A Travessa Artur Lamas está na fronteira entre a freguesia de Belém e a freguesia de Alcântara e é também o centro da vida de um pequeno bairro, sem nome, de dois quarteirões. Aqui vivem largas dezenas de pessoas, vizinhos de todas as faixas etárias, mas não há um único lugar para estar na rua. Não têm árvores nem bancos, apenas vários carros sempre ali estacionados… e um forte espírito de comunidade.

Agora, um grupo de moradores juntou-se com uma ideia: aproveitar um beco do centro do bairro para fazer nascer um espaço que permita o encontro, a conversa e o descanso de vizinhos.

Cerca de duas dezenas de moradores identificaram o Beco da Travessa Artur Lamas como o lugar ideal para a construção coletiva de um espaço de convívio. Redigiram uma petição e estão a caminho de reunir as 150 assinaturas necessárias à apresentação da proposta na Assembleia Municipal de Lisboa.

Vídeo: Líbia Florentino / Edição: Inês Leote

Uma “zona cinzenta” entre freguesias

O bairro está numa “zona cinzenta, de fronteira – uma espécie de triângulo das Bermudas”, conta Luísa Baltazar. Já morou em Campo de Ourique e na cidade norte-americana de São Francisco e recorda uma característica comum destes dois lugares em que viveu: ambos tinham lugares próximos para o encontro de vizinhos, para a brincadeira e o lazer de novos e velhos.

Aliás, foi em Campo de Ourique que se testou o primeiro superquarteirão, um conceito pensado para os vizinhos. Lembre a história aqui:

Hoje, está a pedir o mesmo para o seu novo bairro.

O Beco da Travessa Artur Lamas foi escolhido por estar no centro da vida deste pequeno bairro delimitado pela geometria da malha urbana – a norte, por edifícios da Universidade Lusíada, a oeste, por duas escolas, a este pela Calçada da Boa hora e, a sul, pela Rua da Junqueira.

Raquel Bastardo, outra das apoiantes da proposta, acredita que por este bairro se encontrar entre duas freguesias acaba por ser “uma zona esquecida, limítrofe”, mas “é por isso que este espaço é tão necessário”.

Por entre os automóveis estacionados no beco, resta pouco ou nenhum espaço para a circulação e estadia de vizinhos. Foto: Líbia Florentino

O que falta neste bairro?

“Este bairro são dois quarteirões, mas acaba por ser um espaço em que há muita gente a morar, mas não há nenhum espaço de encontro, nenhuma praceta onde haja árvores, nada”, explica a moradora Raquel. E o desconforto térmico pela falta de um espaço verde é sentido nas ruas do bairro em dias de sol e calor.

Este efeito – a ilha de calor urbano – acontece com particular intensidade nesta zona da cidade e é atenuado pela criação de sombra e pela existência de cobertura vegetal. Atualmente, as únicas oito árvores do bairro estão num parque de estacionamento e não oferecem sombra nem alívio do sol aos vizinhos – só aos automóveis.

A pé, o espaço verde mais próximo está a cerca de meio quilómetro, na Praceta Diogo Cão, na freguesia de Alcântara, e já fora do perímetro do bairro. Perante a reivindicação, por vezes ouvem que “o rio está ali a cinco minutos a pé”, conta Raquel Bastardo. Mas isso quebra a lógica de vizinhança e de proximidade ao bairro. Para chegar ao rio, há que “atravessar Rua da Junqueira e subir uma ponte pedonal. Para pessoas com mobilidade reduzida não é fácil – não é a mesma coisa”.

Veja o mapa que mostra os espaços verdes junto ao beco: mesmo ao lado, um jardim privado de um palácio devoluto; depois, a meio km, na Praceta Diogo Cão, o jardim público mais próximo.

Apesar da falta de espaços de encontro e do pequeno tamanho do bairro, tem vindo a gerar-se um espírito e uma atitude de vizinhança muito ativos. No grupo local do WhatsApp, com mais de 180 membros, fala-se do estacionamento indevido nos passeios e de dejetos de cães nas ruas – temas comuns a boa parte das conversas de vizinhos na cidade.

Por aqui, os poucos cafés também vão servindo de fórum para a conversa entre moradores, mas falta um espaço público que sirva a comunidade e que não dependa do consumo numa qualquer esplanada.

“Nós nem precisamos de justificar a necessidade – este aglomerado de força cívica e comunitária da vizinhança já existe. Não faz sentido que esteja dependente de um estabelecimento comercial” – diz Luísa Baltazar, outra moradora.

Querem um lugar com bancos, árvores, livre dos perigos da estrada e das manobras dos automóveis. Hoje, este beco serve como parque de automóveis – cabe ali cerca de uma dezena.

Se a proposta colher a aprovação da Junta de Freguesia, as proponentes não temem por uma eventual onda de contestação contra a impossibilidade de aquele beco continuar a servir de parque de estacionamento automóvel. Atualmente, os carros estacionam ali ocupando os passeios e dificultando a passagem e a estadia de pessoas.

“Não são aqueles dez lugares que vão complicar o problema do estacionamento – o problema já existe”, sublinha Luísa.

E “o estacionamento não é legal”, completa Mariana Pereira. “Os carros estacionam em cima do passeio e bloqueiam a passagem de quem circula na Pinto Ferreira. Eu passo com um carrinho de criança e tenho de ir para a estrada.”

A luta que nasceu numa experiência num Dia de Vizinhos

Mas a conversa entre estes vizinhos não se fica por aqui.

Trocam móveis, pedidos de dicas sobre serviços e comércios locais e, ainda antes da pandemia, começaram a tentar reanimar o espírito de união e convívio de outros tempos, quando se montavam festas, por altura dos santos populares e do Magusto, na Travessa Artur Lamas.

O renascer deste espírito de vizinhança tem sido o responsável pela dinamização de eventos na rua, com o apoio das juntas de freguesia de Belém e Alcântara.

E, em 2019, deu-se aquele que terá sido o primeiro passo para a atual proposta de criação de um espaço público de convívio: com o apoio da Junta de Freguesia de Belém e por ocasião do Dia dos Vizinhos, os carros foram retirados do beco e os vizinhos juntaram-se. Trouxeram-se mesas e cadeiras de plástico, um grelhador, uma mesa de som e o beco encheu-se durante o dia e durante a noite. No alto muro onde o beco termina, foram projetados filmes.

Em 2018, 2022 e 2023, foi a vez de a Travessa Artur Lamas ser encerrada para a realização de encontros comunitários.

A ideia de fazer do temporário permanente foi fermentando no imaginário dos vizinhos e começaram a agir. Um dia, conta Mariana Pereira, colocaram vasos com flores num canto do beco. “Inscrevemos na parede a frase ‘Eleitores querem flores’”. “Começou a criar-se a ideia de que poderíamos ter aqui plantas e um espaço de convívio para todos”.

Entretanto, as flores desapareceram, mas a ideia continuou a crescer.

É neste beco que se realiza a Cicloficina da Junqueira, uma oficina de bicicletas comunitária que reúne aqui periodicamente. Foto: Cicloficina da Junqueira

No próximo Dia do Vizinho, com celebração marcada para 24 de maio, os proponentes querem realizar novo ensaio geral à pedonalização do Beco da Travessa Artur Lamas, aproveitando a abertura da Junta de Freguesia de Belém, como já aconteceu antes. O executivo local prevê apoiar os fregueses que se mostrem interessados em organizar festas de vizinhos.

Se o evento acontecer, como espera o grupo de moradores, este dia será mais uma forma de convocar a comunidade local em torno da construção coletiva de um espaço para a vizinhança.

Trazer a proposta à Junta de Freguesia e à cidade

A concretização da visão dos vizinhos não exige muito, garantem as proponentes. Algumas árvores, plantas e bancos para sentar.

É da Junta de Freguesia de Belém “a responsabilidade de proporcionar as condições para que os cidadãos se possam encontrar”, afirma Luísa Baltazar. A Mensagem entrou em contacto com a Junta de Freguesia para dar conta da sua abertura para acolher esta proposta, não tendo até chegado a reação do executivo local – este artigo será atualizado assim que as respostas chegarem.

Beco da Travessa Artur Lamas. Foto: Líbia Florentino

Os proponentes e fregueses do bairro quiseram começar pela petição para terem uma “base legal” para sustentar a proposta e mostrar que a mesma reúne força junto dos moradores do bairro e da cidade.

Nos próximos dias, o grupo prevê a organização de ações de distribuição de cartazes pelo bairro e de recolha de assinaturas, com o propósito de chegar, também, aos moradores mais velhos do bairro.

Caso alcancem nos próximos dias o objetivo, o grupo de vizinhos pretende marcar presença na reunião da Junta de Freguesia de Belém, prevista para o final de fevereiro, para apresentar e discutir a proposta com o executivo local.


Frederico Raposo

Nasceu em Lisboa, há 32 anos, mas sempre fez a sua vida à porta da cidade. Raramente lá entrava. Foi quando iniciou a faculdade que começou a viver Lisboa. É uma cidade ainda por concretizar. Mais ou menos como as outras. Sustentável, progressista, com espaço e oportunidade para todas as pessoas – são ideias que moldam o seu passo pelas ruas. A forma como se desloca – quase sempre de bicicleta –, o uso que dá aos espaços, o jornalismo que produz.

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2 Comments

  1. Tendo em conta o já longo historial de tolerância do presidente da JF de Belém para com o estacionamento ilegal, e o seu desprezo pelo espaço pedonal, tenho poucas esperanças de que algo mude ali no curto prazo.
    Mas, gostava tanto, tanto de estar enganado!

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