Há cerca de 15 anos, houve uma celebração da independência de Cabo Verde pelos moradores do bairro Nossa Senhora da Conceição, no Monte de Caparica, mais conhecido por “bairro do Asilo” por alojar os que vinham do precário Asilo 28 de Maio, ali ao lado. A festa foi no logradouro do bairro. Não sabiam, mas seria a última vez. O logradouro, que era o espaço de encontro da comunidade, foi fechado, por diversas razões.

Nunca mais a comunidade se pôde juntar para celebrar. “O bairro parou no tempo”, diz Ronas Varela, que nasceu aqui. Quem aqui vive veio do edifício, entretanto abandonado, no cume do Porto Brandão, em tempos lazareto e depois orfanato, e que, depois do 25 de Abril, foi ocupado por quem chegava a Lisboa das antigas colónias – e ao qual a Mensagem dedicou uma série.

Vídeo: Inês Leote

Agora, os moradores mais jovens revoltaram-se e apoderaram-se outra vez do logradouro – que tinha sido cedido à Casa Pia, para uma creche e voltará agora às mãos da Câmara Municipal de Almada. “Chegámo-nos todos à frente para fazer acontecer”, resume João Aleixo, também morador. Fizeram uma festa. E nessa festa anunciou-se que o logradouro do Bairro do Asilo será requalificado pelo Colectivo Warehouse, um grupo de arte e arquitetura fundado em 2013, que desenvolve projetos locais e urbanos com a ajuda da participação dos moradores. O projeto recorreu aos fundos do PRR – através da CMA.

Ou seja, pela ação dos moradores e ativistas, o logradouro do Bairro do Asilo em breve terá uma nova vida.

Uma festa no bairro: o mote para a transformação

E a comunidade do bairro juntou-se outra vez para uma festa no logradouro. Foi o regresso das celebrações ao bairro, com muita comida, música (entre os intérpretes, Juana na Rap, também moradora do bairro) e desporto.

Celebrou-se, mas não só. Também se fez política, da local e de base: recolheram-se ideias para o futuro deste lugar. “Deixámos na entrada um grande cartaz para recolher ideias”, conta Monica di Eugenio, do Colectivo Warehouse.

Uma forma de começar a dinamizar o espaço: pintaram-se balizas, fizeram-se bancos e mesas. Pôs-se mãos à obra para se dar nova vida ao logradouro.

Foi uma oportunidade para a comunidade se aproximar das entidades envolvidas no processo, explica António Brito Guterres, assistente social e especialista em Estudos Urbanos: “Foi um evento de diagnóstico, uma forma de ligar as pessoas a entidades como a Casa Pia, a Câmara Municipal de Almada, a Junta da União de Freguesias da Caparica e Trafaria, a Associação Cristo Rei que opera aqui.”

Do Asilo 28 de Maio para o bairro do Asilo

A história deste logradouro entrelaça-se na história deste bairro que foi construído em 1996 para realojar os que vinham do Asilo 28 de Maio, depois de uma derrocada no antigo edifício ocupado que pôs fim à vida de duas crianças.

Adilson Moreira tinha seis anos quando saiu do Asilo, mas ainda guarda memórias: “Lembro-me de estar a andar de carrinho de pedal, a descer a rua para ir ao café do pai de um amigo.” E recorda o dia da saída: “Lembro-me dos vários autocarros, cada família a ir para um lugar diferente.”

porto brandão asilo 28 de maio lazareto
O Asilo 28 de Maio em estado de degradação, como se encontra atualmente. Foto: Inês Leote

A família de Adilson foi transportada para o quartel de Setúbal. Já Susana Gonçalves foi para o Quartel da Trafaria, enquanto a população aguardava pela solução de realojamento. Susana chegou bebé ao novo bairro e, por isso, de nada se lembra. Mas Adilson recorda: “Não havia aqui nada”, diz. 

No novo bairro, pais e avós procuraram dar continuidade ao sentido de comunidade que, apesar das péssimas condições de vida, havia no antigo Asilo. Mas não foi fácil. Todos falam do estigma que sentiam – até nos parques infantis ali ao pé, onde brincavam os mais novos. Os mais novos começaram por brincar num parque infantil de um outro bairro, mas cedo os vizinhos decidiram transformá-lo num jardim, contam. “Sempre fomos muito criticados, “Ouvíamos muito: ‘eles vêm para aqui, eles vêm destruir’”, conta Susana Gonçalves. “Quando me perguntam de onde sou, digo sempre Almada, porque associam o Monte de Caparica aos roubos.”

Adilson Moreira (à esquerda) nasceu no Asilo 28 de Maio. Ronas Varela (à direita) já nasceu no bairro. Foto: Inês Leote

Com a chegada de paraquedas a um novo bairro, foi no logradouro da urbanização construída pela Casa Pia que encontraram um lugar para as crianças brincar: o logradouro onde, nos primeiros anos, funcionava uma creche e um ATL.

Nova vida ao velho logradouro

Susana Gonçalves lembra-se de aqui ter aprendido a dançar – na última festa dançou a tarde toda. A creche e o ATL fechariam em 2015 (algumas estruturas do parque infantil resistem desses tempos). Os moradores queixam-se que a partir daí, o acesso ao espaço ficou condicionado. A Casa Pia garante que o espaço sempre esteve disponível para os moradores, exceto na pandemia. Admite, no entanto, que os horários foram sofrendo alterações. Agora o logradouro está aberto das 12h às 21h e, no inverno, das 10h às 19h.

Logo na pandemia os moradores “começaram a limpar o parque”, conta Susana.

Entretanto, o Colectivo Warehouse estava a identificar espaços públicos que precisassem de intervenção no Monte de Caparica. Tomaram conhecimento deste e incluíram-no na lista de intervenções ao abrigo do PRR.

E foi assim que se reuniu um grupo de moradores jovens para organizar um evento onde se apresentava ao bairro essa missão: transformar o logradouro. “Foi também uma forma de mostrar aos moradores mais velhos que os mais jovens são capazes de dinamizar o bairro”, diz António Brito Guterres.

O anúncio da festa do bairro. Foto: Inês Leote

No meio da música, da comida, dos desportos, foram muitas as ideias lançadas: pintar o campo, fazer grafittis no piso e marcações para que ali se possam jogar diferentes desportos, um baloiço para o parque infantil, um espaço para churrascos.

Um dos pontos mais debatido foram as grades que dão acesso ao logradouro, e sobre as quais por estes dias surgem letras a assinalar: “Asilo 28 de Maio”. “A entrada é um ponto muito forte: parece que estamos a entrar numa cadeia”, diz Susana Gonçalves. “Houve moradores a sugerir que se pintassem os portões, que se criasse uma galeria ou até um mural” conta Monica di Eugenio, do Colectivo Warehouse.

A grade que provoca desconforto. Foto: Inês Leote

E agora, os próximos passos? 

O coletivo vai continuar a trabalhar com a comunidade. As obras escolhidas serão feitas, ou pela CMA ou pelos vizinhos. O logradouro, tal como os outros projetos no Monte de Caparica, terão de ficar prontos até março de 2025 – por causa do PRR. Até lá, fica o entusiasmo deste grupo de jovens, que querem provar que o bairro do Asilo e o Monte de Caparica são muito mais do que se pensa deles.

“O bairro é a nossa casa. Gostava que as pessoas viessem cá ver os talentos que temos: pessoas que fazem desenhos, pessoas que cozinham bem, pessoas que cantam, pessoas que dançam”, resume Susana.


Ana da Cunha

Nasceu no Porto, há 28 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.

ana.cunha@amensagem.pt


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3 Comments

  1. FANTÁSTICO !
    Só é pena a referência ao ’28 de Maio’….
    Era bom alguma ‘investigação’ ao significado desta data !….
    E o porquê do ‘re-baptismo’ do Lazareto para Asilo 28 de Maio….
    ‘Nasci’ e cresci no Porto Brandão e acompanhei as vivências daqueles que, por única opção tiveram a ‘ocupação’ do Asilo porque o Estado não os foi capaz de ajudar…
    O mesmo Estado que terminou com o Regime iniciado a ’28 de Maio’ !!!
    É de louvar a toda a iniciativas mas ’28 de Maio’, NÃO ! NUNCA MAIS !
    Bairro do Asilo é BOM, como nome, e só….

  2. Que engraçado, alguns nem moram lá, mas são moradores eheh.

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