É um passeio que é uma “coincidência organizada”. Não há organização, não há porta voz, nenhuma pessoa responsável. Simplesmente acontece. Há uma hora e um dia e há regularidade mensal. Tudo o que se sabe é que o topo norte do Marquês de Pombal é o ponto de encontro na última sexta-feira de cada mês, às 18h30. E as pessoas vão aparecendo, sem terem de combinar. Quase sempre em cima de uma bicicleta.

A Massa Crítica desta sexta-feira, na celebração dos 20 anos em Lisboa, por entre gritos de “Mais Ciclovias!”. Vídeo: Líbia Florentino

Juntam-se porque partilham o facto de utilizarem a bicicleta como meio de transporte. Chegam para travar amizades, passear em grupo, dar visibilidade à bicicleta na cidade e para reivindicar espaço para este meio de transporte.

Mas há vários anos que perdeu força.

Nesta sexta-feira, realizou-se a Massa Crítica de celebração de duas décadas desde que chegou a Lisboa em 2003, e há a expectativa de que o encontro mensal volte aos níveis de participação de antes da pandemia.

A celebração do aniversário coincide com o reacender do ativismo a pedal, num momento em que a expansão da rede de ciclovias da cidade está praticamente estagnada e em que voltam a ter lugar manifestações por mais e melhor infraestrutura ciclável na cidade.

O que é a Massa Crítica?

Hoje acontece em dezenas de cidades de todo o mundo, mas nasceu em 1992 em São Francisco, como forma de reclamar mais espaço e segurança para a bicicleta na cidade.

Três dias antes da Massa comemorativa, encontramos Ricardo Ferreira no ponto de encontro do passeio, em pleno Marquês de Pombal. Há cerca de 15 anos que marca presença nestes encontros mensais. Explica que a motivação para a existência desta manifestação na cidade “terá sido sentir que havia carros a mais em Lisboa e que era preciso criar condições para se utilizar bicicleta”.

Ricardo Ferreira junto ao ponto de encontro da Massa Crítica, no Marquês de Pombal. Foto: Líbia Florentino

É um ciclista com experiência e lembra como, “até 2012, conhecia a cara de quase todas as pessoas que andavam de bicicleta” na cidade. Eram poucos. A partir daí, tudo mudou: a expansão da rede de ciclovias e o crescente interesse pela bicicleta levou a um boom de utilização. Em 10 anos, a utilização da bicicleta chegou a crescer 500% em alguns eixos da cidade.

Já não se lembra de como ouviu falar na Massa Crítica, mas participa no encontro desde 2007 ou 2008. No primeiro passeio em que esteve foi acompanhado por uma dúzia de pessoas. “Lembro-me perfeitamente que subimos por aqui acima, num grupinho, em conversa. Foi muito agradável.”

A Massa Crítica “é um encontro espontâneo de pessoas que sabem que numa determinada hora e num determinado ponto vão estar outras pessoas que se deslocam de bicicleta”. Não sabe por que se escolheu o Marquês de Pombal como ponto de encontro, “mas sempre foi assim e espero que assim seja”.

O ritual das três voltas ao Marquês e uma reunião que é mais do que pedalar

A hora combinada não é, nunca, a hora da partida, porque a Massa não é só pedalar.

O Marquês de Pombal é o espaço de encontro mensal da comunidade de utilizadores de bicicleta em Lisboa. Quando ali chegam, discutem a cidade, os desenvolvimentos da política de mobilidade no município, as ciclovias que nascem, as que desaparecem, as que ainda estão por fazer e falam, também, de tudo o que não está relacionado com a bicicleta.

É também nesta meia hora inicial, antes do arranque, que se discute e combina o percurso deste passeio não organizado. Alguém começa por sugerir uma rota e rapidamente chega-se a acordo.

“Tenta-se que seja um trajeto em que a pessoa com menos capacidades consiga acompanhar. É um passeio muito relaxado e vamos a um ritmo muito lento”. Ao deslocarem-se em grupo, “as pessoas sentem-se confortáveis e menos pressionadas por carros que possam estar atrás”.

A esmagadora maioria das pessoas chega de bicicleta, mas há também quem venha de patins. Há repetentes, estreantes, pessoas com muita experiência na hora de pedalar pela cidade e no meio dos carros, mas há também quem apareça para começar a dar ao pedal em meio urbano.

Quando a Massa arranca, há um ritual que se repete: são dadas três voltas ao Marquês de Pombal. As campainhas soam e clama-se, muitas vezes, por “mais bicicletas!”. Um cenário inusitado num dos pontos mais congestionados da cidade e, precisamente, em plena hora de ponta.

“É o momento rebelde da Massa Crítica”, mas o objetivo é a visibilidade, diz Ricardo. “A Massa Crítica é uma afirmação. E, por isso, aquelas três voltas ao Marquês são uma afirmação”.

O passeio é um espaço de encontro, mas também – e sobretudo – de reivindicação e a mobilização da comunidade ciclista de Lisboa é caracterizada por picos de participação. Ao longo dos anos, a Massa Crítica de Lisboa chegou a reunir várias centenas de pessoas numa única sexta-feira, mas o contrário também acontece.

Chegam a realizar-se Massas com apenas duas pessoas, mas Ricardo nunca deu por si a chegar ao Marquês de Pombal e a ficar sem companhia.

Um aniversário que coincide com a “necessidade de voltar a reclamar espaço”

Entre passeios com centenas de ciclistas e outros participados apenas por uma mão cheia de pessoas, a oscilação na adesão à Massa Crítica foi sempre uma constante, mas nos últimos anos a participação foi perdendo gás de uma forma mais consistente.

A política de mobilidade da cidade, no que respeita ao investimento em infraestrutura para a bicicleta, sofreu alterações nos últimos dois anos em Lisboa. Depois de um período em que foram acrescentados dezenas de quilómetros de novas ciclovias todos os anos – especialmente durante a pandemia – a expansão da rede ciclável estagnou nos últimos dois anos.

Mapa interativo com a cronologia da construção de novas ciclovias em Lisboa. Desenvolvido por Rosa Félix, investigadora na área da mobilidade ciclável no U-Shift lab, no Instituto Superior Técnico.

“Depois de uma década em que Lisboa foi evoluindo e estava a convergir com as cidades europeias que estão a tentar ter uma mobilidade mais saudável, desde setembro de 2021 que Lisboa entrou nuns Tempos Velhos”, diz, em alusão ao slogan utilizado pelo atual presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas nas últimas eleições – Novos Tempos.

No atual contexto, que Ricardo exemplifica com episódios como o da remoção parcial da ciclovia da Avenida de Berna, “há muita gente que sente que estamos outra vez a atravessar um momento em que é importante reclamar espaço para os modos ativos”.

Nos últimos tempos, a participação no passeio tem esmorecido, mostrando dificuldade em captar o interesse da crescente comunidade de utilizadores de bicicleta da cidade. Ricardo já não participava na Massa Crítica desde o início do ano e dá conta desta tendência, que agora parece querer inverter-se de forma natural.

Ao longo dos últimos anos, “muita gente terá sentido que já não era preciso reclamar por espaço para a mobilidade ativa na cidade, porque isso estava a acontecer”. As ciclovias apareciam e a mobilidade aparentava estar no centro da agenda política”. O ciclo político com investimento na mobilidade ciclável terá conduzido a um “relaxamento” da comunidade, considera. “E agora está a acontecer o inverso”.

É partindo desta contextualização que Ricardo considera que os 20 anos da Massa Crítica são apenas uma das razões para marcar presença no encontro desta sexta-feira. Para o encontro desta sexta-feira, Ricardo esperava, antes ainda de acontecer, “muita gente”, já que, hoje há em Lisboa a sensação de “que é preciso voltar a reclamar espaço para os modos ativos”.

Giulia Gallorini na Massa Crítica desta sexta-feira, no Marquês de Pombal. Foto: Líbia Florentino

Giulia Gallorini partilha desta visão. A italiana vive em Lisboa há cinco anos e começou, durante a pandemia, a escolher a bicicleta como meio de transporte. Rapidamente começou a participar em iniciativas de ativismo ligadas à bicicleta em Lisboa, mas não tem “propriamente uma grande experiência na Massa Crítica porque nos últimos anos ficou um pouco mais adormecida, com menos participação”.

Participou na manifestação de ciclistas em defesa da ciclovia da Avenida Almirante Reis e mais recentemente, na concentração em defesa da manutenção da ciclovia da Avenida de Berna e olha hoje para a Massa Crítica de Lisboa como um movimento que “acorda quando vê uma ameaça” – algo que, considera, pode estar a acontecer.

O trânsito durante a pandemia deu lugar ao silêncio. “Houve uma fase em que foram construídas bastantes ciclovias e a situação parecia estar a melhorar, mas depois piorou imensamente”. Nesta sexta-feira, também Giulia esteve na Massa.

Concentração de ciclistas no passado mês de outubro em defesa da manutenção e melhoria da ciclovia da Avenida de Berna.

Regras: fazer rolha e não ocupar a via BUS

“Uma das coisas que sempre me agradou imenso na massa crítica foi o facto de não haver um líder e das pessoas participarem espontaneamente”, afirma Ricardo.

Mas, mesmo num passeio que é uma “coincidência organizada”, não deixam de existir regras. Deve usar-se a campainha para dar visibilidade ao grupo e deve tentar-se explicar a razão do encontro aos automobilistas que passam, procurando a sua compreensão. No campo da segurança na estrada, os menos experientes e mais vulneráveis do grupo devem circular envolvidos por este.

Enquanto se pedala, “não se ocupa por norma a via BUS” – dedicada à circulação dos transportes públicos – e deve tentar manter-se, o mais possível, a coesão do grupo.

Quando o grupo é maior, é nesta tarefa que por vezes surgem conflitos com o restante trânsito. Manter a coesão do grupo a circular no trânsito da cidade pode ser um desafio. Para assegurar a unidade da massa, os mais experientes aplicam por vezes a técnica da rolha. “É, no fundo, criar tampões para evitar que carros se metam no meio do grupo”, explica Ricardo.

Ciclista a fazer rolha durante a Massa Crítica de Lisboa de outubro de 2011. Foto: Alexandre Páris

A técnica evita que o grupo se separe em cruzamentos ou semáforos, através do posicionamento de ciclistas em frente a entradas de cruzamentos, mas leva, por vezes, a que sejam ignorados sinais vermelhos. “Não é um sinal muito positivo”, entende Ricardo, mas explica que há uma razão para isso.

“Por que é que isto é importante? Porque se se quebra o grupo, ele vai começar a dispersar-se e o objetivo é termos um grupo coeso”. Evita-se, assim, que automobilistas fragmentem o grupo de ciclistas e criem buracos na massa que circula.

Depois de pedalar, há copos, conversa e “sinergias”

Mais do que um passeio reivindicativo, a Massa Crítica é um espaço de encontro. E, no meio das conversas, nascem amizades. Quando o passeio termina no ponto acordado, nem toda a gente vai para casa. “Onde é que se vai jantar?” – esta é uma pergunta que se repete no fim da Massa, conta Ricardo.

Ao longo dos anos, Ricardo recorda alguns momentos altos vividos durante a Massa. Lembra o passeio de setembro de 2011, altura em que terá sido batido o recorde de participação. “Terão sido talvez 400 ou 500 pessoas”. “Lembro-me de um amigo meu, o António, que até trouxe um atrelado com um sistema de som. Foi uma festa enorme, porque havia realmente muita alegria”.

Na Massa, conversa-se. Antes de pedalar, durante e depois. “O facto de se reunir a comunidade no espaço público gera sempre grandes sinergias e trocas de ideias que acabaram por resultar na criação de grupos”, conta Giulia Gallorini.

“Foi também a partir daí que surgiu a MUBi”, conta Ricardo, que hoje integra a estrutura da Associação pela Mobilidade Urbana em Bicicleta.

A partir desta sexta-feira, Giulia espera “que se consigam juntar mais pessoas e que consigam ocupar aquele espaço que não nos é garantido”. A Massa Crítica deve, acredita, ser um espaço de promoção do ativismo. “Quando se encontram pessoas parecidas e com os mesmos problemas, as pessoas sentem-se mais motivadas a participar na mudança”.


*Nota de edição 24.11.2023: acrescentadas fotografias e vídeo da Massa Crítica desta sexta-feira.


Frederico Raposo

Nasceu em Lisboa, há 32 anos, mas sempre fez a sua vida à porta da cidade. Raramente lá entrava. Foi quando iniciou a faculdade que começou a viver Lisboa. É uma cidade ainda por concretizar. Mais ou menos como as outras. Sustentável, progressista, com espaço e oportunidade para todas as pessoas – são ideias que moldam o seu passo pelas ruas. A forma como se desloca – quase sempre de bicicleta –, o uso que dá aos espaços, o jornalismo que produz.

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