Um tubarão. Foi assim que tudo começou há sete anos quando o ator, encenador e dramaturgo brasileiro Marcelo Andrade deparou-se com uma imagem no Instagram de um tubarão no Mediterrâneo. A crise migratória surgia altamente noticiada naquela altura, e Marcelo não poderia ficar calado perante o drama que se vivia (e ainda se vive) em alto mar.

Começou a escrever uma peça de teatro. Mas não a conseguiu terminar.

teatro do imigrante na boca do tubarão
Marcelo Andrade (à esquerda): ator, encenador e dramaturgo. Foto: Rita Ansone

Sentiu que lhe faltava a experiência pessoal para se pôr na pele de um imigrante que chegava, vindo de longe, a um lugar novo. Só que, em sete anos, muito muda: Marcelo, tal como os que sobreviveram à travessia, tornou-se imigrante. Em Portugal, em Lisboa. E também ele, à sua maneira, passou a saber o que significa ser estrangeiro num país que não o seu.

Finalmente, conseguiu terminar o texto “Na boca do tubarão”, um drama que alude à crise migratória no Mediterrâneo, e que esteve em cena em maio na Sociedade Filarmónica Recordação D’Apolo, na Ajuda.

Uma obra que ditou o nascer do Teatro do Imigrante, uma companhia recém-formada por imigrantes brasileiros: além de Marcelo Andrade, Lorena Garrido, Alexandra Marinho de Oliveira, Tiago Braz, Gabriela Hedegaard e Geraldo Monteiro, mas também um migrante interno, Gonçalo da Costa Ramalho, de Santiago de Riba-Ui, no distrito de Aveiro.

Ser imigrante em Lisboa

Cruzaram-se em grupos comunitários de teatro, nas faculdades onde estudavam, em formações. Foi, aliás, num grupo comunitário de teatro de Alcântara que a advogada Lorena, nascida no Maranhão mas que, antes de vir para Lisboa, vivera 17 anos em São Paulo, conheceu Alexandra, atriz carioca, e Geraldo, ator do Recife. Alexandra, por sua vez, conheceu Gabriela, de Minas Gerais e formada em Teatro, e Gonçalo, também formado em Teatro, no Centro de Estudos de Teatro (CET).

Entretanto, Marcelo conheceu Tiago, sociólogo de Minas Gerais, no mestrado que frequentava na Universidade de Lisboa. E, mais tarde, conheceria Alexandra, Gabriela e Gonçalo numa oficina no Museu Nacional do Teatro e da Dança. Resultado: acabaram todos por se cruzar uns com os outros e por partilhar as experiências enquanto (i)migrantes num país (ou numa cidade) novo(a).

“Mesmo quando não quero, as pessoas lembram-me que sou imigrante”, diz Geraldo Monteiro.

E os atores falam de uma outra condição, que vai para lá da de imigrante: a de ser brasileiro. “Nós aqui não somos exatamente estrangeiros, nós somos os brasileiros, é uma condição específica de imigrante”, partilham.

Já contam muitas histórias nesta condição, dizem: até se entrosarem no mundo artístico, Tiago e Geraldo tiveram de trabalhar em restauração, em call-centers… e viram a vida dificultada para conseguir arrendar casa. “Quando percebiam que eu era brasileiro, diziam que a casa já estava arrendada”, conta Tiago. “Uma vez, pediram-me quatro cauções.” 

Mas as experiências não são iguais, e existem nuances.

Lorena fala da “subtileza” que reveste a discriminação de que é alvo enquanto mulher brasileira: “Existe uma grande questão em relação à sexualização do meu corpo, é uma questão delicada.” 

Alexandra diz sentir-se numa posição privilegiada, isto porque é do Rio do Janeiro mas tem também uma costela alemã. “A minha situação nunca é exatamente de imigrante por ser também alemã”, explica ela. Para além disso, veio para Lisboa fazer o seu pós-doutoramento. “O facto de estar na universidade faz com que não me sinta fora da sociedade.”

teatro do imigrante na boca do tubarão
Todos os membros tiveram de lidar com questões ligadas à discriminação. Foto: Rita Ansone

Gabriela, cujo pai é dinamarquês e a mãe brasileira, sente também esse dilema entre nacionalidades. “Eu nunca estou inteiramente em casa, tenho sempre um pedaço que está sempre do outro lado do mundo”, diz. E acaba por confessar: “Em contextos burocráticos, evito dizer que sou brasileira. Se vou enviar documentação para um contrato de arrendamento, envio em inglês e digo que sou dinamarquesa.” 

Mas a discriminação não se faz só sentir de país para país. Eles próprios dizem já ter sido discriminados em diferentes cidades brasileiras, mediante o seu lugar de origem. É o que Gonçalo da Costa Ramalho por vezes sente, vindo do Norte para a capital: é o sotaque, um certo desprezo por vir de uma terra pequena… 

Fazer teatro político sobre a imigração

Ao partilharem as suas experiências em espaços teatrais, perceberam como o teatro é, de facto, um espaço de acolhimento. E daí a ideia de, juntos, formarem uma companhia que abordasse as questões da imigração.

“O nome do grupo surgiu-me a propósito de um movimento que houve no Brasil nas décadas de 40 a 60: o Teatro Experimental do Negro”, explica Marcelo. Um teatro político, com o objetivo de valorizar a herança cultural e a identidade do afro-brasileiro. “Procurei um nome ao qual viesse atrelada essa vontade de falar sobre imigração.”

Para primeiro espetáculo, decidiram levar à cena “Na Boca do Tubarão“, o texto já escrito por Marcelo sobre a crise do Mediterrâneo. O texto abre com uma cena entre pai e filha numa tarde a pescar. Ele é candidato de um partido político nacionalista, ela revolta-se perante os ideais do pai… até que um tubarão rouba o braço ao pai. Tudo isto enquanto, vindas de longe, chegam lanchas de salvação com imigrantes que procuram uma nova vida.

teatro do imigrante na boca do tubarão
Foto: Rita Ansone

O espetáculo não explora, pois, as experiências pessoais de cada um dos seus atores.

“A questão política ligada à imigração implica as questões pessoais mas também uma questão macro. O espetáculo retrata as questões macro”, explica Alexandra. “Nós não temos interesse em representar uma nação, mas em discutir o conceito de nação. É por isso que nós não queremos falar do Brasil, não temos o Brasil na nossa peça.”

Com o texto escolhido, faltava apenas encontrar um espaço. Durante meses, foram ensaiando em diferentes lugares, ainda sem um espaço definitivo: no Pólo Cultural Gaivotas, na Boavista, na Fábrica do Braço de Prata, na casa uns dos outros. 

Foi uma vizinha de Lorena Garrido, que vive na Ajuda, que acabaria por lhe falar na Sociedade Filarmónica Recordação d’Apolo, uma associação recreativa e cultural com um auditório que não estava a ser utilizado. “Fizemos uma visita com os diretores do espaço e eles foram super recetivos”, conta Lorena. Conseguiram o espaço e foi ali que, durante seis dias, apresentaram o seu primeiro espetáculo.

teatro do imigrante na boca do tubarão
Os membros da companhia “Teatro do Imigrante”. Foto: Rita Ansone

O futuro do Teatro do Imigrante

Na Boca do Tubarão” esteve em cena durante seis dias, em que a receção foi surpreendente, dizem. Mas eles não querem que o caminho fique por aqui. A equipa quer acolher mais pessoas, de outras nacionalidades, para que possam contribuir para a discussão sobre a imigração.

“Nós tínhamos de começar em alguma altura, não íamos arrancar só quando tivéssemos uma representação maior, mas é isso que queremos”, diz Marcelo.

Para além disso, estão empenhados em procurar financiamento para conseguir reabilitar o espaço onde se encontram, na Sociedade Filarmónica Recordação d’Apolo. O objetivo é aqui organizarem oficinas e trabalharem com a comunidade. “A comunidade é muito importante para nós”, explicam.

Por agora, estes sete novos lisboetas sentem-se finalmente acolhidos pela sua cidade, graças ao espaço que encontraram para se expressar no Teatro do Imigrante.

“O teatro é também um lugar de acolhimento, o Teatro do Imigrante é um pouco isso. E fazemos deste grupo um lugar de resistência”, conclui Geraldo Monteiro com um sorriso.

teatro do imigrante na boca do tubarão
Foto: Rita Ansone

Ana da Cunha

Nasceu no Porto, há 28 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.

ana.cunha@amensagem.pt


O jornalismo que a Mensagem de Lisboa faz une comunidades,
conta histórias que ninguém conta e muda vidas.
Dantes pagava-se com publicidade,
mas isso agora é terreno das grandes plataformas.
Se gosta do que fazemos e acha que é importante,
se quer fazer parte desta comunidade cada vez maior,
apoie-nos com a sua contribuição:

Entre na conversa

2 Comments

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *