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Daniel Munduruku mira o Padrão dos Descobrimentos embalado pela bossa-nova que ecoa do saxofone de um músico de rua. O antropólogo e escritor brasileiro caminha anónimo entre os turistas, “apenas mais um latino-americano”, diria em seguida, embora o imenso monumento, assim como Lisboa, sejam para ele fontes de constante reflexão.

Autor de mais de 50 livros, a maioria para o público infantil, distinguido com dois prémios Jabutis, o mais importante galardão literário brasileiro, aos 58 anos Daniel é filho do povo munduruku, uma comunidade indígena com cerca de 15 mil pessoas, no coração da Amazónia, onde já estavam séculos antes de os portugueses “descobrirem” o Brasil.

Munduruku que em tupi significa “formigas vermelhas”, um termo cunhado pelos rivais parintintins, uma referência à forma como os mundurukus costumavam belicosamente organizar-se em suas investidas territoriais.

Daniel Munduruku diz que caminhar por Lisboa também o leva a constantes reflexões sobre a história dos descobrimentos. Foto: Inês Leote

Atualmente a viver em Lorena, no interior de São Paulo, essa é a quinta investida territorial de Daniel por Lisboa – a primeira foi como ator de um filme de época – a última como convidado pelo prémio Oceanos para participar do Festival Internacional Literário de Óbidos (Folio) e de um debate com os lisboetas na livraria Ler Devagar.

Entre os dois compromissos literários, conversou com a Mensagem sobre a sensação de passear por uma Lisboa intrinsecamente ligada à história da colonização brasileira pelos portugueses.

Uma cidade que se sente à vontade, até mais do que nas ruas do Brasil, onde às vezes é ainda olhado com um certo ar de “espanto”.

“Lisboa é uma cidade acostumada à diversidade”, diz o escritor brasileiro na entrevista, que vê na polémica local em relação ao termo “descobrimentos” um sinal positivo de autocrítica dos portugueses com a história, ao contrário do Brasil, onde a memória colonial ainda se reflete na violência contra os povos indígenas e serve como base para o atual fascismo presente no país.

Sobre a igualmente polémica construção em Lisboa de um Museu dos Descobrimentos em memória ao passado colonial português, o antropólogo Daniel Munduruku diz achar mais apropriado o termo “achamento”, embora na sua opinião, o melhor mesmo sobre o assunto era que não houvesse “museu algum”.

Para o escritor indígena, a história da expansão marítima portuguesa não pode ser negada, o que não impede releituras Foto: Inês Leote.

É correto chamá-lo de “índio”?

Não faz muito sentido para nós o termo “índio”. É mais coerente “indígena”, que quer dizer “originário”. Hoje em dia, é mais frequente referir-se como “povos originários” ou “povos indígenas”. Até porque é um termo utilizado em todos os lugares do mundo, inclusive nos Estados Unidos, que se referem aos povos de originários como indigenous.

Assim como não faz sentido se falar em “tribo”?

Isso, tribo também é uma palavra vazia de significado. Nós sempre preferimos povo, que espelha uma autonomia, pois somos povos autónomos ou autóctones. Mas ainda é difícil se desfazer desses mal-entendidos. É por isso que escrevo, principalmente para crianças, pois é na infância que se pode apagar os estereótipos. Falar com adulto sempre dá uma certa preguiça, pois o adulto tem a cabeça mais dura.

“Lisboa, assim como toda a Europa, é um lugar que abriga muita diversidade. Então, andando pela cidade eu não me sinto constrangido como às vezes me sinto no próprio Brasil.”

Daniel Munduruku

Já conhecia Lisboa?

Conhecia, sim. É a quinta vez que venho a Lisboa. Estive aqui uma vez num evento na Universidade de Lisboa, outras a passeio, quando aproveitei para fazer um tour pelo país, fui a Fátima e ao Porto. Já fui também a Figueira da Foz, para participar do festival literário Correntes da Escrita. A primeira vez em Lisboa foi ainda antes de construírem esse monumento, sobre esse tal descobrimento, em 1998, para participar de um filme.

Um filme?

Sim. Naquela altura, ainda estudava antropologia e, às vésperas das comemorações dos 500 anos da chegada dos portugueses ao Brasil, havia um certo interesse em se contratar atores indígenas. Fiz alguns comerciais na televisão e fui convidado pelo realizador Luiz Alberto Pereira, que já havia lançados livros e era relativamente conhecido, para participar do filme Hans Staden (1999), falado em português, alemão e tupi, e que contava a história de um alemão sequestrado pelos tupinambás no século XVI. Como não havia caravelas no Brasil, uma parte da produção foi rodada em Lisboa.

Era um papel importante?

Nada, era apenas um figurante. Mas o meu personagem tinha uma fala no final do filme e foi só por isso que acabei por vir. Era uma fala boba, meio sem sentido inclusive, onde o personagem olhava para Lisboa e dizia, em tupi: “Que lugar meio estranho”.

E Lisboa é realmente um lugar meio estranho?

Lisboa, assim como toda a Europa, é um lugar que abriga muita diversidade. Então, andando pela cidade eu não me sinto constrangido como às vezes me sinto no próprio Brasil. Aqui, as pessoas estão mais acostumadas com a diversidade de rostos e das línguas e não olham para mim, digamos, com espanto. Nunca houve uma abordagem sobre ser um indígena brasileiro. Em Lisboa, sou apenas um mais um latino-americano.

“Os portugueses parecem mais dispostos a terem os indígenas brasileiros como aliados na missão de construir uma nova história.”

Daniel Munduruku

Mas Lisboa não lhe traz nenhum sentimento especial?

Claro que sim. É um lugar que carrega todo um simbolismo e sempre me leva a uma reflexão. Não adianta lutar contra a história, ela está aí, contada, escrita e o que se deve fazer é refletir sobre ela para produzir uma nova história no futuro. A colonização faz parte da história de Portugal e do Brasil, não se pode negar. Mas se pode refletir a respeito dela, sobre como a colonização, que é sempre um ato hostil, violento, reflete-se no contexto social brasileiro atual e também no fluxo dos milhares de brasileiros que hoje fazem o caminho inverso, em direção a Lisboa.

Por falar em reflexão, há uma certa polémica entre os portugueses a respeito do termo “descobrimentos”, inclusive, em relação a um Museu dos Descobrimentos em Lisboa…

Como disse, a história está escrita, não adianta negá-la, como querem fazer no Brasil sob esse governo negacionista, que tenta apagar o golpe militar e outros factos históricos. Os portugueses agem bem ao fazerem essa autocrítica, na tentativa de se reconciliarem com a história. Os portugueses parecem mais dispostos a terem os indígenas brasileiros como aliados na missão de construir uma nova história que virá, ao contrário dos brasileiros, que ainda estão presos ao passado colonizador e reproduzem a violência da lógica colonizadora contra os indígenas e contra eles mesmos.

Daniel Munduruku teme o impacto no seu povo em caso de uma nova vitória de Bolsonaro. Foto: Inês Leote

A polémica passa pelo nome, inclusive, que remete aos “descobrimentos”. Teria alguma sugestão de como o museu deveria se chamar?

Penso que “achamento” seria um termo mais adequado. Embora continue a achar que o melhor era não ter museu algum, pois o museu é um equipamento que tenta congelar a história no tempo e a história está constantemente a ser escrita.

“O meu povo ocupa uma região rica em ouro, no coração da Amazónia. Se o Bolsonaro ganhar, corre imenso risco”

Daniel Munduruku

Foi citada aqui a atual situação política no Brasil, ligada aos conflitos com os povos indígenas e ao desmatamento da Amazónia. Como o resultado das próximas eleições pode refletir nessa situação.

Se o Bolsonaro ganhar, o caos vai se instalar de vez. O primeiro ato do atual presidente foi dividir em dois a Funai, o órgão responsável pela gestão dos povos indígenas. O que é bastante simbólico e reflete o que está a acontecer. Se ele ganhar, terá uma carta branca para continuarem a negação das leis, da violência não só contra os indígenas, mas contra os quilombolas (povos descendentes dos escravos) e até contra os homens do campo. Mesmo filiado ao PDT (Partido Democrático Trabalhista, que apoiou Ciro Gomes), acho que se o Lula (da Silva) vencer, as agressões e o desmatamento certamente terão um travão.

O seu povo, os mundurukus, corre perigo?

Assim como os outros povos originários, correm bastante perigo. O meu povo ocupa uma região legalmente delimitada e protegida de 2,5 milhões de hectares, no coração da Amazónia, entre o Pará, o Mato Grosso e o estado do Amazonas. É uma área predominantemente íngreme, inapropriada para o agronegócio, mas em compensação com muitos rios, portanto, rica em ouro e outras pedras preciosas, ou seja, valiosa para os garimpeiros. E o garimpo é uma atividade tão agressiva como o do agronegócio em relação às pessoas que vivem nessas regiões, e somos 15 mil espalhados por dezenas de aldeias, mas é muito mais danosa ao meio ambiente, pois além das florestas, destrói também os rios.

Não se cansa dessa luta constante pela afirmação indígena?

Não me canso. É de onde sou. Se não puder falar mais sobre esse tema, não teria mais sobre o que falar. Poderia falar sobre futebol (é adepto simpatizando do Corinthians) ou sobre novela (tem acompanhados os capítulos do remake de Pantanal através “dos olhos da esposa), mas o que gosto e preciso falar, mesmo, são das causas indígenas, da identidade de um Brasil ainda em formação, que não soube fazer uma reflexão sobre a colonização, a mesma colonização por trás desse traço autoritário do fascismo brasileiro, que segue usando a lógica do colonizador. Um Brasil que se acha descoberto por um outro país, mas que ainda não se descobriu a si mesmo.


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Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 49 anos, há seis em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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4 Comentários

  1. Ah, que bacana, Álvaro, você fez uma excelente matéria com um sábio que nos representa muito bem – Daniel Munduruku – realmente ele conhece muito do “nosso” Brasil – e muito mais sobre os povos originários. Como deve ter sentido, conversar com teu entrevistado é descortinando – ele sabe decifrar e tem percepções amplas e, também é deliciante ouvi-lo: suas narrativas são riquezas das nossas gentes aborígenes.
    Ah, antes de ler essa entrevista um misto de estranheza e reflexão me tomava, entretanto – Daniel é um sábio contador de histórias e seu olhar criticizante nos arremessa ao prazer de uma ancestral antropofagia e de certeiro relativismo cultural.
    Viva Daniel Munduruku! Viva os Povos Indígenas! Viva a Esperança no Brasil! Viva a Nova História Indígena!
    Xipat oboré, caro Álvaro, que na língua nativa do teu entrevistado quer dizer: “Tudo de bom”.

  2. ” Achamento” foi a palavra usada por Pero Vaz de Caminha, por isso não está errada em relação ao Brasil. Mas para a expansão marítima de uma maneira mais abrangente o melhor termo é ” Descobrimentos”. Que venha o museu para atrair mais, formação, informação, turismo e cultura.

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