Bar Jobim
Foto: Rita Ansone.

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Do balcão sente-se o frescor do cítrico perfume da lima da caipirinha, recém saída da coqueteleira, com destino à rapariga de batom vermelho e vestido branco a passear o indicador pelo ecrã do telemóvel. Seu Jorge cantarola o azar de namorar uma mina do condomínio, enquanto o senhor de óculos de sol e chapéu panamá, distraído na esplanada, observa o vai e vem dos peões na rua.

O funcionário aproxima-se, solícito: “Ôpa, seu João, vai mais uma imperialzinha?”, e como num passe de mágica, o copo vazio está novamente cheio.

É Lisboa, mas poderia ser no Rio de Janeiro. É no Príncipe Real, mas poderia ser no Leblon ou, na falta do mar logo ali perto, poderia ser no bairro do Jardim Botânico. Aliás, a imponente coluna de palmeiras imperiais do Jardim Botânico lisboeta ajuda a compor um cenário familiar para os cariocas mais saudosos. 

Desde 2018, o Jobim tem cumprido o papel de enclave carioca em Lisboa. Na esquina da rua da Escola Politécnica com a da Imprensa Nacional, uma embaixada informal homenageando o músico de sempre da Bossa Nova, com a promessa de se encurtar a distância ao Rio de Janeiro sem burocracias, onde se é recebido no balcão com apertos de mão e tapinhas nas costas, em vez de um distante e enfadonho carimbo no passaporte.

Pedro Ivo Carvalho e Antonio Setembrino, sócios do Jobim. Foto: Rita Ansone

Um bar que se reinventou durante a pandemia, acolhendo os lisboetas mais simpáticos ao carioca way of life. Hoje distribui livremente vistos também aos estrangeiros de passagem por Lisboa interessados no turismo “dois em um”, Portugal e Brasil separados apenas por um passo.

E, com um pouco de sorte, ainda é possível testemunhar o doce balanço cheio de graça de uma garota de Ipanema no caminho do… Rato.

O bar que surgiu por acaso

Como as boas surpresas da vida, o Jobim surgiu por acaso, da despretensiosa conversa entre dois brasileiros, os amigos de infância Antonio Setembrino e Thiago Rodrigues, e o português Pedro Ivo Carvalho. 

“O Pedro teve uma casa de pequenos-almoços aqui, mas que não funcionou muito bem. Porém, queria continuar a investir no espaço e convidou-nos para sermos sócios num bar com alma brasileira”, resume Antonio (sem acento), 41 anos, um carioca formado em Direito que, após se livrar de um melanoma aos 32, decidiu mudar de pele e fazer o que gostava.

O passo seguinte foi a reforma completa da antiga casa de pequenos-almoços, a começar pela decoração interior, hoje muito mais informal e descontraída, com destaque para a “galeria” com alusões a personagens da cultura pop.

Um dos pontos altos foi a adaptação da antiga montra, com cerca de três metros de largura, para um “janelão” que funciona como um balcão que une a parte interior à exterior do bar. “O balcão deu ao Jobim um aspeto de um legítimo botequim do Rio, onde é possível tomar uns copos sentado num banquinho na calçada. É um dos grandes diferenciais do bar”, explica Antonio.

E o que Antonio gostava era de vinho. 

Foi a formação em sommelier que o trouxe a Lisboa, em meados de 2018, numa escala antes do módulo final na formação no Wine and Spirit Trade Association (WSET), em Londres. “Fiquei hospedado no apartamento do meu amigo de infância, o Thiago Rodrigues, aqui perto no Príncipe Real. E daí a minha vida deu uma guinada.”

O ator Thiago Rodrigues, misto de sócio e “relações públicas” do Jobim. Foto: Arquivo Pessoal/Instagram.

Se deu. O que era para ser apenas uma breve escala Galeão-Heathrow terminou numa sociedade com dois bares, uma futura casa de pães de queijo em Lisboa, um namoro seguido de um casamento e uma filha, Ana Violeta, nascida no primeiro dia da primavera, com pouco mais de sete meses de gestação.

A recente paternidade e os cuidados com a filha prematura afastaram-no nos últimos tempos do Jobim, uma ausência sentida pelos clientes habitués, como o senhor de óculos de sol e chapéu panamá, cujo copo na mesa, constantemente monitorizado pelos empregados de mesa, não passa um nanosegundo vazio, sem a imperialzinha.

A preocupação constante em saber se o cliente está a ser bem servido é para ele um ponto a favor do Jobim. “Há uma diferença cultural entre os serviços de restauração de Portugal e do Brasil. Aqui, o funcionário fica mais à espera de ser chamado pelo cliente e lá, o garçom vai mais à mesa, sempre a perguntar se está a faltar algo”, diz.

A informalidade no contacto com os clientes estende-se também às funções de “relações públicas” do sócio brasileiro, o amigo de infância, o ator Thiago Rodrigues, 41 anos. Na constante ponte-aérea Rio-Lisboa, entre gravações de novelas brasileiras e portuguesas, Thiago nem sempre pode ser visto no Jobim, mas quando por lá surge é impossível não notar a presença dele. 

Numa das idas da reportagem da Mensagem ao Jobim num sábado à noite, Thiago estava lá, a distribuir high-fives entre os funcionários e selfies com as fãs, acompanhado por um círculo de animados amigos, uma presença tão efusiva que era possível se estabelecer um a.T. e d.T. – um antes de Thiago e um depois de Thiago – na temperatura da casa.

O Jobim em uma tarde calma de segunda-feira: ambiente que remonta aos botequins do Rio de Janeiro, no coração de Lisboa. Foto: Rita Ansone

Feijoada, pão de queijo e “caipituga”

A temperatura, aliás, é uma variável importante no Jobim. Nos meses mais frios, a ementa ganha o reforço de dois carros-chefes dos botecos brasileiros: o caldinho de feijão e a feijoada.

O caldinho é uma variação mais incrementada do caldo verde português, preparado à base da feijoada e servido num rústico copo de saibro, geralmente acompanhado de doses de torresmos e azeitonas, podendo adicionar-se gotas de lima e piri-piri, a gosto. 

A feijoada dispensa mais apresentações e foi introduzida na ementa do Jobim durante a pandemia. “Num dos períodos do confinamento, só era permitido abrir o bar até às três da tarde e a saída foi apostar na feijoada, o que acabou dando imenso resultado”, explica Antonio.  

O barman Rafael exibe a criação da casa, a “caipituga”, que mistura cachaça brasileira à ginja lisboeta. Foto: Rita Ansone.

Com o restabelecimento dos horários pré-covid, a feijoada foi reposicionada para o dia mais tradicional do consumo no Brasil, aos domingos. Isso, apenas no verão. “Na época balnear, não faz sentido concorrer com a praia”, diz António. Assim, tanto o caldinho como a feijoada atualmente saíram da ementa e prometem voltar em outubro.

Em compensação, é possível contar com outra conhecida iguaria brasileira – embora originalmente não do Rio, mas de Minas Gerais – o pão de queijo, acolhido pelos brasileiros e portugueses de tal forma que o trio de sócios está na iminência de abrir uma casa especializada no petisco, a Queijobim, no mercado de São Bento.

É o terceiro empreendimento na restauração do trio Antonio-Thiago-Pedro, já que o Jobim tem uma filial no Cais do Sodré, embora com um perfil ligeiramente distinto da matriz no Príncipe Real, com menos opções vindas da cozinha e mais serviços de bar.

A caipituga é a estrela da ementa do Jobim. Foto: Rita Ansone.

O que também não aparece na ementa, mas está sempre presente é a curiosa invenção da casa, a “caipituga”, um cocktail que estabelece a conexão etílica entre Lisboa e o Rio de Janeiro. “É preparado com lima, cachaça e… ginja”, ensina o barman Rafael Rodrigues, agitando a coqueteleira, para uma dose generosa à reportagem.

Normalmente, a caipituga surge espontaneamente, oferecida em pequenos copos apropriados à ginja, bebida em shots, não antes do brinde partilhado entre clientes e os funcionários da casa, na celebração das noites cariocas no Príncipe Real, para afastar a saudade de casa e estreitar os laços entre os velhos e os novos lisboetas.


Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 49 anos, há cinco em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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