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Excerto da conversa com NBC nos jardins da Gulbenkian.

Enquanto caminhamos, entre arbustos e árvores sem medo de crescer, paira aquele sossego de quem se habituou a viver assim – na paisagem e como pessoa. Um jardim é o lugar certo para conhecê-lo. Há pássaros a tagarelar e a pousar bem perto, como se prestassem atenção à conversa. Há trilhos cerrados de verde. Não é São Tomé, a sua ilha. E também não é Ervideira, a pacata aldeia de Mafra, onde aterrou com cinco anos e viveu antes de descobrir o mundo em Lisboa. Mas Timóteo “NBC” fica aqui bem.

Estamos nos jardins da Gulbenkian e basta pouco tempo para NBC não passar despercebido. “Olá, posso tirar uma foto contigo?” “Sim, claro. Vais estar cá no domingo?”, devolve. É aqui que dia 3 de julho, Timóteo irá apresentar no Jardim de Verão (festival curado por Dino D’Santiago) a sua versão mais completa.

Não só a sua música, mas também uma curta-metragem sobre ele e a família, que é o culminar de uma carreira de artista consolidada e uma forma de mostrar orgulhosamente aos seus pais: “Este foi o filho que vocês fizeram”.

O filme é homenagem a duas pessoas que largaram tudo no país deles, lá longe, e vieram para Portugal em busca de sonhos para os quatro filhos. Mas também uma forma de preservar para a eternidade a história desta família: para os filhos de NBC, para os filhos dos filhos. E por aí fora. É isso que ele mais quer.

NBC nunca foi obrigado a escolher um ou outro caminho – sempre teve liberdade para crescer. No entanto, não faltavam os avisos constantes para a realidade: ter de fazer pela vida e compreender que ele seria a sua própria âncora. Acredita que isso foi o melhor que fizeram por ele: ensiná-lo a ter disciplina e dedicação por algo que ambiciona.

O devaneio levou-o para uma carreira musical de sucesso. E não foi por acaso.

Do fado ao hip hop

Em casa, sempre se ouviu muita música. Na igreja, todos cantavam no coro. E isso explica muito o percurso que, naturalmente, NBC foi traçando. A influência das sonoridades. Aquelas melodias que não lhe saíam da cabeça. Os fados que a mãe cantava, como o Xaile De Minha Mãe. As músicas tradicionais na rádio dos anos 80. E, claro, as suas raízes africanas.

NBC tem sempre boa disposição. A cantar, dançar ou apenas conversar. Foto: Nuno Mota Gomes

Timóteo lembra-se de uma infância muito feliz. De São Tomé, os primeiros anos sabem-lhe a muita brincadeira, com carrinhos e correrias bem perto da igreja na cidade – onde viviam. Quando lá regressou, décadas depois, não sentiu grande impacto nessa relação tão distante e, afinal, tão perto.

Para ele, algo que não se explica bem é o nosso ADN. “Temos coisas dentro de nós que não sabemos que estão lá. E, no momento certo, há um trigger e aparecem”.

NBC sentiu-se completamente em casa na sua ilha: andava descalço, falava com toda a gente e nada do que comeu foi novidade. Até porque, em Portugal, falaram sempre crioulo são-tomense em casa e mantiveram a tradição da comida.

Uma vida passada noutro país não lhe roubou a emoção da terra do leve-leve, que também é sua.

Em Mafra, a diversão de ser criança continuou. Sempre se sentiram bem integrados na pequena Ervideira, onde todos se conheciam e trocavam produtos. Não havia diferenciação. E aquele era o seu mundo. Com saltos entre a escola básica de Sobral de Monte Agraço e o ensino secundário em Torres Vedras, Lisboa ainda estava longe do imaginário.

Identificação de Timóteo, da Escola Básica de Sobral de Monte Agraço. Ali era o seu mundo.

Como tinha família nas Portas de Benfica, quando vinham à capital era ali que ficavam. Por isso, essa relação com a cidade também quase não existia. “Eu olhava do guetto para os prédios lá fora e pensava ‘eu não quero ir para ali’”. Por desconhecimento e porque era diferente.

Só aos 16, 17 anos é que começou a ter noção da vida que havia em Lisboa. E foi como uma droga, como se costuma dizer: “Assim que vim, não queria outra coisa”. 

Os dois canais de televisão e alguns programas de rádio tiveram uma grande influência na sua vida. Eram tempos em que a música urbana estava a fervilhar nos EUA e começava a haver algum acesso a essa informação.

“Os Public Enemy começaram a dizer coisas com uma dinâmica social. E eu aí: ‘Espera lá, mas eu identifico-me com isto’”.

Antes disso, NBC tinha zero noção dele próprio. Do que era perante a sociedade. 

Era início dos anos 90 e uma vaga do outro lado do Atlântico inundava o mundo todo e Portugal não foi exceção: o movimento e a cultura hip-hop juntava cada vez mais curiosos. 

O famoso “quarto mágico” de Sam The Kid foi um dos lugares onde vários jovens – que mais tarde se tornaram artistas – aprenderam juntos.

“Tinha ali alguém que era como eu. Havia a mesma vontade”. Mas também na casa do Mundo Segundo, do DJ Cruzfader e ainda antes disso tudo na casa do DJ Bomberjack – o primeiro impulsionador de grupos e artistas.

Na verdade, NBC só conheceu Samuel Mira um pouco depois, quando já tinha o grupo Filhos D’1 Deus Menor com o irmão Black Mastah. “Até convidámos o Sam The Kid para cantar connosco na Expo ‘98”, conta, nostálgico.

Antes disso, em 1994, o grupo fez a primeira aparição no concurso Oeiras Rap, organizado por José Mariño – um dos pais do hip hop em Portugal, sobretudo através da rádio. 

“Quero mostrar aos mais novos e aos pais deles que é possível, se acreditarem”

NBC

O DJ Bomberjack foi juntando artistas daqui e dali para começar a gravar mixtapes. A seguir, surge o Rapública, a primeira compilação de rap em Portugal, juntando nomes da Área Metropolitana de Lisboa e, por isso, NBC e Black Mastah não puderam fazer parte do álbum. Mas já andavam no radar. 

NBC continua a ter a mesma vontade de aprender, cantar, tocar, como quando começou essa aventura.

Com Samuel – também em busca da sua identidade -, todos os que estavam fascinados com o hip hop começaram a entrar noutro mundo. Entre quatro paredes criando beats com toda a liberdade. Faziam rimas em freestyle. Passavam horas a explorar o desconhecido. Estudavam, inventavam e criavam.

“Quando realmente amas uma cena e queres estar dentro do assunto, é isso que tu fazes”, conta NBC, que continua a encarnar o jovem dedicado que desde o início de 2000 seguiu a solo.

Olhando para trás, NBC diz que a luta de hoje continua a ser da mesma forma. Sim, existe a internet e o poder das redes sociais, mas o mais importante “é o talento e a comunicação”, garante. “É isso que faz a diferença”. 

Há 20 anos, se tivesse um disco para lançar, as editoras não lhe ligavam nenhuma.

NBC apanhava o comboio para Lisboa, fazia o CD à mão, a bolacha e uma capa bonita. Depois, ia às pequenas lojas, punha lá à venda e espalhava cartazes, distribuía cópias nas festas e contava a toda a gente. O formato de hoje é diferente, mas a base é a mesma.

Também ele próprio mudou enquanto artista, embora continue com o foco de sempre. Do rap mais cru foi lentamente evoluindo para as sonoridades do soul e dos blues, passando pelo groove e a energia do funk e do rock. “Nós não conseguimos fugir à nossa essência. E a minha é essa”. Na igreja escrevia e cantava músicas com banda atrás dele. Por isso, não foi uma novidade essa transição até perceber: “Isto sou mais eu”.

Continua a adorar rimar, mas cantar é muito mais natural. 

No entanto, as colaborações com amigos de longa data que permanecem no rap são constantes. A sua voz incontornável brilha em músicas com Regula, Mundo Segundo, Sir Scratch, entre outros – e também com o grupo Cais do Sodré Funk Connection. A estes nomes juntam-se outros pioneiros que formam um núcleo há mais de duas décadas, continuando sempre a estudar, discutir, ouvir, ler. E para NBC é fulcral “nunca achar que o teu conhecimento é mais importante do que o dos outros”. Humildade e respeito também fazem parte do jogo. 

A Nova Lisboa. “Somos todos diferentes”

Todos estes anos depois, NBC mantém a sua base em Mafra. Sente-se bem lá, apesar de passar a maior parte do tempo em Lisboa – que tanto gosta. Sente nesta cidade uma vibe e uma energia muito específica, pelo encontro de pessoas de todo o lado do mundo. “Tu queres comer uma sardinha e a seguir uma moamba. É essa Lisboa que está no sangue de toda a gente”. 

É isso que é Lisboa, mas também é algo transversal ao país, desde que NBC se lembra de cá viver. Mas nas outras regiões não é incentivado da mesma forma que é na capital. O Jardim de Verão, com a curadoria de Dino D’Santiago, a propósito da exposição Europa Oxalá, da Fundação Calouste Gulbenkian, que junta artistas com origens das antigas colónias em África, é um marco na história da cidade e do país.

NBC concorda plenamente. 

NBC está entusiasmado pela oportunidade de ver o trabalho de outros artistas luso-africanos. Admira muito poderem estar todos juntos na Gulbenkian, um dos mais emblemáticos centros culturais do país. Foto: Nuno Mota Gomes

“É uma oportunidade de acesso para que, jovens e não só, percebam que este espaço é para toda a gente”. Embora o jardim e o museu sejam de acesso público, ele sabe bem como são as coisas. “Ainda há quem passe por fora, porque têm vergonha”, diz. Como vivem numa zona limítrofe, também têm dificuldade em estarem juntos neste espaço, que também é deles. “Algo está enraizado e afasta-os”.

NBC reconhece que a exclusão social também acontece noutras cidades do país. Por isso, quando houver um artista grande da Madeira ou de Portalegre, por exemplo, também tem de existir uma plataforma de divulgação. “Eu e tu, enquanto agentes de alguma informação, temos também o desafio desse trabalho.”

Tal como Dino está a fazer na Gulbenkian, Brito Guterres no MAAT ou Sam The Kid fez no Rock in Rio.

Embora esta iniciativa seja de artistas descendentes de africanos, NBC chama a atenção para algo que o incomoda: “A única coisa que nos liga é a cor da pele”.

Ele é mais português do que são-tomense. O Dino D’Santiago nasceu em Portugal e é descendente de Cabo Verde. E o Sir Scratch é angolano. Algumas dinâmicas sociais acabam por juntá-los, mas não têm nada a ver uns com os outros. “Somos todos diferentes. Há uma aproximação, mas também tem de haver um distanciamento que seja preservado e analisado”, explica. 

Por outras palavras, NBC fala da necessidade de não serem todos postos no mesmo quadrado. Têm uma ligação com África, mas são vários países e culturas muito distintas. Assim como grande parte dos jovens que já nasceram em Portugal e que muitas vezes não se sentem incluídos. “Ninguém quer uma cisão. Nós queremos uma junção, por isso é que se chama luso-africano”. 

Ele próprio está entusiasmado pela oportunidade de ver outros artistas luso-africanos, com uma sensação de “wow, não conhecia isto”. Admira muito poderem estar todos juntos, num dos mais emblemáticos centros culturais do país, mas cada um está na sua dinâmica. Para além de abrir portas aos portugueses conhecerem tudo isso. “É uma grande cachupa, que tem particularidades de uma feijoada e junta tudo e todos. Lisboa é uma cachupa”. 

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NBC apresenta-se enquanto artista, mas também como pessoa. Como é que encara o mundo lá fora. Vídeo: Nuno Mota Gomes

EPílogo, o filme de NBC. “É a nossa história”

Este domingo, 3 de julho, Timóteo apresentará a sua versão mais completa de NBC com um concerto às 18:30 e a sua curta-metragem EPílogo que irá rodar entre as 16:00 e as 19:00, na Gulbenkian.

O Xaile de Minha Mãe é a música de fundo da sua cabeça e a ideia do filme nasce da construção desse xaile protetor. “Gostava mesmo de contar esta história visualmente, de duas pessoas que vieram de São Tomé com sonhos para os seus filhos. E, na verdade, os sonhos concretizaram-se”. 

Para NBC é tão importante poder concretizar este projeto com os pais presentes. Eles são atores do filme. “É a nossa história, que nos une a todos”. O sorriso e o orgulho notam-se à distância. E para ele, é tão bonito ter nascido em São Tomé, ter vivido todos estes anos noutro país, e ter mais coisas positivas para contar do que negativas. “Isso é dos meus pais”. 

O fado O Xaile de Minha Mãe é a música de fundo em NBC e a ideia do filme EPílogo nasce da construção desse xaile protetor. Foto: Nuno Mota Gomes

Há algumas fotografias antigas, mas não há vídeo. Tem pena, claro. “Se fosse o Sam The Kid teria registos antigos. Mas nem havia dinheiro na altura para comprar uma máquina…”, diz, a rir-se e com admiração pelo amigo que há mais de 20 anos é um arquivista. 

Na pandemia NBC lançou o álbum EPiderme, mas o tempo em casa mudou-o. E sentiu a confiança de que esta era a altura certa para um projeto diferente. Olhando para trás, reconhece uma carreira consistente e o à vontade para fugir para outra arte, mais visual. “Quero mostrar aos mais novos e aos pais deles que é possível, se acreditarem”. Como uma chamada de atenção para não ficarem tão enclausurados. Para ele, a felicidade é isso mesmo: poder fazer o que sempre quis. 

“É daqui que eu venho”. Aponta com o dedo, como se já estivesse a ver a família, os amigos e os curiosos, sentados a assistir o filme numa tela gigante. Quando subir ao palco, promete: “O NBC vai ser este concerto”.


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Nuno Mota Gomes

É jornalista. Adora escrever, fotografar e perder-se em pensamentos. Anda de mota, faz surf, viaja sempre que pode – e nem sempre para o estrangeiro. Agora fá-lo mais aqui, em Lisboa, onde nasceu. Um Interrail abriu-lhe horizontes, publicou um livro e muitas reportagens de viagens na Volta ao Mundo – onde se estreou na TV. Passou ainda por outras publicações e durante dois anos integrou o Diário de Notícias. Há quem diga que percebe de redes sociais. Tem 29 anos. 

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