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Para Lauro António, que escreveu neste
mesmo jornal sobre cinema

Pertenço a uma geração que perdeu amigos e irmãos para as drogas duras e os acidentes de moto; mas, no meu caso, a droga de juventude era o cinema.

Não só não perdia um ciclo na Cinemateca ou na Gulbenkian – onde papei todo o Visconti, o Bresson, o Hitchcock, o Jacques Demy… e vi filmes que nunca mais esqueci (como Freaks, de Tod Browning) –, mas também frequentava as salas de cinema nunca menos de três vezes por semana.

Acho que comecei, levada pela mão da minha mãe, pelo Bambi e a Música no Coração, ambos no Tivoli que, apesar de tudo, se mantém como sala de espectáculos e onde a programação foi oscilando entre as grandes produções, como E Tudo o Vento Levou ou A Torre do Inferno, e o cinema de autor, como Profissão Repórter, de Antonioni.

Mas nem todas as grandes salas tiveram a mesma sorte: o Monumental, onde me deliciei com My Fair Lady ou O Grande Ditador e me impressionei mais tarde com Apocalipse Now (e onde frequentava, com o meu irmão, o Satélite para me maravilhar com o Bergman a preto e branco), foi deitado abaixo; o Eden, onde comi a pastelada d’O Exorcista maquilhada e de saltos porque o filme era para maiores de 18 anos e eu só tinha catorze, é hoje um hotel; o Condes, que passava as comédias de Louis de Funès, deu lugar ao Hard Rock Café; e – pior do que tudo – o Império (que tinha uma sala estúdio onde conheci Polanski através de A Semente do Diabo) tornou-se templo da Igreja Universal do Reino de Deus!

Sobrou-nos, vá lá, o São Jorge, no qual assisti a muitas obras-primas inesquecíveis – Doutor Jivago, A Amante do Tenente Francês, A Escolha de Sofia, A Laranja Mecânica, África Minha… – e me lembro de ter visto a primeira parte de 1900, após o que jantei um combinado no Galeto para apanhar, na sessão da noite do Mundial, a segunda parte.

Já não temos, infelizmente, o Mundial e, só na zona das Avenidas Novas, quase todos os cinemas que desapareceram, a começar pelo Avis, onde, aos treze anos, fui com a escola ver o dramalhão Simplesmente Maria, que era a maneira que as freiras tinham de nos alertar para os perigos de uma gravidez não desejada.

Salvou-se o Nimas de Chove em Santiago ou Oficial e Cavalheiro, mas evaporaram-se o Berna, de Jesus Cristo Superstar ou ET; o Apolo 70 de Barry Lindon, O Homem Elefante ou Os Marginais; o Sétima Arte, debaixo da ponte do comboio, onde vi Starman; o Estúdio 222, que passava cinema português e onde ouvi Victoria Abril falar com a voz de Manuela Maria em Silvestre; o Estúdio 444, onde recordo sobretudo Doutor Estranhoamor; a sala do Centro Comercial City, perto do Imaviz, onde me estreei no cinema erótico com O Império dos Sentidos numa sessão da meia-noite; e, já no Campo Grande, o Caleidoscópio, do qual recordarei para sempre Chinatown e, claro, Peter Bogdanovich e a sua Última Sessão.

Houve demasiadas últimas sessões também para os lados de Alvalade: desde logo, perdemos o luxuosíssimo cinema Star na Guerra Junqueiro, onde ainda oiço o Bolero de Ravel em Les Uns et les Autres; mas também sumiram as cadeiras que baixavam com o nosso peso no Londres (hoje loja chinesa), que passava Buñuel, Truffaut, Rohmer e muitos outros; morreram os Alfa (onde conheci, por exemplo, Blue Velvet); as salas do Centro Comercial de Alvalade (O Jogo Fatal, de David Mamet, ainda é um dos meus filmes favoritos); o ACSantos, escondido na Avenida da Igreja (Frances foi uma revelação); o Vox/King, de tantos filmes e também de Cyrano; o Roma (lembram-se de O Passageiro da Chuva?), que hoje é a sala da Assembeia Municipal e, claro, o inesquecível Quarteto, onde se andava freneticamente de sala para sala atrás de coisas tão diferentes como Querelle, Cerromaior, O Fantasma da Ópera, Voando sobre Um Ninho de Cucos, Almodóvar, Woody Allen, Tanner, Tarkovski, Wim Wenders…

Mesmo o cinema Alvalade desmaiou por mais de uma década (foi nele que, em adolescente, me despedi de uns amigos que foram viver para o estrangeiro com um filme chamado Friends), antes de ressuscitar há uns anos, dividido em muitos e com novo nome (City).

No resto da cidade, a mesma escuridão: o Castil (onde fui ver Amarcord às escondidas da minha mãe), o Fonte Nova, o Gemini, o Pathé, o Roxy, o Terminal (que ficava na estação do Rossio ao lado de umas lojas manhosas) e ainda outros onde nunca cheguei a pôr os pés, como o Cinebolso, o Paris, o Jardim Cinema ou o Europa, estão reduzidos a memórias de uma cidade que já foi de cinéfilos e salas cheias.

Ficaram apenas aqueles espaços que cheiram a pipoca e, aqui e ali, um milagre de teimosia.

A minha vida tem agora mais livros e menos filmes. Porque será?


Maria do Rosário Pedreira

Nasceu em Lisboa e nunca pensou viver noutra cidade. É editora, tendo-se especializado na descoberta de novos autores portugueses. Escreve poesia, ficção, crónica e literatura infanto-juvenil, estando traduzida em várias línguas. Tem um blogue sobre livros e edição e é letrista de fado.

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