Há uns meses conheci finalmente numa esplanada de Lisboa, em carne e osso, uma poetisa e tradutora espanhola que fez o favor de se interessar pela minha poesia, publicando no país vizinho uma antologia intitulada Una casa con libros dentro (2017), que ela mesma organizou e traduziu.
Verónica Aranda – é este o seu nome – viveu em Lisboa durante uns anos, aprendeu a nossa língua na universidade e foi então que desenvolveu uma paixão assolapada pelo fado que, segundo contou, já canta há vários anos e sempre que cá volta; dirigiu-me, de resto, um convite para a ir ouvir no sábado seguinte a uma casa de fados na Graça que, pelos vistos, aceita espontâneos a partir das quatro ou cinco da tarde.
Com a mania que os portugueses têm de que falam bem castelhano, foi nesta língua que estabelecemos sempre o diálogo à mesa da esplanada nessa manhã soalheira – razão pela qual não fiquei realmente a saber qual era a pronúncia de Verónica em português; mesmo assim, quando nos despedimos, perguntei-me se, mesmo dominando perfeitamente o idioma (o que eu constatara pelas suas traduções), não teria o seu fado um qualquer rasto espanholado.
Estava curiosa, mas no dito sábado surgiu um imprevisto que me impediu de sair de casa e, como Verónica partia logo a seguir para Madrid, não foi possível tirar a limpo o enigma.
Adiante.
Há uns anos, o pianista Júlio Resende gravou um álbum (Fado & Further), no qual o jazz e o fado se casam de forma notável e uma das faixas é, inclusivamente, um diálogo do seu piano com a voz de Amália Rodrigues em Medo, um fado de Reinaldo Ferreira e Alain Oulman.
Num concerto de apresentação desse CD na Fundação Calouste Gulbenkian, as artistas convidadas foram a catalã Sílvia Pérez Cruz (um assombro!) e a nossa Gisela João, uma fadista bonita e talentosa de Barcelos que então dava os primeiros passos numa carreira que haveria de ser fulgurante e que eu já escutara, muito agradada, em disco, mas nunca ouvira ao vivo, nem em entrevistas de rádio ou televisão.
Curiosamente, com a sua voz rouca a lembrar a de uma Amália já um pouco entrada nos anos, os fados de Gisela João no espectáculo dessa noite escorregaram maravilhosamente nos nossos ouvidos, como se ela fosse uma alfacinha de gema e tivesse vivido desde sempre na capital.
Porém, quando o concerto acabou e fui aos bastidores para cumprimentar e felicitar Júlio Resende pelo tanto que nos dera, ele insistiu em me apresentar à fadista, que eu também queria, de resto, conhecer; fui então levada ao seu camarim e, depois de ficar a saber quem eu era (sobretudo por causa da minha actividade como letrista de fado) e de me examinar dos pés à cabeça, Gisela João brindou-me com uma frase que nunca mais esquecerei: “É bocê, caralho? Tã pequenina…”
Perfeita lisboeta enquanto cantava, Gisela não escondeu as suas origens minhotas nem a deliciosa abordagem nortenha durante a nossa conversa.
Pensando bem, talvez o fado – exigindo do intérprete um excelente ouvido – se cante sempre sem sotaque; e, assim, quando Verónica Aranda regressar a Lisboa e eu for finalmente ouvi-la cantar, provavelmente não farei mais do que comprová-lo.

Maria do Rosário Pedreira
Nasceu em Lisboa e nunca pensou viver noutra cidade. É editora, tendo-se especializado na descoberta de novos autores portugueses. Escreve poesia, ficção, crónica e literatura infanto-juvenil, estando traduzida em várias línguas. Tem um blogue sobre livros e edição e é letrista de fado.

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