Ele há, por estes dias (dura até domingo), vários concursos internacionais de aritmética. Portugal tem participado com records extraordinários. Uns bonitos, com Pepe a tornar-se o futebolista mais velho, 41 anos e 130 dias de idade, a jogar numa fase final do Euro.

E outros menos bonitos, com o grandessíssimo artista antes conhecido como CR7, conseguindo ser a pessoa deixada em campo 120 minutos sem que nada o justificasse (nada, literalmente, nada, bola, isto é, sem bola) – record mundial desde que o football association foi o inventado há 161 anos (1863). Já para não falar da interpretação errónea do que deve ser a gratidão de um povo, uma pátria, uma federação e um treinador por um ex-excelentíssimo.

Acima fica uma abordagem científica, com números. Isto é, um conceito suscetível de ressacas, como a que eu, no anterior parágrafo confesso, porém sem vergonha, pois com muita razão. Declaração de interesses (só aparentemente contraditória): em 2016, aos gritos e a correr a pé atrás de um autocarro fiz 3km e 280m, entre o Marquês de Pombal e o Martim Moniz. Distância correspondente, se exagerarmos um pouco, a duas maratonas bem puxadas se contarmos o fator idade do devoto corredor: eu tinha, então, 68 anos e dois meses.

No autocarro ia empoleirado o citado CR7 e os recentes campeões do Euro e no asfalto, aos berros, eufórico, pois com muita razão, ia eu, devoto e agradecido: “Ronaldo, Ronaldo!” Embora a alturas do hotel Tivoli o nome começasse já a espaçar e, nos Restauradores, calasse de vez, a peregrinação continuou, só pernas, sem pulmões, até ao Martim Moniz. Aí, senti-me desobrigado. Inclinado para o chão da praça, mãos nos joelhos – “Hã… Hã… Hã…” – deitei um último olhar ao autocarro que prosseguia pela Almirante Reis até à festa na Alameda…

A minha corrida de 2016, relembro, começou frente ao edifício do Diário de Notícias. No fim da década de 1990, o garoto Cristiano Ronaldo, jogava nos juvenis do Sporting, morava numa pensão na Duque de Loulé, e depois dos treinos, sozinho, ia dar toques de bola para o jardim da Avenida da Liberdade, frente ao jornal.

Como jornalista falhei não ter ido falado com ele, dizer olá. Não é a curiosidade uma condição do jornalismo? Aos 50 anos eu revelava menos profissionalismo do que ele aos 15. Esteve ali em construção, pela vontade, um miúdo a trabalhar para eu pôr-me aos gritos de contente, no futuro. E eu, com aquele presente ao lado, sem ver.

Quando ele passou a maravilhar universalmente, não lhe regateei aplausos. Aquilo da corrida atrás do autocarro, aos gritos felizes, foi só o ponto alto. Hoje, estou convencido de que, mais do que a corrida e os vivas, a minha maior homenagem ao herói foi a desistência. Foi como se quisesse preveni-lo: sai, antes de eu tentar saber porque continuas. Já eu não precisei de explicar porque parei no Martim Moniz, foi notório.

Em nome de Cristiano Ronaldo, eu pedia-lhe para nunca o ver fraco. Ele não merecia e eu não quero. Isso de fãs e popstar, é entre um tolo e quem nunca teve ou já não tem nada para dar. Não és uma qualquer Kardashian, és o Cristiano Ronaldo. Foi esse o significado maior da nossa relação.

Aquilo de fazer que se vai para esquerda, virar para o bico da área e encafuar a bola no cantinho da baliza – é para fazer como artista, não truque fútil de influencer. Subir aos céus e catar uma bola a que um defesa mais alto um palmo não chega – é prodígio de herói. Derretias-me de prazer, mas nunca me iludi que me ensinavas. Justamente a nossa relação é entre iguais, sem confusões. Tu és deus e eu não sou, até à eternidade de nunca mais deixares de chutar tão certeiro e voar tão alto.

O futebol é tramado de tão efémero. Custa-me que Cristiano Ronaldo já não maravilhe, mas não me dói a consciência de eu procurar outros golos. Não suporto é que ele se iluda que ainda faça o que já ele não faz. Quero que respeite a memória que há dele, tão extraordinária, tão capaz que foi em me sufocar o peito.

Lembro-me, na tarde em que descia as escadas do estádio de Paris, com a medalha de campeão europeu, de ele quase falhar o encontro com o treinador a quem mais devia, Sir Alex Ferguson. Este estava numa coxia da bancada, discreto e ansioso, avô esperando o seu menino. Foi tão bonito o abraço. A grandeza do futebol é partilhar uma intimidade dessas com o Universo.

A grandeza do futebol é, dias depois da confirmação de Cristiano Ronaldo já não ser o mesmo (definitivamente, ó evocadores vãos do próximo Mundial!), a grandeza, pois, do futebol, é despontar um garoto quase da idade que tinha o nosso herói dando toques de bola na Avenida da Liberdade.

No próximo domingo, o espanhol Lamine Yamal só fará a final europeia com 17 anos porque os acabou de fazer no dia anterior. Já podemos prognosticar a sucessão de felizes recordes que vai haver.

Por estes dias, a Net encheu-se de vídeos dele, há quatro anos, com ar de quem não pode ver vídeos para maiores de 12 anos e, de facto, ainda era garoto, mesmo, e já fazia maravilhas. A agência EFE acaba de anunciar que o Barça recusou uma oferta do PSG de 250 milhões pelo menor de idade.

Mas, mais do que encetar nova lista fantástica de recordes, e inundarmo-nos de números, é melhor saudar outra dimensão, mais funda, que o futebol e o desporto em geral permitem. Lamine Yamal (o mundo ainda não decidiu que vocativo vai perdurar: Lamine? Yamal?) homenageia os seus golos com uma mensagem. Faz-se fotografar e filmar e mostra às bancadas uns números poéticos ou cabalísticos. E repito o essencial: profundos.

Direitos Reservados

Ele ergue as mãos ao peito e cruza-as. A direita, aberta, exceto o polegar, leva-a ao coração, sobre o emblema na camisola. A esquerda compõe um grupo de três dedos erguidos (mindinho, anelar e médio) e o segundo com o indicador e o polegar fazendo um círculo. Não é bênção ou insulto. É um lindíssimo sinal de pertença.

Eu já vi um sinal idêntico e contei-o, comovido, em crónica da Mensagem de Lisboa. Em 2021, o português Neemias Queta aparecia no Draft da NBA, o evento em que os 30 clubes da liga de basquetebol escolhem os novos jogadores para o ano seguinte – e as televisões transmitem em direto para toda a América. Neemias aguardava em local público de Los Angeles e anunciaram-no para o clube Sacramento Kings – tornava-se o primeiro português a jogar na maior liga de basquetebol do mundo. Neemias levantou-se, beijou a mãe e expôs a sua camisola às câmaras. Mostrava um enigma bordado: “CQ MQ OQ –V. A. 2835”.

Na camisola ele trazia cosidas as raízes. As iniciais da avó, do pai e da mãe. Homenagem genética. E mais dizia: “V.A. 2835”, do Vale da Amoreira e respetivo código postal. Honra ao seu bairro, à pátria da sua infância.

Que versos tão bem encestados: “CQ MQ OQ / V.A. 2835”.

No Vale da Amoreira, povoação da Outra Banda – lugar de imigrações internas e longínquas, ainda anteontem de alentejanos que vinham para a Lisnave e Setenave e, agora, de africanos, porque o mundo é uma bola – há uma rua chamada João Villaret. Trago o declamador para aqui porque ele gravou as palavras de Sino da Minha Aldeia, de Pessoa, que nos recordam o mais fundo que mais longe de nós há. O sino da aldeia e, hoje, o cesto de basquete do bairro são o nosso que traz a saudade mais perto.

E aqui chegámos: o jogo de mãos, a dança de dedos do miúdo espanhol Lamine Yamal é o mesmo da mensagem Neemias Queta. É uma afirmação de pertença. Diz ele, como numa glória: eu sou de Rocafonda, lugar de Mataró, porto vizinho de Barcelona.

Se querem comunicar com o meu bairro, escutem este prefixo postal. E Lamine Yamal mostra uma mão, fazendo “três” dedos erguidos, e o “zero” com os outros dedos em círculo. E remata com a outra mão, mostrando “quatro” dedos.

Resumindo, “3-0-4”, quem quiser saber de Espanha 2024, tem de conhecer este símbolo. Uma afirmação, que é dita por este garoto quando se lhe espraia alegria. O que lhe acontece depois de fingir que vai por ali, mas vai por acolá e enfia a bola num cantinho inesperado. “3-0-4”, só um dolitá de miúdo?

Olhem que não, e falo só daquele estádio: dezenas de milhares de camisolas vermelhas e emblema dourado, famosas por significarem la fúria roja, explodem de alegria na bancada. Enfim, por toda Espanha, abraçam-se morenos estremenhos, princesas Bórbon alouradas, bascos de cara talhada à faca, e ciganas andaluzas.

O hino espanhol não tem letra, é só instrumental, talvez prudência por o país ter várias línguas co-oficiais. Pois a bizarria está resolvida, Espanha tem um código postal que a unifica. Lamine Yamal é filho de marroquino e de negra da Guiné Equatorial, nasceu em Esplugues de Llobregat, a meia hora de Barcelona, mas viveu em Rocafonda até aos 7 anos.
Aos lugares iguais ao inicial de Lamine Yamal, bairro imigrante, os racistas do partido VOX costumam chamar “esterco multicultural”.

Os ultras nos estádios de Madrid guincham como macacos ao brasileiro Vinicius Júnior. O menear dos dedos da mão, depois do fulminar do pé do nosso novo herói, será suficiente para o curar de meninges mentecaptas?

Dificilmente. Por cada Lamine Yamal, bom de bola e bom exemplo, espanhol legítimo e orgulhoso, peito feito oferecido ao seu país, há também um Ignacio Garriga, vice-presidente do VOX e líder do partido na Catalunha, que não se importa pelo menos desse mal absoluto, o racismo. Eu comparo os dois porque aos dois alguma coisa haveria de os unir nessa matéria: afinal, ambos são mestiços e filhos de negras originárias da Guiné-Equatorial.

Por que razão comecei este texto com o Cristiano Ronaldo?

Porque o futebol é simples e profundo. Faz avançar para lá das quatro linhas, porque os seus heróis, fascinando-nos com o que fazem e nós não sabemos fazer, têm o poder de exemplo. Poucas coisas em Portugal fizeram mais pela igualdade e o reconhecimento do mérito que o que se vê num campo de futebol. E nós não estamos em condição de vir a dar conta, nessa função tão importante, que não temos um líder, nem um exemplo, nem um fascínio. Ou pior, temos, e ele já não é.

Ferreira Fernandes

Nasceu em 1948 em Luanda. Jornalista – um ponto é tudo. More by Ferreira Fernandes

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