Bem se sabe: a partir de uma certa idade, é mais difícil fazer amigos. Até “amigos”, assim com aspas, já começa a custar mais. Já não há grupos como antes, e muito menos tempo, ou paciência, para meter conversa por dá cá aquela palha. Podem passar-se meses, ou anos, sem que se alargue a bolha, sem que se ouça uma voz nova. Numa capital como esta, isto é mais evidente: anos inteiros sem saber o nome de ninguém do prédio, anos inteiros sem oferecer azeite aos vizinhos. Ora, tudo isto muda para quem tem gémeos nos braços.
Da primeira vez, achei muita piada. Os meus filhos tinham dias, eu a vida inteira à frente. Lá fui com aqueles dois pacotinhos de leite para o centro de saúde. A estratégia foi a mesma desde aí: o mais pesado no marsúpio, a mais leve no braço direito, as chaves do carro na mão esquerda. Na mochila, recipientes de leite em pó, água fervida, biberões, fraldas, água lavante, duas mudas de roupa, cinco ou seis babetes extra, quatro fraldas de pano, as cadernetas de utente, um Mars para eu quando eu me lembrasse de comer. É sempre muita logística e, ainda por cima, é muita gente a meter conversa. (Ah, e os óculos de sol.) Ainda me lembro de ter pensado “Que simpática”. (E esqueci-me da carteira.) A primeira senhora disse assim:
– Ah! Que lindo! São gémeos?
(E das chaves de casa.)
E eu a responder que sim.
– Que coisas tão bonitas. Tão lindos, tão pequeninos. São dois meninos ou duas meninas?
– É um de cada.
– Ah, que maravilha! Fica já…
Na altura, não completei a frase. Duzentas vezes depois, já sou eu a fazê-lo.
– … despachadinha, sim. Fico já despachadinha.
Enfim, lá segui eu despachada, com dois pares de cromossomas diferentes a fazerem-me feliz. Tivessem nascido antes o David e o Pedro, ou a Maria e a Mariana, e eu, que remédio, não despachadinha, teria a obrigação de tentar, tentar e tentar, até atingir essa meta humana que é procriar filhos de dois sexos.
Enfim, sorri, enlevada – deliciada por tê-los e mostrá-los. Não me julguem, que amor de mãe é vaidade. Ainda por cima, espalhar beleza é uma coisa boa de se ver e, perdoe-se esta frase inaugural em língua portuguesa, os meus filhos são lindos.
De casa ao carro, é menos de um minuto a pé. Logo dessa primeira vez, mais três ou quatro pessoas anónimas. Desde lá até aqui, de Janeiro a Outubro, já centenas de pessoas disseram as mesmas coisas. De vez em quando, lá se ouve qualquer coisa nova. Ouvir um “Está a amamentá-los?” ou “Foi cesariana?”, por bizarro que seja, tornou-se banal ao fim de dois meses. Nunca julguei que estranhos pudessem querer saber para que servem os mamilos, mas depois até dei por mim a responder. Outras vezes, gente que não sei quem é sorri-me na rua: “E os seus meninos, que tal?”. “Ah, estão muito bem, gordinhos e espertos, já falam muito bem francês, obrigada.” E continuo a andar sem que o outro lado saiba que para mim é lado novo. Para o pessoal do bairro, salto à vista. Ninguém sabe o meu nome, mas serei sempre a mãe de gémeos. Aliás, ainda no outro dia um amigo me deixou um livro no Fim do Século, no jardim de Benfica, a que eu ia quase todos os dias. Dei por mim a explicar que não valeria a pena meter o meu nome no envelope. Ali sou a Mãe dos Gémeos para os distantes, e a Mãe do David e da Maria para os íntimos. Mas há lá coisa mais bela para se ser? Nem pensar.

E é assim que tenho conhecido muita gente. A senhora Aurora, que teve uma gémea que morreu. A Mariana, que teve um gémeo que lhe batia em criança. A Marta, que também tem dois caracóis agarrados um ao outro. O senhor do 100 Montaditos ao lado do Fonte Nova, cujo nome é Pai de Gémeos. Um tipo aleatório com quem falei esta semana, que depois de ouvir a resposta “Sim” à pergunta “São gémeos?”, resolveu dizer-me “Eu sou filho único” como se a coisa me interessasse. Enfim, há muito por onde escolher – e com dois filhos chega o fim da solidão. Jorge de Sena disse-o de forma mais bela:
“Nasceu-te um filho. Não conhecerás,
jamais, a extrema solidão da vida.
Se a não chegaste a conhecer, se a vida
ta não mostrou – já não conhecerás
a dor terrível de a saber escondida
até no puro amor. E esquecerás, se alguma vez adivinhaste a paz
traiçoeira de estar só, a pressentida,
leve e distante imagem que ilumina
uma paisagem mais distante ainda.
Já nenhum astro te será fatal.
E quando a Sorte julgue que domina,
ou mesmo a Morte, se a alegria finda
– ri-te de ambas, que um filho é imortal.”
Mas, claro, eu vou ao corriqueiro da vida. E esta ausência de solidão, por muito que seja coisa de futuro, é também coisa de não poder andar na rua sem tanta gente a interpelar-me. Volta e meia, dou por mim a pensar: “Caramba, são gémeos, não trigémeos. É fofo, mas não é assim tão raro. Sobretudo, não é tão bizarro como seria se eu andasse para aqui com um hipopótamo bebé.” O que era fofo banalizou- se. Às vezes, mal vejo abrir-se um sorriso e adivinho a pergunta “Oh, são gémeos?”, já finjo que não vejo e olho para o outro lado.
No outro dia, comentei tudo isto com a Meijinhos, que teve um bebé um mês depois de eu ter tido dois. Disse-lhe que era difícil sair à rua sem ser obrigada à chatice da simpatia. É que se o outro lado o é eu também tenho de o ser. E de responder uma e outra vez às mesmas perguntas, e de dizer:
– … despachadinha, sim. Fico já despachadinha.
Ela céptica.
– Também é assim só com um bebé.
E metemo-nos os cinco no Colombo. Eu, ela, os três cachopos. Eu aproveitei a companhia e fui sozinha à Wells, para ser mais rápido. Ela ficou com um carrinho da Chicco, bem grandinho e robusto, e dois da Kikka Boo, leves, de alumínio (mãe de gémeos tem de poupar as costas). Durante os três minutos em que me ausentei, lá se chegou alguém a ela:
– Oh! São três bebés! São do mesmo pai?
Ela, claro, só teve tempo de responder que esperava que não. Seria coisa para estragar muitos jantares de amigos. Mas, contando-me isto, sobrou pasmo: não seria mais hercúlea a ideia de três bebés estarem na mesma barriga de mulher ao mesmo tempo? E, não sendo filhos do mesmo pai (não são, juro), quem raio acharia que esposa e amante iriam passear a prole do adúltero para o shopping?
Enfim, lá continuámos. E o povo sempre fixado em questões belas, gemelares. A Meijinhos lá via que eu não exagerava. Passado um bocado, depois de ouvirmos mais um “Oh, meu deus, são gémeos, que fofo, ai que lindo, menino e menina, que trabalheira, mas está a amamentá-los?, dormem bem?, o ex-marido da prima da minha cunhada também teve, pronto, fica já despachadinha”, já era ela a revirar os olhos – e eu tive a certeza de que nunca mais sairia comigo à rua.
Claro, nunca mais voltei a vê-la – nem sei se é viva, espero que sim. E a vida chega a ser lixada: esta era uma crónica sobre como fazer amigos em Lisboa, mas, corrida a tinta, é a crónica sobre como perdi a única que tinha. E agora, alguém me quer?
*A autora escreve com o antigo Acordo Ortográfico


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Para mim esse delicioso texto sabe a gelado.
Sempre que levava a minha mãe para comer gelados ou trazia algum pote para comermos depois do almoço de domingo, ela me contava das conversas repetidas que ela tinha quando eu e meus irmãos éramos pequenos.
Ela teve três meninos “em escadinha” e sempre recorda que fazia um bingo mental com as interações com desconhecidos.
“Se, no mesmo dia, me falassem 5 das frases clássicas eu me presenteava com um gelado na padaria ao pé de casa”.
Diz ela que os empregados da padaria a chamavam de Mamãe Picolé por anos a fio, tamanha a frequência dos auto-prémios.
Comigo tambem foi assim “3” de “enfiada” mas são rapazes e eu perdi a conta das vezes que fui para o Posto médico com uma cabeça partida, um joelho escangalhado , um pé cochinho isto em pequenos.
Depois mais velhos vinham com o carro que emprestava todo batido e lá tinha eu que ir de Boleia trabalhar ou a mota estampada num outro carro e a ida para o hospital de ambulancia. Enfim tudo que agora até acho graça, na altura não !