Foto: Câmara de Paris

Se os parisienses concordarem, Paris deixa de ter carros no centro a partir do ano que vem. Esta é a intenção do referendo lançado esta semana por Anne Hidalgo, a presidente da Câmara. A proposta de uma ZTL, zona de tráfego limitado, vai no sentido de outras medidas tomadas pela autarca para devolver o espaço urbano aos cidadãos e tirar os carros na cidade. Por enquanto, diz, há ainda cerca de 50% do espaço urbano ocupado pelos automóveis.

“E que tal se se reduz a velocidade? E se recuperarmos a cidade? E se libertarmos o espaço público em benefício dos que realmente precisam dele?” É com estas perguntas que começa o documento que se chama “Paris Respira” e que vai estar sob consulta dos parisienses para tirar o trânsito rotineiro dos bairros de Paris Centro (nomeadamente os 10, 2º, 3º et 4º bairros, e) a parte esquerda do rio Sena, a chamada rive gauche, ao norte do famoso boulevard Saint-Germain (os chiques 5º, 6º et 7º bairros).

Uma zona de tráfico limitado significa que apenas os residentes e comerciantes teriam acesso limitado, explicou, na apresentação do plano o vice-presidente da Câmara com o pelouro do trânsito, David Belliard, explicando que nesta zona da cidade circulam 180 mil carros por dia – “dez vezes mais que os carros dos residentes”.

A Câmara estima que apenas 30% dos condutores de Paris precisam mesmo de usar o automóvel, sendo que para os restantes 70% é uma comodidade substituível por outras formas de mobilidade.

O projeto da zona sem carros, agora posto a referendo dos parisienses. Imagem da Câmara de Paris.

Na ZTL a prioridade será dos peões, ciclistas e outros veículos não motorizados, mas, dentro destes limites a Câmara pôs em discussão o que poderá acontecer nestes locais sem trânsito: “definir os limites das zonas, precisar as categorias de veículos, ou identificar as ruas que deviam ser objeto de prioridade”. Em menos de 48 horas, a página da proposta receber 570 contribuições.

Controlar a poluição até 2050

O objetivo de Anne Hidalgo é controlar a poluição e ter uma cidade neutral em carbono – com zero emissões de CO2 e 100% de energias renováveis no ano de 2050. Para isto, a principal estratégia é estabelecer um modelo de proximidade, com a inspiração na Cidade dos 15 minutos, do urbanista Carlos Moreno – consultor da Câmara.

Ler aqui a entrevista de Carlos Moreno à Mensagem.

Esta proposta de referendo vem a par com um movimento de participação cidadã chamado Embelezar o Seu Quarteirão – no qual houve uma divisão em 80 zonas da cidade – com cerca de 30 mil habitantes – abertas a propostas de mudança do espaço público e utilizações pelos próprios vizinhos (uma espécie de orçamento participativo mas específico para as zonas comuns).

Os objetivos gerais deste projeto incluem a vegetalização das zonas urbanas, nomeadamente o espaço usado pelo estacionamento. As escolas devem ser tomadas como elemento central das mudanças – recordando que esta é a base dos quarteirões de proximidade da Cidade de 15 minutos, e 25 % das obras devem ser feitas em locais populares, ou mais desfavorecidos.

Um parklet no lugar de um carro, em Paris. Foto: Christophe Najdovski

Ao mesmo tempo, discute-se em Paris a feitura de um Manifesto para uma Nova Estética urbana, no qual os cidadãos estão a ser ouvidos sobre que cidade se pretende no futuro. “A estética de uma nova paisagem urbana misturando o vegetal e o mineral, uma estética de zero carbono, adaptada aos novos tempos com materiais reutilizáveis e biológicos”, diz-se na página de apresentação.

Lisboa adiada, Madrid cancelada

Em Lisboa, a ZER, zona de emissões reduzidas, que devia abranger a parte da Baixa, foi proposta imediatamente antes da pandemia, e adiada pelo presidente da Câmara de Lisboa, logo depois do primeiro confinamento. Mais recentemente, Fernando Medina remeteu para um próximo mandato a sua implementação. Também as mudanças no trânsito da Av. da Liberdade foram canceladas. O projeto da ZER propunha restrições ao trânsito automóvel bem como intervenções no espaço público, com criação de ciclovias e novas áreas pedonais.

Madrid Central era o nome da zona de emissões reduzidas na capital espanhola. Foto: D.R,

Em Madrid, acabou de cair às mãos do Supremo Tribunal, o projeto Madrid Central, de emissões reduzidas no centro da capital, que tinha sido posto em prática em 2018, pelo executivo de coligação de esquerda liderado por Manuela Carmena. Em causa estavam questões legais, de “defeitos de forma” – mas foi considerada uma vitória do Partido Popular, atualmente a liderar o executivo da Câmara de Madrid, uma vez que uma das queixas em tribunal tinha sido colocada pelo partido e que Martínez de Almeida tinha ganho as eleições com a promessa de suprimir esta zona de emissões e trânsito reduzido (à qual já tinha feito muitas alterações). Todas as multas impostas pelo plano – no valor de mais de 36 milhões de euros – são anuladas e devolvidas.

Menos velocidade, menos acidentes

Também em Espanha, entrou em vigor esta semana o limite de velocidade de 30 km/hora na maior parte das ruas citadinas – e de 20 km quando as ruas não tenham passeios (ou tenham passeios rebaixados). Ou seja, apenas as grandes avenidas, com dois sentidos e duas ou mais vias para cada lado, vão manter os atuais 50 km por hora.

A cidade de Bilbao foi a primeira a adotar a medida, já em setembro de 2019 – num plano aprovado pelo governo espanhol, de Qualidade do Ar, que pretende que os centros das cidades com mais de 50 mil habitantes deixem de ter carros, até 2023.

As indicações de 30 km espalharam-se por toda a cidade de Bilbao. Foto: D.R,

Bilbao anunciou a campanha com pompa e um slogan “Vivemos 30 vezes melhor”. A cidade que era conhecida em Espanha por ser “acelera” decidiu focar-se nos benefícios da redução de velocidade, do acalmar do tráfego, melhor hábitos de condução e questões ambientais, nomeadamente a acústica e a poluição do ar.

Andar a menos de 30 km/hora permite aumentar o campo de visão, estabelecer contacto visual com os outros condutores e peões, e, em caso de acidente, reduzir a mortalidade e grvidade: segundo a OMS, a 50 km / hora o risco de um acidente ser fatal é oito vezes maior do que um que acontece a 30Km.

Este plano, além de contar com as questões ambientais, trata também de um assunto importante em Espanha onde pela primeira vez os atropelamentos suplantaram os mortos em acidentes de carro – ou seja condutores ou ocupantes de veículos. Mais de 80% dos 519 mortos eram peões ou ciclistas.  

A cidade de Pontevedra – conhecida por ser a cidade sem carros – foi além destes limites e reduziu-os para 6km/hora. Sim, não é gralha: seis. E mais: é para todos os veículos, com e sem motor, em todas as zonas de preferência peatonal – ou seja, praticamente todo o casco antigo da cidade. A lei deve ser cumprida, não apenas por carros, como também por motos, patins, trotinetes, skates e bicicletas. As multas por infringir as novas regras vão dos 200 aos 500 euros.

Catarina Carvalho

Jornalista desde as teclas da máquina de escrever do avô, agora com 48 anos está a fazer o projeto que melhor representa o que defende no jornalismo: histórias e pessoas. Lidera redações há 20 anos – Sábado, DN, Diário Económico, Notícias Magazine, Evasões, Volta ao Mundo… – e segue os media internacionais, fazendo parte do board do World Editors Forum. Nada lhe dá mais gozo que contar as histórias da sua rua, em Lisboa.

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3 Comentários

  1. Estamos quase a voltar ao tempo das carroças com cavalos. Onde chega a utopia… numa cidade em que apenas 50% tem transporte de metro.
    Será que que estes politicos também vão deixar de ter carro com motorista…pago por todos nós?

  2. Excelente artigo! Esperemos que Lisboa siga os passos de Paris e de muitas outras cidades, e não os da retrógrada Madrid.
    Há muita gente que se esquece que somos todos peões, e menos de metade da população é automobilista. Está na altura de se repor alguma justiça na distribuição do espaço público e de o desenhar em função dos mais vulneráveis.

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