De quatro para duas rodas. É assim que muitos parisienses passaram a deslocar-se na capital francesa. Mas se, antes, andar de bicicleta era assumido por Paris como um movimento em crescimento, agora é mesmo a maioria na cidade, ultrapassando os carros, concluiu o Instituto da Região de Paris (IPR), agência regional de planeamento urbano e ambiental, que divulgou os primeiros dados da pesquisa de mobilidade realizada na Île-de-France (a área metropolitana que compreende Paris) entre outubro de 2022 e abril de 2023.

Estas informações são apresentadas como “confirmações e ensinamentos inéditos” de um cenário que muitos já esperavam, como explicado no jornal 20 minutes. O estudo mostra que “a bicicleta agora é mais usada do que o carro para os deslocamentos em Paris” e as ciclovias repletas, mesmo nos dias de chuva, são a prova disso.

Uma evolução desigual, do carro às bicicletas 

Vamos a contas. Na Île-de-France, fazem-se assim:

  • Em 2023, foram registados por dia útil cerca de 34,5 milhões de deslocações na região
  • Os sábados, o número diminui para 29 milhões, e 19 milhões aos domingos.
  • 39% das deslocações são motivadas pelo trabalho, que totalizam cerca de metade do tempo que uma pessoa usa para deslocações num dia útil. Em média, uma pessoa leva quase 40 minutos para ir de casa ao trabalho.
  • O carro pessoal continua a ser o meio de transporte mais utilizado na região (34%), o que se pode explicar pelas distâncias mais longas e pela menor rede de transportes públicos na grand couronne (a periferia mais afastada do centro parisiense).
Foto: Unsplash

Apesar da grande evolução em Paris, a região metropolitana ainda está atrasada para cumprir plenamente a ideia da cidade de 15 minutos de Carlos Moreno – e que foi usada por Anne Hidalgo, autarca de Paris, para conseguir ser eleita neste segundo mandato. Numa ótica de proximidade, as cidades de 15 minutos são mais sustentáveis, e fortemente associadas a mais espaços verdes e a um estilo de vida mais saudável.

Mas Paris está mais próxima disso:

  • Segundo os dados deste estudo, o uso do carro em Paris apenas representa 4,3% dos deslocamentos dentro da cidade;
  • Por outro lado, o uso da bicicleta constitui atualmente cerca de 11,2% do total de deslocações, representando um aumento de mais de 8% nos últimos 14 anos.

E mesmo nas deslocações entre Paris e os seus três departamentos locais mais próximos – como são Hauts-de-Seine, Seine-Saint-Denis e Val-de-Marne (também conhecidos como parte da petit couronne, outra sub-região) -, a bicicleta (14%) parece ser melhor opção do que o carro (11,8%), especialmente durante a hora de ponta matinal.

As políticas que explicam os números

Esta evolução pode ser explicada, diz o jornal 20 minutes, pelas mudanças de comportamentos motivadas pela pandemia de covid-19, aliadas a uma maior consciência climática… e a uma vontade política.

Seguindo a linha de ação de várias outras cidades europeias, como Londres, Oslo ou Helsínquia, Anne Hidalgo tem posto em prática uma série de políticas com o objetivo de incentivar o uso da bicicleta e, por outro lado, desencorajar o do carro.

A socialista, que comemora este mês o 10.º aniversário da sua tomada de posse enquanto Maire de Paris, já tinha levado a cabo em maio de 2021 um referendo com a intenção de limitar o trânsito na capital. Esta medida tinha como objetivo devolver o espaço urbano aos cidadãos – que tiveram a oportunidade de participar ativamente e de forma colaborativa nesta proposta. Ainda há dois meses os parisienses votaram a favor da triplicação do custo de estacionamento para os SUVs (veículo utilitário desportivo).

Além disso, Hidalgo tem vindo a diminuir o espaço dedicado aos parques de estacionamento, deixando bem claro que os carros não são bem-vindos na cidade parisiense.

Por outro lado, o plano de ação de Anne Hidalgo terá também passado pela criação de uma rede de ciclovias mais densa e mais segura para aqueles que a utiliza, assim como auxílios à compra de bicicletas. Em julho de 2021 foi adotado o Plano Metropolitano de Bicicletas que, até ao momento, e já tendo sido aumentado, conta com quase 60% do seu plano de 215km de ciclovias iniciado.

E em Lisboa? Como se discute o assunto? Recorde nestas histórias:


Ariana Moreira

Natural de Rebordosa, em Paredes, Ariana Moreira é aluna de licenciatura em Ciências da Comunicação na Universidade Nova FCSH, em Lisboa. Está a estagiar na Mensagem de Lisboa.


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