É a maior Feira do Livro de sempre esta 94.ª edição, que se realiza até 16 de junho, entre os jacarandás em flor do Parque Eduardo VII. Nos 350 pavilhões, correspondentes a quase mil chancelas e instituições, não faltam livros sobre Lisboa ou em que esta assume papel principal – da Olisipografia à poesia, passando pelos melhores romances, nacionais e estrangeiros, ambientados na cidade.
Eis a seleção de Maria João Martins, jornalista e apaixonada por Lisboa… que não deve impedir de fazer as suas descobertas:
A Cerca Fernandina, A. Vieira da Silva (Pavilhão loja das BLX)

Para quem procura livros sobre a História da cidade, impõe-se uma paragem demorada no stand das BLX, logo na entrada sul da Feira. A preços muito convidativos, é possível encontrar clássicos da Olisipografia, em tempos editadas pela CML, como as obras de Augusto Vieira da Silva, primeiro presidente do Grupo Amigos de Lisboa e primeiro diretor do Museu da Cidade. O seu espólio, adquirido pela CML na década de 1950, é de tal maneira importante que esteve na origem na constituição do Gabinete de Estudos Olisiponenses. Nesta obra, está em foco, como o título indica, a construção da cerca de Lisboa por ordem do rei D. Fernando, fundamental na defesa da cidade quando, anos depois, esta foi sujeita a um prolongado cerco pelos castelhanos.
A Cerca Moura, A. Vieira da Silva (Pavilhão loja das BLX)

Do mesmo autor, outro clássico da Olisipografia, que analisa o sistema de defesa da cidade na época dos muçulmanos e os vestígios arqueológicos
que dela ainda restavam na Lisboa do século XX.
A Palavra Lisboa na História do Jornalismo, Albino Lapa (Pavilhão loja das BLX)

Lisboa Pittoresca, Gazeta de Lisboa, O Lisbonense ou, mais recentemente, Diário de Lisboa são alguns dos títulos de publicações periódicas que tiveram os lisboetas como público preferencial e que fizeram questão de o anunciar no título. Neste volume precioso, Albino Lapa consegue recuar ao século XVII no inventário de títulos e ainda nos diz quem foram os principais nomes associados a tais publicações.
Crónicas de Lisboa, Ferreira Fernandes e Nuno Saraiva (Asa/Leya)

Chama-se a isto chamar a brasa à nossa sardinha, mas é por uma boa causa: O interesse dos leitores. Das histórias publicadas originalmente em A Mensagem, passou-se ao volume, que reune os textos do jornalista Ferreira Fernandes e as ilustrações de Nuno Saraiva. Lá estão algumas das mais saborosas histórias da cidade e seus habitantes como a Júlia Florista, o Carlos do Carmo, a Madame Brouillard ou o Santo António.
Saiba mais aqui:
A Mulher na Toponímia de Lisboa, Luiz Silveira Botelho (CML)

Os nomes femininos estão em minoria na toponímia da cidade, como na maior parte dos lugares, mas, ainda assim, não faltam referências a grandes figuras como Maria Lamas, Natália Correia ou Florbela Espanca ou a outra menos conhecidas, mas com histórias fascinantes para nos contar como Edith Cavell ou Maria Ulrich. O inventário está todo neste volume.
Lisboa Desaparecida, Marina Tavares Dias (Quimera)

Ao longo de décadas de levantamento exaustivo e oito volumes cheios de iconografia inédita, a olisipógrafa Marina Tavares Dias revisita uma Lisboa que já não há. Estão lá mercados como o da Praça da Figueira, cinemas como o Éden ou o Condes, cafés como o Monte Carlo ou o Chave D’Ouro, lojas que já só vivem nas memórias dos mais velhos como os Armazéns do Chiado, a Perfumaria da Moda ou a Kermesse de Paris. Vale a pena ir à procura destas obras, que, a partir de meados dos anos 1980, relançaram o interesse pela Olisipografia junto do grande público.
Neill Lochery, A Guerra das Sombras na Cidade da Luz (Casa das Letras/Leya)

Quem quser saber mais sobre a agitada vida da cidade durante a IIª Guerra Mundial que foi alvo do trabalho de Ferreira Fernandes e Vhils no Porto de Lisboa – sobre a fotografia de Roger Kahan – , é o objeto de estudo do historiador britânico Neill Lochery que se debruçou sobre documentos inéditos dos serviços secretos de vários países e dos arquivos bancários, revelando aspetos até aqui desconhecidos.
A Casa das Letras acaba de publicar um novo título de Neill Lochery, Lisboa II – Os Países Neutros e a Pilhagem Nazi.
O Ano da Morte de Ricardo Reis, José Saramago (Caminho/Leya)

Num dos mais celebrados romances de Saramago, Ricardo Reis, heterónimo de Fernando Pessoa, chega a Lisboa, vindo do Brasil, a 29 de dezembro de 1935.
Deambula por lugares como Largo de Camões, Alto de Santa Catarina, Calçada do Combro, Bairro Alto ou Cemitério dos Prazeres.
Mas, à medida que caminha, a personagem dá-nos também um retrato social da Lisboa que viveu a ascensão da ditadura salazarista. Uma Lisboa assombrada pelas injustiças e pela opressão.
Lisboa, um Melodrama, Leopoldo Brizuela (Publicações Dom Quixote/Leya)

Pode uma longa e intensa noite marcar e mudar irreversivelmente a história de um conflito?, pergunta o escritor argentino Leopoldo Brizuela neste romance passado, uma vez mais, na Lisboa contemporânea da Segunda Guerra Mundial.
Aqui, no equilíbrio instável entre a paz e a guerra, convivem a fadista Amália, o casal Tânia e Enrique Santos Discépolo, o Cônsul argentino, o misterioso Ricardo De Sanctis que assegura ser banqueiro e «refugiado pessoal» do Patriarca de Lisboa.
Todos querem chegar a bom porto e é nessa demanda que se concentra a tensão e o romantismo desta história construida como uma delicada, mas sólida, peça de arquitetura.
Lisboa, livro de bordo, José Cardoso Pires (Relógio d’Água)

“Lisboa é uma cidade de que é fácil gostar. Não recusa nenhum acrescento, absorve-o. Mesmo os aleijões”, declarou Cardoso Pires em 1998, numa entrevista aquando do lançamento desta obra, que é uma autêntica carta de amor à cidade onde ele viveu boa parte da vida. Chama-lhe “cidade de navegar”, «que junta na mesma cama o pecado e a virtude» e passa por lugares tão míticos como o Cais do Sodré ou o British Bar.
Na viagem, Cardoso Pires leva consigo personagens de romances seus como Sebastião Opus Night, de Alexandra Alpha.
Os Maias, Eça de Queirós (Porto Editora)

No centro da intriga, já se sabe, estão os amores trágicos de Carlos e Maria Eduarda da Maia, testemunhados por personagens tão inesquecíveis como João da Ega, Afonso da Maia, Dâmaso Salcede, o poeta Alencar ou a Condessa de Gouvarinho. Mas há uma outra personagem omnipresente ao longo de todo o romance de Eça de Queirós: a cidade de Lisboa, na qual as outras vivem, amam ou desesperam. Da quinta de Benfica ao Chiado, do Teatro de São Carlos à Casa Havaneza, sem esquecer o Turf Club e o Passeio Público, que no final do romance se verá transformado na bem mais ampla Avenida da Liberdade. Uma obra indispensável para saber como era a Lisboa burguesa da 2ª metade do século XIX.
Livro do Desassossego, Bernardo Soares (Assírio e Alvim, grupo Porto Editora)

“Se eu tivesse o mundo na mão, trocava-o, estou certo, por um bilhete para a Rua dos Douradores», pode ler-se nesta obra, descoberta tardiamente mas decisiva para o conhecimento do complexo universo literário de Fernando Pessoa.
Aqui, a Baixa de Lisboa, muito mais do que um cenário, é uma autêntica personagem.
LX 60, LX 70 e LX 80, Joana Stichini Vilela (Dom Quixote, Leya)

São três volumes imperdíveis para conhecer as histórias mais saborosas da vida quotidiana lisboeta nestas três décadas. Ou para lembrar outras. Estão lá os Porfírios Contraste, os craques da bola, o Botequim de Natália Correia, as Doce, o escândalo dos Ballet Rose, os festivais da canção, o fascínio da TV a cores ou os turbulentos dias do PREC – Processo Revolucionário em Curso. Tudo ilustrado e desenhado como belos objetos.
A Escola do Paraíso, de José Rodrigues Miguéis

Não é fácil encontrar este título (como outros do seu autor) uma vez que a editora, a Estampa, já encerrou portas e há um prolongado conflito entre os descendentes de Miguéis e os editores, mas vale a pena procurar nos stands de alfarrabistas.
Ambientado em Alfama, na passagem da monarquia para a república, este livro, que tem uma criança como narrador, tem “apenas” dois protagonistas: Lisboa e o Tejo. É um dos mais belos livros alguma vez escritos sobre a cidade.

Maria João Martins
Nasceu em Vila Franca de Xira há 53 anos mas cresceu na Baixa de Lisboa, entre lojas históricas e pregões tradicionais. A meio da licenciatura em História, foi trabalhar para um vespertino chamado Diário de Lisboa e tomou o gosto à escrita sobre a cidade, que nunca mais largou seja em jornais, livros ou programas de rádio.

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