Às quatro e vinte seis da madrugada de 25 de Abril de 1974, a voz segura de Joaquim Furtado lê, aos microfones do Rádio Clube Português, e ao país, o primeiro comunicado do Movimento das Forças Armadas (MFA). Pouco antes de sair de casa para o banco, um amigo bateu à porta de Lurdes Fernandes, avisando que alguma coisa estava para acontecer, havia movimentações militares nas ruas.
O testemunho de Lurdes Fernandes, hoje com 74 anos, é o quarto da série “Lisboa que Amanhece”, que pediu o título emprestado a uma das canções mais bonitas sobre Lisboa, da autoria de Sérgio Godinho. Porque foi o que aconteceu naquele dia. Lisboa amanheceu e fez amanhecer o país todo.
Veja aqui o quarto episódio:
Lurdes Fernandes, hoje bancária reformada, dirigente do Clube Estefânia e aderente do Movimento Democrático de Mulheres (MDM), tinha 24 anos no 25 de Abril de 1974.
Desde os 19, trabalhava no banco Pinto & Sottomayor, na Av. da Liberdade. Foi das primeiras mulheres a trabalhar no setor da banca. Os homens estavam na guerra. Era sindicalizada. Escrevia no jornal do sindicato. Vivia com o companheiro, em Arroios, e estavam os dois ligados à oposição à ditadura.
Sabia o que era ter medo, o que era ter um pide à porta a vigiar, o que era precisar de ter cuidado com o que dizia, não fosse estar um “bufo” à escuta das conversas.



Naquela manhã de quinta-feira, levantou-se como todos os dias para ir para o banco, onde entrava às 8:00. Antes de sair, um amigo bateu-lhe à porta. Havia movimentações militares nas ruas. O regime estava prestes a cair. Uma inquietação como aquela que o Zé Mário Branco cantou invadiu-a. Foi para o banco.
“Quando fui, já sabia que alguma estava para mudar no campo político. E quando cheguei confirmou-se. Organizámo-nos e fechámos os bancos. Depois fomos todos para a rua e era uma confusão. Gente a correr para um lado, gente a correr para outro.”
Não havia telemóveis e era através do passa-palavra que a informação chegava. Lurdes foi para o Largo do Carmo, onde tudo estava a acontecer. Andou pela cidade e era uma “espécie de bebedeira”. “É desta? Será que já não vou voltar a ter medo?” – questionou-se.


À tarde foi para o sindicato, para recolher e passar informações. E aconteceu tudo num ápice. Uma semana depois em que os dias se confundem foi o primeiro 1 de Maio em liberdade e Lurdes foi uma das que ajudou a organizá-lo.
Para trás ficavam os primeiros 24 anos de vida, vividos em ditadura.
“Era mau de mais. A ditadura, o fascismo, não deixa crescer, não deixa evoluir, não deixa fazer o que se quer, é só o que deixam e depois era o medo constante. Por isso, quando se dá o 25 de Abril é uma coisa indescritivelmente boa. Não vou voltar a ter medo”, remata.
“Lisboa que amanhece”: a série da Mensagem de Lisboa nos 50 anos do 25 de Abril
Às 22h55 de dia 24 de abril de 1974, os Emissores Associados de Lisboa tinham passado a canção E Depois do Adeus, na voz de Paulo de Carvalho. Estava dada a senha. Às 00h20 de 25 de Abril, na Rádio Renascença ouviu-se Zeca Afonso cantar a Grândola Vila Morena Era o sinal. A revolução que derrubaria 48 anos de ditadura estava em marcha.
E apesar de às 04h26 o primeiro comunicado do MFA ter apelado a que os portugueses ficassem em casa, na cidade de Lisboa, foram muitos os que não ficaram. O que os fez sair? Como foi aquela manhã? O que viram nas ruas e nas caras uns dos outros? Que ambiente se vivia na cidade?
Foi isso que procurámos ir buscar ao passado e tornar presente nesta série sobre as primeiras horas de liberdade naquele dia inicial de há 50 anos. O 25 de Abril de 1974.
REVEJA AQUI OS OUTROS EPISÓDIO DA SÉRIE “LISBOA QUE AMANHECE”:

Catarina Pires
É jornalista e mãe do João e da Rita. Nasceu há 51 anos, no Chiado, no Hospital Ordem Terceira, e considera uma injustiça que os pais a tenham arrancado daquele que, tem a certeza, é o seu território, para a criarem em Paço de Arcos, terra que, a bem da verdade, adora, sobretudo por causa do rio a chegar ao mar mesmo à porta de casa. Aos 30, a injustiça foi temporariamente corrigida – viveu no Bairro Alto –, mas a vida – e os preços das casas – levaram-na de novo, desta vez para a outra margem. De Almada, sempre uma nesga de Lisboa, o vértice central (se é que tal coisa existe) do seu triângulo afetivo-geográfico.

Inês Leote
Nasceu em Lisboa, mas regressou ao Algarve aos seis dias de idade e só se deu à cidade que a apaixona 18 anos depois para estudar. Agora tem 23, gosta de fotografar pessoas e emoções e as ruas são o seu conforto, principalmente as da Lisboa que sempre quis sua. Não vê a fotografia sem a palavra e não se vê sem as duas. É fotojornalista e responsável pelas redes sociais na Mensagem.

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