No estaleiro da Lisnave, em Setúbal, na zona da Mitrena, há uma pequena floresta. Por todos os lados, circula maquinaria pesada, reparam-se grandes navios e o cenário é cinzento, como são os cenários industriais. Mas, num pequeno círculo, de 50 metros quadrados, no meio de tudo aquilo, cresce uma floresta, pequeno oásis entre o buliço industrial. A mancha verde foi plantada no dia 17 de novembro de 2022, e continua a partilhar o espaço com gruas e grandes navios que lhe fazem sombra.
É uma ilha de biodiversidade, assim lhe chama Vitor Gordo. O fotógrafo freelance faz, há vários anos, trabalhos para o estaleiro de Setúbal, documentando os navios que por aqui passam e o buliço de mais de 300 trabalhadores. Foi com o tempo livre que a pandemia lhe trouxe, que ganhou interesse pela plantação destas pequenas florestas, seguindo o método Miyawaki. E trouxe-o para aqui, para o lugar mais insólito, através do projeto Ilhas de Biodiversidade, que criou.
Espaços destes podem nascer em qualquer lado, garante – em rotundas ou mesmo em espaços industriais e em que o verde não parece encaixar, como aqui. Mas encaixa.
O conceito criado pelo botânico japonês Akira Miyawaki, propõe a plantação de espécies nativas em grande densidade, sem espaços vazios, possibilitando a criação de micro florestas em contexto urbano e em pouco tempo – cerca de 20, 30 anos. Em Portugal, dão-se os primeiros passos, embora já haja exemplos em Lisboa – casos da micro floresta da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, como a Mensagem mostrou, ou da Escola Superior de Comunicação Social, em Benfica.
Como se planta uma micro floresta?
Vitor Gordo tem tentado vender a ideia a outras entidades – entre municípios e empresas – mas nem sempre recebe a resposta que quer ouvir. Por exemplo: Portugal tem cerca de “quatro mil e tal rotundas” e ele vê em cada uma o potencial para uma micro floresta.
“Um dia, ao passar ao pé de uma rotunda, imaginei que todas as rotundas em Portugal pudessem ter uma floresta lá dentro”, diz Vítor.
Apresentou a proposta à sua junta de freguesia e chegou a desenvolver o projeto, mas, depois, “aquilo empancou e nunca mais se desenvolveu”, conta.
Na Lisnave, a micro floresta não foi criada numa rotunda, mas herdou a sua forma circular. E foi plantada numa manhã, em 17 de novembro de 2022. Uma manhã de neblina em que se juntaram 32 trabalhadores. Plantaram-se cerca de 150 árvores em 50 metros quadrados.
Cláudia Spranger, responsável do setor de ambiente na Lisnave, ouviu a proposta de Vitor Gordo e não precisou de muito para ficar convencida. “Achei a ideia muito interessante”, conta. Era uma maneira de sublinhar a “biodiversidade como uma forma de combater as alterações climáticas, de fazer um alerta à população do estaleiro”.

E avançou-se.
Foram convidados trabalhadores de vários setores do estaleiro e os vizinhos. Cláudia Spranger contactou a Navigator, empresa do mercado da pasta e do papel, que forneceu casca de eucalipto triturada – utilizada como mulch. A Agriloja de Setúbal forneceu material de rega e a Nãm Mushroom Farm, empresa que trabalha com café reutilizado e é apoiada pela Delta, em Odivelas, cedeu cobertura de sol.
Inicialmente alguns trabalhadores ficaram “reticentes”. Depois “divertiram-se e andaram todos preocupados a fazer a plantação”.



Numa floresta Miyawaki, a prioridade vai para as espécies nativas. Para escolher o que plantar, Vitor Gordo deu uma volta no estaleiro, “à procura das espécies que já existiam”. Não encontrou muitas, pelo que decidiu basear-se “nas espécies nativas da zona sul do país, muito a olhar para a Arrábida”. No total, foram plantadas nesta micro floresta 23 espécies autóctones. Plantou
“Temos as herbáceas, as semi-arbustivas, as arbustivas e depois as emergentes. As nossas emergentes aqui na floresta são o sobreiro, o lódão-bastardo e a alfarrobeira. Depois temos as espécies intermédias, como o medronheiro e a murta – tudo espécies que encontramos na Serra da Arrábida.”
Adicionalmente, Vitor Gordo tem plantado feijão, tremoço e trigo sarraceno, “com um objetivo: melhorar o solo”. Crescem, geram biomassa e morrem. As sementes caídas levam, depois, a que no ano seguinte já não seja preciso voltar a plantá-las.
Nos espaços vazios, vão nascendo ervas daninhas. Vítor corta-as e vai colocando cobertura morta (conhecida por mulch), de forma a que estas ervas vão saindo de cena e dando lugar apenas às espécies plantadas. Depois, dá-se um processo natural em que umas espécies alimentam-se de outras, até tomarem o seu lugar. As leguminosas vão servindo de alimento às arbustivas e semi-arbustivas, explica, até que estas últimas prevaleçam. E, assim, “a floresta continua por si própria”, cada vez mais autónoma.
A fauna, ao contrário da flora, aparece sem necessidade de ser colocada. É atraída pelo crescimento da micro floresta. A população residente de gatos encontra aqui um refúgio do sol e calor. Aparecem abelhas, aranhas e joaninhas, “especialmente nos sobreiros”.



Ao fim de três anos, desligar a água
Por agora foi instalado um sistema de rega gota a gota que é ativado por 30 minutos a cada três dias, mas em breve deverá deixar de ser necessário. Seguindo o método Miyawaki o objetivo é deixar a plantação autónoma e sustentável, sem necessidade de intervenção humana – uma verdadeira floresta.
Em novembro de 2025, quando se completarem três anos, a água deve poder ser desligada. “Como vamos ter muita fotossíntese, muitas folhas verdes, o solo vai estar tapado. Ao estar tapado, tem humidade e muita vida e consegue ultrapassar o verão com maior facilidade. O grande desafio é esse – ao fim de três anos desligarmos a água.”
Vitor Gordo acredita que tudo está a evoluir nesse sentido. Por agora, o trabalho dele é de observação, cinco minutos a cada semana que passa para cortar as ervas daninhas. Pouco mais tem a fazer nesta fase.
O cocktail das diferentes espécies permite que mais de um ano e meio após a plantação, “o sistema já esteja implementado. As plantas já criaram as suas conexões entre elas, a sua entreajuda, e estão na fase de crescimento”, diz Vítor.
Aqui, todas as espécies plantadas cumprem uma função. Umas garantem sombra, outras níveis de humidade no solo, retendo a água e evitando a sua rápida infiltração. Algumas das espécies vão morrer para que outras vinguem – um processo que ocorre organicamente. Inicialmente, as espécies mais pequenas criam as condições necessárias para o crescimento saudável das árvores, fazendo-lhes inclusivamente sombra.

Depois a árvores fazem sombra e isso determina a morte de muitas espécies. As árvores adquirem autonomia e deixam de precisar das restantes companheiras para o seu desenvolvimento. “Numa fase mais avançada – e vamos saltar agora, por exemplo, cinco anos – o sobreiro vai criar sombra no alecrim. Provavelmente, o alecrim vai morrer”. Estará então consumado o aparecimento da floresta.
Aqui, a mudança é mais rápida do que acontece com uma floresta tradicional, mas ainda assim lenta. Ao fim de mais de mais de ano e meio, a vegetação só agora começa, timidamente, a ultrapassar a altura dos trabalhadores que a plantaram. A árvore mais alta, um sobreiro, tem agora cerca de 2,25 metros de altura mas já ultrapassou o alecrim e o rosmaninho, que até há pouco lhe faziam sombra.

40 graus no estaleiro, 22 na micro floresta
Na micro floresta da Lisnave, Vitor Gordo tem medido a temperatura do solo na área plantada e fora desta e as diferenças são claras: a temperatura chega a ser de 40ºC fora da floresta e de 22ºC dentro desta. Em ambiente urbano, a instalação destas estruturas verdes podem ser especialmente importantes como refúgio nos períodos de maior calor e na redução do efeito ilha de calor urbano, diminuindo o desconforto térmico de quem se encontra no espaço público.
Em novembro, plantam-se três novas micro florestas na Lisnave
A ilha de biodiversidade da Lisnave foi a primeira de várias na empresa, garante Cláudia Spranger. Para o final de novembro está marcada a plantação de três novas ilhas de biodiversidade no estaleiro, na zona de entrada, longe das máquinas e dos navios, permitindo a participação não só dos trabalhadores, mas também dos seus filhos e família. Não será circular, nem será apenas uma, mas três, adequando-se ao espaço existente e às suas limitações.
“Vai ter um quadrado, um retângulo e depois um outro quadrado mais pequeno”, explica Vitor Gordo. No total, serão plantadas 150 plantas numa área de 50 metros quadrados.
O potencial de replicação é um dos fatores mais sublinhados por Vitor Gordo, bem como a facilidade da plantação.
O objetivo de Vitor e de outros que também têm vindo a promover as florestas Miyawaki, por Setúbal, por Lisboa e pelo resto do país, é criar tantas ilhas de biodiversidade quanto seja possível. “Se conseguirmos ter várias ilhas em vários espaços da cidade, elas próprias formam um corredor ecológico verde juntamente com as outras, porque já existem outras ilhas também na cidade de Lisboa e a ideia é ter cada vez mais”.
Este artigo resulta de uma parceria da Mensagem com a Câmara Municipal de Setúbal e faz parte do Projeto Narrativas – no qual procuramos descobrir histórias no terreno e trabalhar lado a lado com as comunidades locais.
Saiba mais aqui

Frederico Raposo
Nasceu em Lisboa, há 32 anos, mas sempre fez a sua vida à porta da cidade. Raramente lá entrava. Foi quando iniciou a faculdade que começou a viver Lisboa. É uma cidade ainda por concretizar. Mais ou menos como as outras. Sustentável, progressista, com espaço e oportunidade para todas as pessoas – são ideias que moldam o seu passo pelas ruas. A forma como se desloca – quase sempre de bicicleta –, o uso que dá aos espaços, o jornalismo que produz.
✉ frederico.raposo@amensagem.pt

O jornalismo que a Mensagem de Lisboa faz une comunidades,
conta histórias que ninguém conta e muda vidas.
Dantes pagava-se com publicidade,
mas isso agora é terreno das grandes plataformas.
Se gosta do que fazemos e acha que é importante,
se quer fazer parte desta comunidade cada vez maior,
apoie-nos com a sua contribuição:

Continuem, este é um bom caminho para ajudar a aliviar a pressão industrial existente no estaleiro.