Foi num primeiro andar da Rua Almeida e Sousa, mesmo em frente ao Jardim da Parada, em Campo de Ourique, que o realizador Fernando Matos Silva cresceu. Num bairro para onde o avô republicano, natural da vila de Almeida, escrivão de Direito, amigo de Afonso Costa (grande protagonista da Primeira República e três vezes primeiro-ministro de Portugal), veio viver no início do século XX.

Fernando Matos Silva, cineasta
Fernando Matos Silva, realizador. Foto: Líbia Florentino

A avó – uma das primeiras professoras do ensino especial em Portugal, numa então pioneira escola para crianças com deficiência, ao cimo da Rua Domingos Sequeira, à entrada de Campo de Ourique – foi uma das mulheres que bordou a bandeira da República Portuguesa, proclamada a 5 de Outubro de 1910. No dia antes, na Rua Ferreira Borges, foi disparado o primeiro tiro da revolução republicana. É uma herança de que Fernando Matos Silva claramente se orgulha, tanto que lhe dedicou um filme: O meu avô republicano, que realizou e interpretou.

E ele também teria um papel na história: Fernando tornar-se-ia realizador do último filme proibido pela censura em Portugal e o primeiro a estrear depois do 25 de Abril de 1974. Chamaram-lhe O Mal Amado.

Campo de Ourique: o bairro-personagem

“Este era o bairro dos republicanos”, diz o realizador. Foi ele quem decidiu fazer de Campo de Ourique mais do que cenário, coprotagonista omnipresente de O Mal Amado, filmado em 36 dias, entre maio e junho de 1972, com a prata do bairro.

A escolha do bairro de Campo de Ourique como pano de fundo, que assume tal protagonismo que é como se fosse também personagem, tem que ver com a herança familiar e republicana de Fernando Matos Silva que, em 1940, nasceu por acaso em Vila Viçosa, mas cresceu e viveu aqui até aos 10 anos.

“Escolhi Campo de Ourique porque foi um bairro onde vivi coisas importantes e achava que era especial e era importante, para o que eu queria fazer, haver essa ligação entre os personagens e o bairro, uma ligação carnal, física, útil até para os atores construírem os personagens”, explica o realizador.

O Mal Amado Fernando Matos Silva
João Mota (João) e Maria do Céu Guerra (Inês) são os protagonistas de O Mal Amado, uma história portuguesa vista de Campo de Ourique. Foto: PressKit O Mal Amado/Cinemateca.

“João” é uma personagem interpretada pelo ator João Mota e a casa de família dele era dos tios de Fernando, “uma casa da época, fabulosa, com os móveis certos, casa de jantar, cozinha, tudo, não tive de me preocupar com nada”.

Já a casa da “Inês”, interpretada por Maria do Céu Guerra, era na rua Luís Derouet e também foi emprestada. “Era de uma jovem chamada Adélia que eu acho que nunca conheci, amiga de amigos que achou bestial emprestar a casa, era toda práfrentex”.

O Meu Café, na Rua da Infantaria 16, e a Tentadora, na Ferreira Borges, “também acharam bestial” serem cenário de filme.

“Eu conhecia muito bem aquela gente toda, porque apesar de nos termos mudado para Algés aí pelos meus 10 anos, continuava a vir muito aqui porque tinha cá grandes amigos e os meus lugares – o Cinema Europa, que era na Francisco Metrass, o Gigante, que era um salão de jogos, na Ferreira Borges, a Tentadora, o Meu Café, a livraria Ler e a Barata, que eram as únicas onde um gajo podia comprar livros proibidos… e isso entra tudo no filme.”

A Tentadora Campo de Ourique
A célebre Tentadora, na Rua Ferreira Borges, era uma das pastelarias de infância de Fernando Matos Silva, que depois de adulto continuou a lá ir muitas vezes, sobretudo quando as filhas eram pequenas. Foi aqui filmada uma das cenas de O Mal Amado. Foto: Líbia Florentino

O Mal Amado foi feito com financiamento da Fundação Calouste Gulbenkian, através do recém-criado Centro Português de Cinema – mil contos (5 mil euros em moeda atual) –, e total liberdade.

“Quando tive o dinheiro da Gulbenkian, decidi que era para fazer um filme livre e convidei o Álvaro Guerra, escritor de quem era amigo, na altura redator do jornal República, mas que tinha conhecido porque ele trabalhava numa agência de publicidade como a maioria dos escritores na época, para ganhar a vida, e ele, eu e o meu irmão João [Matos Silva] escrevemos o guião”, conta.

Um guião e um filme que obviamente chocariam com a censura do regime, que nunca deixaria passar as lutas estudantis, a violência policial, as músicas de protesto ou as cenas de sexo. Mas isso não era coisa que preocupasse Fernando Matos Silva, que depois das filmagens em 1972 levou ano e meio a editar e montar filme e o submeteu à censura em fevereiro de 1974, que o proibiu e confiscou o negativo.

Fernando Matos Silva, cineasta
Fernando Matos Silva escreveu, com Álvaro Guerra e João Matos Silva, e filmou O Mal Amado com total liberdade, como se não existisse censura. Mas existia e o filme foi proibido. Estrearia três meses depois, após o 25 de Abril de 1974. Foto: Líbia Florentino.

“Foi uma luta surda, mas importante. Houve ameaças, sabe? O Azeredo Perdigão [presidente da Fundação Calouste Gulbenkian à época] elogiou muito, mas disse logo: ‘sabe que vai ter problemas com a censura, não sabe?’. O nosso coronel Melo Antunes, a quem mostrei o filme em março, na sala da Tobis, porque ele ia ser mandado de castigo para os Açores, disse que era do caraças e ia ser o primeiro a estrear depois da revolução”, lembra o cineasta.

E foi, a 3 de maio de 1974.

“Nem foi preciso o MFA mexer-se porque o distribuidor estreou logo. Durante um mês, esteve sempre cheio, mas depois as distribuidoras americanas também tinham filmes para exibir e nem sei se chegou às seis semanas em Lisboa”, lembra Fernando Matos Silva.

“Éramos todos mal amados”

Cartaz do filme O Mal Amado. Foto: site da Cinemateca

Como Fernando, “João”, o protagonista de O Mal Amado, cresceu em Campo de Ourique e ali vive. Filho rebelde de uma família tradicional portuguesa da média burguesia, com um pai chefe de família autoritário e no entanto lambe-botas de quem lhe está acima. Uma mãe dona de casa, afetuosa, que sabe fazer nós de gravata e põe a comida na mesa e lava a loiça e é infeliz, recatada, e do lar a que a condição de mulher a prende. Prisão a que as filhas, as duas irmãs mais novas do João, minissaia, calções, saídas à noite, parecem estar a escapar nas barbas – ou melhor, bigode – do pai.

O mesmo que também parece não dar pela Tourada, que se ouve ao longe, cantada por Fernando Tordo, nem pelo poster do Che Guevara no quarto de João, estudante de Económicas – como Fernando Matos Silva, que também não acabou o curso. É capaz, no entanto, de ter percebido que o filho andava envolvido em atividades e leituras subversivas, que implicavam fugir à polícia e que a universidade era um ninho de insurretos.

Vai daí empenhou-se em arranjar emprego ao rapaz, movendo influências com um “senhor doutor” seu conhecido que lhe conseguiu um lugar numa empresa de estudos de mercado. Os “senhores doutores” merecem-lhe toda a deferência e nisso não faz distinções de género, como se verá quando vai a casa da “Senhora Doutora Inês”, chefe do filho – mas isso é mais à frente.

Entre a luta que deixa para trás e a guerra colonial, que está subjacente no horizonte, o emprego é como que uma capitulação do “João”. Mas não total, porque há nele um inconformismo latente, uma rebeldia mansa e irónica, dada a ver na disputa com a gravata e depois no caminho que faz pelas ruas de Campo de Ourique, de onde sai para o primeiro dia de trabalho, o pontapé no miúdo, que lhe chama “cabrão”, o corte de cabelo na barbearia do bairro (“onde todos cortávamos o cabelo”, lembra Fernando Matos Silva), o discurso às massas a fingir, em frente à montra da loja de eletrodomésticos, a viagem de autocarro.

Vencido o labirinto dos corredores do escritório, ali para os lados das Amoreiras, depois de ter dado um livro sobre sindicalismo ao porteiro antifascista que fingia não saber ler, eis que “João” chega ao futuro posto de trabalho, onde é o único homem. A chefe, “Inês”, mulher forte, decidida, independente, leva-o para a cama em menos de nada. A cena de sexo no corredor enquanto ele telefona aos pais a avisar que não vai dormir a casa marca a passagem de “João” da alçada da família para a alçada da chefe.

Ela, obcecada pelo irmão que morreu na guerra e por quem tem um amor a roçar o incestuoso, vê em “João” o substituto perfeito. Mas está-se mesmo a ver que a coisa vai correr mal. A jovem “Leonor” (interpretada por Zita Duarte), colega de trabalho, vem criar um triângulo amoroso que deixa de o ser depois de um beijo que nunca mais acaba à volta de um candeeiro de Campo de Ourique.

“João” vai a casa de “Inês” acabar tudo e nesse momento assina a sua sentença de morte.

Uma história portuguesa vista de Campo de Ourique” era outra das hipóteses de título para o filme escrito por Álvaro Guerra, Fernando Matos Silva e o irmão João Matos Silva. Ficou O Mal Amado, “porque é mais bonito e porque éramos todos mal amados”, explica Fernando, junto à “tia Maria da Fonte”, a estátua da revolucionária nortenha que marcou a infância do cineasta e de quem falará ao longo desta conversa.

Eram todos mal amados por quem?

“Pelo regime, evidentemente, que não gostava de nós, que nos educava mal, que nos mandava para a guerra. A história que nos vendiam era mentira. Tínhamos uma vida de família, mas se as famílias não fossem esclarecidas, se não fossem politicamente corajosas, ninguém sabia nada”, diz Fernando Matos Silva.

Fernando Matos Silva, cineasta
A estátua de Maria da Fonte, no Jardim da Parada, foi uma figura tutelar da infância de Fernando Matos Silva. Foto: Líbia Florentino.

O Mal Amado é contra isso tudo. É contra um bas-fond político e social e cultural e crítico que existia e que está no filme, que tem canções de protesto, tem textos proibidos, tem manifestações de estudantes, tem a polícia onde não deve estar, a bater nas pessoas, tem tudo o que era o subterrâneo social e cultural e não podia vir ao de cima, e está também na liberdade da própria imagem e da construção da narrativa”, diz o realizador.

Por exemplo, ri e lembra: “Isto que nós estamos aqui a fazer, os três, se passasse um polícia dizia ‘os senhores não podem estar aqui juntos. É proibido o ajuntamento de mais de uma pessoa’ (isto era o que a gente dizia a gozar, eles diziam de mais de duas pessoas, mas a gente gozava porque achava que os polícias eram todos burros). Portanto, era isto que se vivia e O Mal Amado é contra isso, contra esse lado escondido da vida portuguesa”.

A Tentadora Campo de Ourique
Campo de Ourique, bairro repulicano de onde saiu a revolução que derrubou a monarquia em 1910, é o pano de fundo de O Mal Amado, um filme contra a ditadura e tudo o que esta significava na sociedade portuguesa. Foto: Líbia Florentino

A ilha de Campo de Ourique, representante daquele Portugal da República

Se, por um lado, Campo de Ourique foi uma decisão emocional para o realizador, por outro, representava o Portugal da República, e era perfeito para encarnar os arquétipos da sociedade de então.

“A cena d’O Meu Café, típico café de bairro, à antiga, onde as pessoas se sentavam para beber a bica e tinha um balcão à entrada, onde os bêbados se encostavam a beber copos, de certa maneira, é o mundo português daquela altura, o casal de estudantes, o engraxador, que era o Belarmino [mítico lutador de boxe lisboeta dos anos 1950], de quem eu era muito amigo, a prostituta, que entra e diz qualquer coisa, a fadista, que era a minha prima Maria do Rosário, e leva uma bofetada do homem dela e canta o fado, o operário de fato de macaco, que fala do Totobola e pede um copo de vinho e eu, o meu irmão e o Álvaro Guerra, maquilhados, a fazermos de velhos conspiradores revolucionários”.

A Tentadora Campo de Ourique
Foto: Líbia Florentino

Velhos conspiradores que dizem que a revolução está por dias e que o General Costa está com a revolução, o que levou uma senhora, na estreia do filme, a chegar-se a Fernando Matos Silva e a perguntar-lhe: “diga-me lá uma coisa, o senhor já sabia da Revolução, não sabia?”

“Foi engraçado. O general Costa foi uma coincidência, mas é giro porque vem confirmar aquela boutade que nós dizíamos do cinema novo, que é que a realidade imita o cinema”, diz o cineasta.

Fernando Matos Silva, cineasta
“A cena no Meu Café [fronteiro ao Jardim da Parada, na Rua da Infantaria 16], de certa maneira, é o mundo português daquela altura”, diz Fernando Matos Silva. Foto: Líbia Florentino

Voltando a Campo de Ourique, Fernando Matos Silva lembra como o bairro era, naquela altura, uma espécie de território fechado e periférico. “Ao fundo da minha rua, a Almeida e Sousa, eram terras e havia grutas de cal, tirava-se cal daquelas fragas ali onde é o Casal Ventoso, que aliás é feito com operários da indústria da cal. Isto era uma ilha, a ilha onde ele [o João, de O Mal Amado] sempre viveu, cresceu, lutou”, diz o realizador.

“Quando ele vai na rua e dá o pontapé ao miúdo, que é o Manuel João Vieira [pintor e músico dos Ena Pá 2000 e Irmãos Catita], que era filho de uma amiga minha, que lhe chama ‘cabrão’, é o futuro, o futuro estava em pontapés. E o caminho é todo feito até ao Cinema Europa, onde a gente ia em miúdos, ver os filmes da Disney. E, quando apanha o autocarro, é a despedida de Campo de Ourique, da vida de que ele gostava e naquele momento o bairro entra dentro do autocarro, refletido em várias imagens. É muito bonito”, diz Fernando Matos Silva, enquanto anda pelo Jardim da Parada.

“Só por graça, este cabeleireiro [na Rua da Infantaria 4], não sei se ainda é o mesmo, mas é no mesmo sítio, foi onde a gente fez a maquilhagem. E agora vamos aqui cumprimentar a nossa amiga, a minha “tia” Maria da Fonte [para junto da estátua da Maria da Fonte].”

O princípio de um cineasta no Cinema Europa

Quando Fernando Matos Silva era miúdo, a Maria da Fonte estava num local mais central e mais elevada do chão, como nesta foto do Arquivo Municipal de Lisboa. Era uma espécie de companheira de brincadeiras da rapaziada.

Quando o Fernando era pequeno, a estátua da Maria da Fonte estava mais alta (ou era ele que era mais baixinho) e ocupava um lugar mais central no Jardim Teófilo Braga, que toda a gente conhece como Jardim da Parada.

A vida passava-se toda aqui e a estátua era tutelar.

“A minha tia Maria da Fonte fazia parte das nossas brincadeiras, brincávamos à volta dela, estávamos proibidíssimos de subir e eu nunca subi, mas olhávamos para ela e tentávamos adivinhar o que estaria a pensar e às tantas dizíamos: ‘olha, ela está a mandar-nos embora, de boca aberta, está a dizer, ‘desapareçam daqui, putos’. É uma estátua muito bonita, não é? E também entra n’ O Mal Amado”, conta Fernando Matos Silva, despedindo-se da “tia”.

Lembra outra brincadeira parva: a dos acidentes de carro que eram motivo de apostas.

Agora a maioria das ruas só tem um sentido, mas naquela altura, todas tinham dois sentidos e, de acordo com a memória do realizador, era raro o dia em que não houvesse um choque entre dois carros, o que levava à brincadeira de adivinhar quantos carros iam chocar nesse dia. “Era uma brincadeira um bocado estúpida, mas a gente divertia-se e quando acontecia um acidente íamos a correr e ficávamos a ver aquela gente a discutir, até a nossa empregada, a Almerinda, uma figura minhota, muito engraçada, vir à procura dos meninos e enxotar-nos para casa.”

Cinema Europa, na Rua Francisco Metrass. Quando era pequeno, Fernando Matos Silva via aqui todos os filmes da Disney, mais crescido, vinha cá para as sessões duplas, e no filme O Mal Amado, o cinema é como que uma fronteira que João passa quando apanha o autocarro para o trabalho. Foto: Arquivo Municipal de Lisboa.

O Cinema Europa era outro dos lugares de Fernando Matos Silva e pode bem ter sido lá, e nos livros de banda desenhada, que se fez o cineasta e se perdeu o informático. “Quando éramos miúdos íamos muito ao cinema, íamos em grupos e enchíamos filas com primos, primas, amigos e amigas, e mais velhos íamos sempre ao Europa, para as sessões duplas, éramos uns felizardos porque podíamos ver sempre dois filmes. A paixão do cinema vem um bocado daí”.

Estudante de Económicas durante dois anos, Fernando Matos Silva desistiu do curso e teve de ir trabalhar. Trabalhava em mecanografia, na CUF, mas a paixão pelo cinema estava lá e em 1961 fez um curso com António da Cunha Telles (grande realizador, produtor e distribuidor de cinema), que depois o convida para assistente de realização de Os Verdes Anos, de Paulo Rocha, que produziu.

Fernando Matos Silva, cineasta
Fernando Matos Silva estreou-se no cinema como assistente de realização de Os Verdes Anos, de Paulo Rocha, a convite de António da Cunha Telles. Foto: Líbia Florentino

“Eu, na altura, ganhava seis contos e quinhentos de ordenado base, mais horas extraordinárias, o que chegava a dar 10 contos e era imenso e ele ofereceu-me quatro contos por mês. Eu disse que ia pensar, mas não demorei muito a dizer que sim, o que eu queria era fazer cinema. E é assim que começa a minha carreira de realizador, como assistente de realização de Os Verdes Anos. A partir daí é sem parar e segundo diz o jovem da Cinemateca, que organizou a minha retrospetiva, devo ter feito quase quinhentos filmes, entre curtas, longas, documentários e programas e filmes para televisão.”

O primeiro, O Mal Amado, continua a ser, no entanto, o grande símbolo, diz o realizador, que neste ano dos 50 anos do 25 de Abril de 1974 se tem desdobrado em iniciativas sobre o filme, que foi o último a ser proibido pela censura e o primeiro a estrear a seguir à revolução.

“Neste momento, está a ser exibido em cerca de 20 sítios ao mesmo tempo e há imensos trabalhos que estão a ser feitos sobre ele. Mas vamos lá ao candeeiro”, continua.

O beijo mais longo do cinema português

O candeeiro, ao fundo da rua Luís Derouet, é o protagonista da cena mais bonita de O Mal Amado, tão bonita que mais tarde o cineasta e encenador Jorge Silva Melo haveria de dizer a Fernando Matos Silva: “não há direito, que cena tão bonita, roubaste-me a cena”.

O Mal Amado Fernando Matos Silva
O beijo entre João e Leonor []Zita Duarte] é das cenas mais bonitas do filme e foi filmada no último dia de rodagem. O candeeiro à volta do qual é feito o travelling já não existe (não existe nenhum candeeiro) na rua Luis Derouter. Foto: D.R.

“Nós tínhamos estas boutades entre realizadores, mas é verdade que é um plano muito bonito. Foi filmado no último dia. Eu sempre fui fascinando por travellings circulares e este é um travelling à volta de um candeeiro, quando o João e a Leonor dão um beijo muito longo. O candeeiro era ali, já não existe, mas pronto, inventou-se esta despedida. A movimentação é toda feita com ela encostada ao candeeiro ou ele e vão rodando, depois o táxi estava ali parado, ela sai na direção do táxi e ele sai na direção da casa da Inês. Para a morte”, diz Fernando Matos Silva, a despedir-se, mais uma vez, de Campo de Ourique.


Catarina Pires

É jornalista e mãe do João e da Rita. Nasceu há 50 anos, no Chiado, no Hospital Ordem Terceira, e considera uma injustiça que os pais a tenham arrancado daquele que, tem a certeza, é o seu território, para a criarem em Paço de Arcos, terra que, a bem da verdade, adora, sobretudo por causa do rio a chegar ao mar mesmo à porta de casa. Aos 30, a injustiça foi temporariamente corrigida – viveu no Bairro Alto –, mas a vida – e os preços das casas – levaram-na de novo, desta vez para a outra margem. De Almada, sempre uma nesga de Lisboa, o vértice central (se é que tal coisa existe) do seu triângulo afetivo-geográfico.


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4 Comments

  1. A proibição de ajuntamentos de mais de 3 pessoas foi uma medida do gonçalvismo, não da ditadura.
    O seu a seu dono….

  2. A diferença é que se censurava a porcaria, a mentira, a imoralidade e o mal. Era como Chesterton dizia das regras cristãs: existem para que as pessoas de bem possam prosperar à vontade. Agora existe censura à mesma, mas exactamente para o contrário.

  3. Ao ler o que agora qualquer um, nascido antes ou depois de Abril de 74, escreve sobre a vida da generalidade dos portugueses antes desta data, pergunto-me se, durante os cerca de 25 anos que vivi sob o regime do Estado Novo, terei estado anestesiado.

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