Nem BBC, nem CNN, nem RTP. Soube dos recentes conflitos no Bangladesh na mercearia do rés-do-chão do prédio onde vivo, em Alvalade. A notícia em primeira mão, fresca como as batatas, cenouras e alfaces nas prateleiras, dada por um dos irmãos Khan, telemóvel em punho, olhos esbugalhados, o esgar de pânico no rosto: “Bangladesh está em guerra!”

Era sexta-feira pela manhã e o mundo só falava no ciber-apagão que privava a classe média mundial de ir ou voltar das férias ou de fazer compras online. No Bangladesh, a internet também caiu, informou-me um dos irmãos Khan, mas foi derrubada pelo governo, para que as imagens da batalha campal nas ruas não corressem pelo mundo.

Sabe-se lá como, o certo é que as imagens correram o mundo e as cenas de ruas em chamas e da violência policial contra os estudantes em protesto desfilavam pelo dedo nervoso no ecrã do telemóvel do comerciante bengali. Sem falar português, recorria a um inglês precário na tentativa de narrar o que acontecia no seu país.

Com um fio de saliva condensado numa alva espuma no canto dos lábios ressequidos, repetia apenas: “Bangladesh está em guerra! Em guerra! War! War! Waaarrrr!”.

Naquela fatídica sexta, os sites noticiosos e telejornais portugueses ignoraram a crise nas ruas de Bangladesh, o país de origem de uma das maiores comunidades de imigrantes em Portugal, com cerca de 70 mil pessoas. Cada uma delas com um parente em risco, talvez um filho, um sobrinho, entre os estudantes agredidos e baleados pelas autoridades.

No dia seguinte, voltei à mercearia para comprar bananas e o mesmo irmão Khan segurou uma delas como um revólver. “Mais de duzentos mortos e milhares de feridos”, anunciou, apontando a fruta-pistola na minha direção. No ecrã do telemóvel, as labaredas ainda consumiam as ruas no Bangladesh, o corpo de um estudante carregado por um grupo de jovens.

War! War! Waaarrrr!”, repetiu.

Um outro bengali na fila para pagar fez o polígrafo da notícia balançando positivamente a cabeça. 

Mas por que os jornais portugueses insistiam no silêncio? Talvez por falta de um enviado no terreno, sem saberem que em praticamente cada esquina de Lisboa há um legítimo correspondente internacional, como os irmãos Khan, com acesso à notícia diretamente da fonte e ávidos para partilharem o seu drama.

E desde sexta-feira tem sido assim, a mercearia no rés-do-chão é a minha BBC, a minha Al Jazeera, os irmãos Khan revezando-se no papel de pivô de telejornal, dividindo a bancada com a caixa registadora. Âncoras de chinelos e camisolas sem mangas sempre em cima da notícia, pesando a palavra certa com as maçãs na balança, repassando as informações com o troco.  

O noticiário português finalmente resolveu dar um ar da sua graça, mas está sempre um passo atrás dos fatos. A mercearia no rés-do-chão sabe de tudo antes, uma agência de notícias cercada por conservas de sardinha e atum por todos os lados. A Reuters e a France Press não chegam aos chinelos dos meus informadores bengalis.

Em troca, não tenho de gastar um centavo a mais do que pago pelo feijão enlatado e a linguiça fumada. Os irmãos Khan não estão no business dos media. Partilham a notícia de forma gratuita e terapêutica, a ansiedade e a dor divididas entre os que têm a disposição para ouvir. E na maioria das vezes, ser ouvido é tudo o que um imigrante quer.

Os irmãos Khan substituíram o meu vizinho Omar Sharif há cerca de um ano, quando após a chegada de um bebé o também comerciante bengali decidiu tirar a família do armazém da mercearia onde quatro pessoas se apertavam num sótão sem janelas.

Omar e família mudaram-se para uma casa num subúrbio distante, mas ainda assim, uma casa de verdade e não o dramático claustro reservado pela especulação imobiliária ao imigrante operário. Foi um dos irmãos Khan, sem esposa e filhos, que ocupou o T0-armazém da antiga mercearia de Omar.

É lá, nas noites solitárias, a escuridão cortada apenas pela luz que emana do incansável telemóvel, que o irmão número dois dos Khan apura o noticiário a ser partilhado no dia seguinte, até ser vencido pelo cansaço e arrastado a sonhos intranquilos, povoados por tiros, labaredas e sangue.

Quando, entre dentes cerrados, murmura “war, war, waaaarrr!

O mínimo que nós imigrantes podemos fazer em solidariedade para com os nossos irmãos de imigração é parar e ouvir. Um minutinho, entre o vai e vem de moedas no balcão, já é o suficiente para perguntar sobre como andam as coisas no país distante, se a família está segura, se há perspectiva de que a situação se acalme em breve.

Quem é imigrante entende o que é isso, sabe o que é não ser ouvido, não ter voz. Não pode, portanto, dar-se ao luxo de repetir com alguém a mesma insensibilidade um dia destinada a nós mesmos. 

Ouvir é também resistir, impor-se, permitir que a narrativa paralela à informação oficial circule, reverbere nos muros, ecoe pelas praças, ganhe o país.

Abrir o ouvido é estender a mão, é não largar a mão. 

E nenhum imigrante deve largar a mão de imigrante algum.


Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 51 anos, há sete em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa. É autor de sete livros, dois deles com Lisboa como personagem, Alojamento Letal e O Mau Selvagem.

alvaro@amensagem.pt

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