cumprimentar o tio, que era cobrador no Estádio, seguia para a bancada dos sócios. Foto: Inês Leote.

O tio Benjamim infelizmente já não está entre os adeptos do Oriental, mas a morte do parente não impediu que a família continuasse a prestar serviços aos Guerreiros de Marvila. Hoje, é a mulher de Benjamim, a tia Isaltina, quem cobra as quotas dos sócios, herdado o posto do marido.

Por mais futebol ingénuo e cães goleadores

Para além das memórias que guarda dos couratos grelhados pelo pai do Costinha e da boleia na Vespa do tio, Rui Teixeira diz que “esse novo futebol” da primeira Liga, excessivamente profissional e centrado no dinheiro, não lhe interessa tanto.

“Prefiro o futebol mais ingénuo, mais autêntico”, explica, enquanto aproveita para desfazer um mito: “Dizem que o único estádio de Lisboa com vista para o Tejo é o Restelo, mas não é verdade”, afirma, apontando sobre a bancada por detrás da barra no lado oriental do Eng.º Carlos Salema, de onde é possível ver o rio correr rumo ao Atlântico.

Adversário no relvado, o carroceiro de Alcântara Rui Baioneta concorda com o guerreiro de Marvila quanto ao espírito naive ainda presente nas divisões mais remotas do futebol português e resgata da memória uma recordação que ilustra bem do que se trata: “Lembro-me de um jogo a que fui com o meu pai em Tires e o árbitro acabou por validar o golo do adversário mesmo após a bola bater num cão antes de entrar na barra. Naquela época, foi uma confusão, mas hoje acho muita piada.”

O mural que conta a história da fusão entre o Chelas, Os Fósforos e o Marvilense, que resultou no Oriental. Foto: Inês Leote.

Oriental e Atlético, este é o dérbi de Lisboa que serve também para manter vivas as memórias de milhares de adeptos, da nostalgia dos golos, dos aromas e sabores perdidos, do aperto e calor da mão do pai e também da tarde em que um cão rafeiro decidiu o resultado de um jogo.


Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 48 anos, há cinco em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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