Este Verão, em busca do sonho de jogar basquetebol, Marcelo Martins, de 19 anos, mudou-se. Nascido em Portugal, mas chegado de Angola para o Vale da Amoreira, no concelho da Moita, em 2020, voltou a fazer as malas. Desta vez, para Bourg-lès-Valence, no sul de França, onde vive um dos tios. Tudo para jogar pelo clube local Valence Bourg Basket.
Embora o pai tivesse praticado a modalidade, Marcelo nunca sentira qualquer ligação àquele desporto. Mas isso mudou quando chegou ao Vale da Amoreira. E por causa de um nome que soou mais alto do que nunca em 2021: Neemias Queta.


Foi nesse ano que Neemias Queta apareceu no draft da maior liga de basquetebol do mundo, a NBA, no evento anual no qual as equipas de basquetebol americanas podem recrutar jogadores. Ali estava ele, com um código postal gravado no casaco: 2835.

Com esse número disse ao mundo de onde vem, do Vale da Amoreira, aquele código postal. E levou o bairro para a História do basquetebol internacional, que estaria prestes a acontecer-lhe: com 24 anos, foi o primeiro homem português a jogar na NBA, que é acompanhada por milhões e milhões de pessoas espalhadas por todo o planeta.
Foi há precisamente dois anos, a 17 de dezembro de 2021, que se estreou pelos Sacramento Kings quando recebeu a ordem para entrar em campo.
Agora veste a camisola dos Boston Celtics.
Queta tornou-se um ícone nacional e tudo começou ali, naquele bairro social da Margem Sul, onde a sua cara está imortalizada na empena de um prédio e, agora, num campo de basquetebol reabilitado. Diz quem lá mora que a modalidade nunca esteve tão presente nas ruas como está desde há dois anos.
Vale da Amoreira, capital do basquetebol?
Raros serão os lugares como este na região de Lisboa onde encontramos tantas crianças e jovens a brincar na rua. Num final de tarde, os ringues do Vale da Amoreira, no concelho da Moita, estão cheios de adolescentes a jogar futebol. Outras crianças que andam de bicicleta, correm atrás uns dos outros. E ainda outras que se divertem a jogar basquetebol… no campo onde Neemias costumava jogar.
O campo que acabou de ganhar uma nova cara, a do basquetebolista mais famoso das redondezas.

O piso foi alterado, as tabelas foram renovadas e foi o próprio Neemias Queta quem propôs que a peça artística ocupasse o campo todo — inicialmente, a ideia era preencher apenas metade do recinto — e exigiu que fosse colocada a linha de três pontos de acordo com as regras oficiais da NBA.
A remodelação foi uma iniciativa conjunta da Federação Portuguesa de Basquetebol, da Câmara Municipal da Moita e da União de Freguesias da Baixa da Banheira e Vale da Amoreira. Este foi o 47.º campo integrado no projeto 3x3BasketArt, que começou em 2018 e faz parte do programa nacional de promoção do basquetebol.
Fo um trabalho do artista local Pedro Pinhal, que já tinha pintado a face de Queta na tal empena. Ele que também é um filho deste bairro.
“Estou por cá quase desde o início da história do bairro”, explica Pedro Pinhal, 47 anos. “A minha família veio de Angola, e eu nasci quase à chegada deles a Portugal. Fui acompanhando a evolução do Vale da Amoreira, vi crescer muitas gerações, tivemos os exemplos dos mais velhos… O convívio tem de ser promovido e as pessoas também têm de conviver na rua”, conta o artista, que reflete sobre a importância de existirem equipamentos desportivos reabilitados ali no bairro.

A ideia foi trazer “uma nova vida” a este espaço onde Neemias Queta jogava nos seus anos de formação. “Na pintura, quis representar a entrada do Neemias na NBA, com alguns elementos que identificam a sua primeira equipa e a ligação que ele tem com o Vale da Amoreira. Ele fez questão de levar sempre o Vale da Amoreira. Na altura do draft, nos códigos que levou no seu casaco, estava lá o bairro”, conta o artista, referindo-se ao código postal 2835. “Além disso, o jogo de cores representa a multiculturalidade daqui do território.”
Embora o futebol continue a ser o desporto-rei em Portugal, e naturalmente também ali no Vale da Amoreira, é possível ver como o interesse em torno do basquetebol — muito à boleia do fenómeno local Neemias Queta — está a crescer no bairro.
Pedro Pinhal viu-o com os seus próprios olhos, enquanto pintava a empena. “Havia muitos jovens que iam lá praticar. E a partir daí comecei a ver muito mais movimento de pessoal a jogar. Continua a ver-se mais futebol, mas começou a sentir-se mais o basquetebol. O Neemias vai ficar na história e já mexeu aqui com muitas pessoas.”

Que o diga Gonçalo Silva, 12 anos, que vive mesmo ao lado do campo que foi agora renovado.
Até prefere o futebol, mas cada vez gosta mais de basquetebol — ainda que possa usar a mesma bola para os dois desportos, pelo menos nos tempos livres. “Tanto faz a bola, desde que dê para encestar. O campo está melhor, o chão agarra mais do que o antigo, dá mais jeito.” E conta que tem sentido o impacto de Neemias Queta na comunidade, dado que tem vários colegas que neste momento desenvolveram um interesse muito grande pela modalidade.
Marcelo Martins já leva o basquetebol mais a sério. Só mora ali desde 2020, quando veio de Angola e se mudou para casa da avó. O suficiente para o jovem angolano sentir o impacto que o legado de Neemias Queta tem gerado ali. “Até os mais velhos jogam por influência dele, praticam um pouquinho”, diz. “Costumo encontrar-me com amigos do Neemias, com quem ele também jogou. Espero um dia poder conhecê-lo pessoalmente e que possamos ter uma boa conversa, para que ele me dê alguns conselhos e dicas sobre como posso aperfeiçoar e desenvolver o meu basquetebol.”
Um desporto que nada lhe dizia. “Naquele momento eu ainda nem jogava basquetebol! Comecei a gostar por influência dele. Então, decidi apostar nisso e tenho vindo a crescer no basquete.”
Só esteve por França a jogar durante três meses, mas mantém o sonho de vingar na modalidade que é a sua maior paixão. “Desde que voltei, tentei ir jogar para o Barreirense, onde o Neemias também jogou, mas ainda não consegui. Vou continuar a tentar.”

O desporto como escape dos problemas sociais
Neemias Queta não é a única estrela desportiva do bairro, nem pouco mais ou menos. Liliana Cá e Edivaldo Monteiro foram atletas olímpicos de renome. Marco Soares foi, durante muitos anos, capitão de equipa da seleção de futebol de Cabo Verde. Também de uma nova geração, o futebolista brasileiro Felipe Ryan cresceu ali e agora joga pelo Lokomotiv Sofia, um dos principais clubes da Bulgária. E muitos outros houve.
Para Ricardo Rosa, um dos dirigentes da Associação Cultural, Desportiva e Recreativa do Vale da Amoreira, o desporto é uma peça fundamental para captar o interesse dos jovens no bairro, numa comunidade que enfrenta diversos “problemas sociais”. “Quero que seja um dos pilares da nossa associação, mostrar que o desporto pode ser uma forma de não ires pelos caminhos maus da vida”, explica o responsável de 27 anos.
Ricardo partilhou os tempos de escola com Neemias, além de ter sido colega de turma da sua irmã mais velha, que também foi basquetebolista.
“Felizmente, nunca entrei no mundo das drogas. Quase estive para entrar, mas o que me afastou foi o desporto, foi o que me levou a ter esta paixão. O desporto está aqui para formar jovens e essa é a minha missão”, assume.

A associação local é recente, só existe desde 2018. Ocupa o espaço do antigo CAVA (Centro de Atletismo do Vale da Amoreira), outrora um pólo importante de dinamização do desporto local, junto do campo reabilitado com a obra de Pedro Pinhal, onde o interior serve como espaço de convívio — e jogo, nomeadamente de cartas — para os idosos da freguesia, que ali passam o tempo e combatem a solidão.
Na sala que está fechada à chave, guardam-se as dezenas e dezenas de troféus conquistados pelos atletas locais ao longo dos anos.
“As associações têm o papel de fazer com que os jovens se sintam mais incluídos”, defende Ricardo. “Há caminhos alternativos, mais positivos, e o desporto é um deles. Eu sou um exemplo, o Neemias é outro, há muitos jovens aqui do Vale da Amoreira que fizeram carreiras no desporto.”
Nos últimos anos, Ricardo Rosa tem vivido sobretudo na Guarda, onde estudou desporto, cidade onde está ligado a diversos clubes locais enquanto treinador e formador de futebol. Também ele tem conseguido construir uma carreira na área do desporto.
O objetivo passa por organizar cada vez mais torneios no Vale da Amoreira — o futsal é o que tem mais saída, mas querem apostar rapidamente no basquetebol e noutras modalidades. No fundo, potenciar a prática que tanto existe ali, e que tem tudo a ver com os convívios de rua. “Quando eu era pequeno, na minha rua pegávamos em duas pedras, fazíamos umas balizas e divertíamo-nos até à meia-noite ou até às duas da manhã”, recorda Ricardo Rosa. “Sempre foi assim.”
O jovem treinador assegura que, mesmo que não haja condições financeiras por parte das famílias, a associação pretende assegurar todos os recursos para que os jovens locais possam praticar desporto nos torneios ou clubes da região.
“Se as associações acreditarem no potencial dos miúdos aqui da terra, de certeza absoluta que os miúdos chegarão longe e vão conseguir alcançar os seus sonhos. Nós temos de ser a base inicial da ajuda. Se todos estes talentos conseguiram, se o Neemias consegue, se até eu consegui, porque não?”

Pedro Pinhal reforça a ideia de que o desporto é essencial em comunidades como o Vale da Amoreira. “Porque sabemos o que acontece por aí. Há modos de vida que são aliciantes e depois as pessoas perdem-se por esses caminhos e o desporto é uma forma de fugir a eles. Porque oportunidades para esses caminhos há muitas, e o insucesso escolar também ajuda. Estes campos de bairro são muito importantes porque é onde, e falo por experiência própria, vamos aprendendo algumas coisas. São o ponto de partida. E depois são os clubes locais, que são uma porta de entrada para que se mantenham em competição, tenham essa experiência do jogo em equipa, de ganharem algumas competências, e os clubes maiores depois vêm cá buscar os melhores jogadores.”
O artista urbano conhece muitos talentos locais desde miúdos e sente “orgulho” por poder ter acompanhado o seu sucesso. “Quem vive aqui sabe a dificuldade de assumirmos que somos daqui. Estes bairros estão um bocado conotados com violência, criminalidade… Essa parte é muito fácil de apontar, mas também temos de mostrar os exemplos. E o Vale da Amoreira tem muito talento.”


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