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O Omar é o meu vizinho asiático, dono da Mercearia de Alvalade perto da minha casa. Omar Sharif, grafado assim mesmo, como o ator egípcio, de quem provavelmente o pai ou, mais provavelmente ainda, a mãe era fã. O curioso é que Omar nunca viu um filme do outro Omar. Sempre soube da existência dele por terceiros, daqueles que ao ouvir pronunciá-lo o nome perguntam:

“Como o ator?”.

E pela milésima vez na vida, Omar aquiesce com a cabeça, “sim, como o ator”.

O meu vizinho Omar em nada se parece com o outro. É na verdade um anti Omar Sharif, mais baixo, mais magro, mais encurvado, mais míope, incapaz de enfrentar beduínos, otomanos ou bolcheviques, principalmente com as indefetíveis sandálias havaianas que arrasta pela mercearia.

Todavia, assim como o ator, o meu vizinho asático é um artista, embora a arte dele seja outra, muito mais difícil que decorar falas e atuar diante das câmaras. A arte de Omar é a arte da sobrevivência. Omar, assim como todos nós imigrantes somos em algum grau, é uma espécie de equilibristas de pratos.

Um equilibrista de pratos daqueles de circo, a girar com as palmas das mãos as hastes de metal, na ponta de cada uma delas um prato a rodar, em busca de equilíbrio. O segredo do número, todos sabem, é nunca deixar as hastes pararem de girar, o que leva o pobre homem a freneticamente revezar-se entre elas.

A girar e girar.

No caso de Omar, os pratos são os dois filhos, a mercearia em Alvalade, um trabalho extra como analista de conteúdo digital numa teleperformance da vida.

O cenário é o seguinte: entra-se na mercearia e lá está o Omar a girar o prato do caixa da mercearia, ao mesmo tempo que gira o prato da explicação de matemática ao mais velho sentado ao pé dele, a girar ainda o prato da mais nova no ombro de Omar, à espera das palmadinhas nas costas que lhe tragam o ansiado arroto.

Como se não bastasse, Omar improvisou uma secretária sobre a arca dos gelados, no fundo da mercearia. É lá que fica o computador onde o meu vizinho indiano gira o prato das análises de conteúdo digital oito horas por dia, ao mesmo tempo que passa o troco, ensina matemática e dá palmadinhas nas costas dos filhos.

Omar a girar e girar os pratos.

No fim do dia, lá pelas dez da noite, a mais nova já a dormir, o mais velho afiado na tabuada de dois, dezenas de vídeos do YouTube devidamente analisados e a caixa da mercearia fechada, Omar guarda os pratos e recolhe-se para o merecido descanso.

Mas Omar não se recolhe num T2 algures na Amadora ou numa modesta casinha em Torres Vedras, mas a poucos passos da caixa que o escuda durante o dia. O meu vizinho indiano, artista na arte da sobrevivência, equilibrista de pratos, vive com os dois filhos e a mulher num quarto improvisado na mezzanine da mercearia.

Mais árduo e arriscado do que enfrentar beduínos, otomanos e bolcheviques.

Só outro dia descobri que o meu vizinho se chamava Omar Sharif. Até então, Omar era apenas o meu vizinho indiano – indiano não da Índia, mas de um outro país asiático.

E, já sei, lá está o imigrante aqui a reproduzir o preconceituoso discurso do colonizador, a Índia uma espécie de chá de boldo que serve para tudo, inclusive para cobrir qualquer extensão territorial da Ásia até a América do Sul.

A descoberta veio por acaso, quando uma das clientes da mercearia de Omar fez a mesma pergunta de sempre e o meu vizinho merceeiro, mais uma vez, foi obrigado a confirmar com a cabeça, “sim, como o ator”.

A cliente chama-se Maria do Carmo, uma senhora bem vestida, de penteado e batom em dia, a caminhar lentamente com a ajuda de uma bengala. Ofegante, entre pedidos, “traga-me lá cinco quilos de batata e dois de arroz”, mete um ou outro dos seus bordões, do tipo “tenho quase noventa anos” ou ainda “ando tão cansada”.

“Omar Sharif, como o ator?”, insiste. “Sim, como o ator”, responde Omar.

A menção ao nome do egípcio fez a dona Maria do Carmo recuar no tempo cinquenta anos. Estamos no Algarve, na inauguração de um hotel de luxo. Dona Maria do Carmo aos quarenta anos, recém enviuvada, “uma mulher livre”, a ressalva pontuada pela vigorosa batida da bengala no chão.

Dona Maria do Carmo a subir a escada cinematográfica do hotel, daquelas em caracol, sem a ajuda de bengala. A mão agora segura a ponta de um vestido amarelo. Já não tem quase noventa anos nem está cansada, é uma “mulher livre”, vigorosa e determinada. Nada poderia travar-lhe a escalada triunfal, nada a não ser…

Um distinto senhor que descia a escada no sentido contrário. Um distinto senhor “de fato creme”, recorda-se, as retinas humedecidas pela visão daquele conhecido rosto, o mesmo que mirara – e admirara – tantas vezes nas inúmeras sessões de Doutor Jivago no grande ecrã do cinema Império. 

A cliente fica mais ofegante e Omar por um momento para de girar o prato com os cinco quilos de batata e dois de arroz e oferece a própria cadeira para dona Maria do Carmo se sentar, no exíguo espaço da mercearia, diante da austera máquina vending de cigarros. “Estou tão cansada”, repete. “Tenho quase noventa anos”.

Hoje, é assim, dona Maria do Carmo está cansada, tem quase noventa anos, mas lá atrás, no hotel novinho em folha no Algarve, era uma mulher livre a subir a escadaria em caracol, na direção contrária ao distinto senhor de fato creme saído do ecrã. Cruzam-se, trocam olhares e o Doutor Jivago retribui o flirt com um alvo sorriso.

Mais tarde, no sumptuoso restaurante do hotel, os dois voltam a cruzar-se. Doutor Jivago novamente sorri, à distância. Não demora e dona Maria do Carmo é surpreendida pela súbita aparição do maître, uma reluzente bandeja de prata em punho, onde repousa sobre a superfície polida uma solitária rosa vermelha.

“Queria que fosse sentar-me à mesa dele”, revela dona Maria do Carmo.

“E então?”

“Mandei o maître perguntar ao cavalheiro quem ele pensava que era para convidar uma senhora sozinha para a mesa dele”.

Dona Maria do Carmo ajeita-se na cadeira. Tem novamente quase noventa anos e está cansada, muito cansada. “Naquela época não era assim”, explica. “Não era como hoje”. Não era, mesmo. Era o Portugal dos anos 1960, dos colégios religiosos, dos rígidos costumes, dos olhares vigilantes dos parentes e também dos estranhos.

A determinação de dona Maria do Carmo, porém, durou pouco. Após o jantar, procurou entre os rostos do restaurante o sorriso do Doutor Jivago. Sem sucesso, recorreu ao maître que, tocado pela situação, permitiu-se à indiscrição de comentar que o distinto senhor iria participar num torneio de bridge no salão de festas.

“Omar Sharif era viciado em bridge”, conta dona Maria do Carmo. “E aquele jogo dura um dia inteiro, vinte e quatro horas. Quem entra não sai até terminar.”

Dito e feito. A última vez que a cliente do meu vizinho indiano viu Doutor Jivago no seu fato creme, foi de costas, a entrar pela porta do salão de jogos.

E de lá não mais saiu.

Todas as noites, Omar também desaparece pela porta que separa a mercearia da mezzanine onde vive com a família. Apesar do comércio e do trabalho extra como analista digital, a receita do meu vizinho não chega para um lar digno. “As rendas estão altas”, diz. “A inflação está alta, espanta os clientes”, reforça.

Espanta os clientes, mas não dona Maria do Carmo, que entra pela porta, apoiada na bengala, o penteado impecável, o batom vermelho a macular um dos dentes. Faz uma festa na cabeça do mais velho de Omar, com o livro de matemática em mãos. “Estou tão cansada”, avisa, e Omar mais uma vez oferece-lhe a própria cadeira.

“Tenho quase noventa anos.”

A rotina de Omar como equilibrista de pratos é como as partidas de bridge do outro Omar, leva o dia inteiro, com a diferença que o meu vizinho asiático tem sempre uma mão ruim. Em vez de uma luxuosa suíte de um hotel novinho em folha no Algarve, Omar aperta-se com a família na mezzanine sem janelas sobre a mercearia.

“Traga-me lá cinco quilos de batata e dois de arroz”, recomeça dona Maria do Carmo.

O meu vizinho Omar pede licença e vai ao misto de secretária e arca de gelados, onde está o computador. Conjuga duas teclas e aciona o horário do almoço no trabalho de análises dos vídeos, pois sabe que a cliente sempre lhe exige tempo. Um dos pratos para de girar por alguns minutos.

“Omar Sharif, Omar Sharif…”, repete dona Maria do Carmo, as memórias do luxuoso hotel no Algarve revividas na memória. A cliente olha na minha direção e aponta para o dono da mercearia, que está de costas, a meter as batatas no saco. “Nada a ver um com o outro”, sussurra, constatando o óbvio. Pois é, nada a ver.

Na Lisboa das altas rendas e inflação, Omar não é exceção. Na rua, todos sabem que ele vive na mercearia. Veem-no sair pela manhã de mão dadas ao mais velho, arrastando as sandálias havaianas rumo à escola. Veem-no retornar, girar os pratos, encerrar as portas, desligar as luzes e desaparecer na sua mezzanine.

Todos veem e acham tudo natural.

Todos o veem, mas mesmo assim, o meu vizinho é invisível. Ao contrário do Omar famoso, do Omar ator, um dia visto por todos nos cartazes e ecrãs, o meu vizinho Omar Sharif é mais um imigrante apagado por uma Lisboa que é linda e generosa, mas que também pode ser feia e cruel.

E fica o aviso: ninguém está livre de ser o próximo vizinho indiano de alguém.

Basta apenas que na próxima rodada no bridge calhe de vir uma mão ruim.


Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 49 anos, há seis em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.


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1 Comentário

  1. Em Lisboa há muitos invisíveis , não só imigrantes.Sem-abrigo, por exemplo
    Todos podemos cair nessa situação
    Quanto ao caso descrito,conheci um casal português já falecidos, que moravam nas traseiras da mercearia e criaram 3 filhos , todos com formação superior

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