Foto: Núcleo PT em Lisboa/Facebook

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Portugal não ficou de fora da “vaga vermelha” que varreu a Europa e deu a vitória na maioria dos países do continente ao candidato Lula da Silva (Partido dos Trabalhadores) na primeira volta das eleições presidenciais do Brasil.

Lisboa acompanhou outras capitais europeias como Amesterdão, Berlim, Bruxelas, Londres, Madrid, Paris e Roma e registou a votação acima dos 50% ao petista. Mas tem especial importância: em Lisboa, votaram 45 mil brasileiros, transformando a capital portuguesa na maior cidade com eleitores brasileiros fora do Brasil.

O ex-presidente Lula da Silva venceu na primeira volta das eleições presidenciais em Lisboa, com mais de 60 por cento dos votos.

Lula ainda venceu nas capitais de países europeus alinhados politicamente com o atual presidente do Brasil e adversário do trabalhista nas presidenciais, Jair Bolsonaro (Partido Liberal), somando 80 por cento dos votos em Budapeste, 68 por cento em Varsóvia e 53 por cento em Moscovo.

O resultado na capital portuguesa representa uma mudança radical em relação às últimas presidenciais, um verdadeira “virada de votos”.

Se em 2018 Bolsonaro angariou 64% dos votos em Lisboa, desta vez em 2022 o atual presidente ficou-se pelos 30%, contra 61% de Lula. O trabalhista também reverteu o cenário no Porto e em Faro, os outros locais de votação para os brasileiros em Portugal.

Mais do que uma prova da força do nome do ex-presidente Lula da Silva, os resultados demonstram uma mudança de “humor” dos imigrantes do Brasil.

Porquê?

A mudança do perfil dos brasileiros, cada vez mais estudantes, com um perfil mais politizado e ativista? Talvez. Some-se a isso o trabalho de organizações políticas e sociais formadas por brasileiros que residem no país, em ações de sensibilização para o estímulo ao voto dos imigrantes e, não só, mas ao voto em Lula.

Mudança de perfil na nova vaga migratória

Thaís França, socióloga e investigadora do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (CIES) do ISCTE, , explica que, apesar de historicamente as vagas migratórias do Brasil para Portugal serem motivadas por fatores diversos, como a falta de emprego e a violência urbana, a quarta vaga, a partir de 2016, começou a registar como uma das variáveis a insatisfação com o governo.

“Nos anos dos governos Lula e Dilma Roussef, apesar das sucessivas denúncias de corrução envolvendo o Partido dos Trabalhadores, não era comum ouvir em Portugal um brasileiro dizer que havia migrado por causa do petismo”, diz Thaís. “Esse discurso de desagrado com a situação política do país começou a ser ouvido a partir de 2016, com o golpe que tirou Dilma do poder e, depois, durante o bolsonarismo.”

A socióloga brasileira Thaís França: primeiros sinais de descontentamento com o bolsonarismo na quarta vaga migratória Foto: Rita Ansone.

A socióloga chama a atenção ainda para o aumento da atribuição dos vistos de estudante como acesso à residência regular em Portugal, em contrapartida aos perfis anteriores, maioritariamente composto por trabalhadores para a mão de obra.

Se em 2015, 756 brasileiros entraram em Portugal como estudantes, em 2018 esse número quase que triplicou, sendo atribuídos 4.427 vistos. Em 2020, em plena pandemia, foram atribuídos cerca de 5 mil vistos. Em 2021, estavam inscritos 18.144 brasileiros em universidades portuguesas.

“Nos últimos anos, as universidades portuguesas passaram a prestar mais atenção ao mercado brasileiro e destinar mais postos aos estudantes vindos do Brasil”, aponta Thaís. Um dos facilitadores é a possibilidade de os estudantes utilizarem o Enem, o Exame Nacional do Ensino Médio (o equivalente brasileiro aos Exames Nacionais), para concorrer a uma vaga em Portugal.

Uma imigração mais “politizada” em Lisboa

A Presidente da Casa do Brasil em Lisboa, Cyntia de Paula, reconhece que a ligeira mudança do perfil na última vaga de imigrantes, com brasileiros com maior possibilidade de reflexão crítica, pode ter influenciado no resultado das últimas eleições. Mas destaca também a chegada de brasileiros “mais politizados” a Portugal.

Cyntia de Paula, da Casa do Brasil em Lisboa: afluência maior de imigrantes brasileiros “politizados”. Foto: Rita Ansone.

“Aqui na Casa do Brasil sentimos a presença de uma população mais politizada neste momento. Muita gente que pertence aos movimentos antirracista, feminista, ecologista e à luta LGBTQIA+, ou seja, pessoas que ao chegarem a Lisboa já estava envolvidas em outras causas de direitos humanos, não necessariamente com atividades políticas”, diz.

Para Cyntia, esse fator não depende diretamente de uma qualificação superior. “Não é só isso. Há muita gente dos movimentos sociais que não tem necessariamente curso superior. Tem mais que ver com o nível de politização dessas pessoas e como a nossa imigração aumentou muito, também aumentou essa massa mais crítica”, continua.

A presidente da Casa do Brasil em Lisboa não descarta também a “péssima imagem” do governo Bolsonaro no exterior. “Não há como os brasileiros que vivem em Portugal ignorarem a gestão catastrófica, por exemplo, na questão da pandemia ou ainda com a própria figura do atual presidente e como ele lida com as coisas.”

Cyntia de Paula reforça ainda a atuação dos coletivos formados por brasileiros, não só em Lisboa e Portugal, mas em toda a Europa. “Houve um trabalho muito intenso para a transferência do título de eleitor e mobilização de voto no Lula”, diz.

Consciencialização do poder do voto

O principal desses coletivos em Portugal é o Núcleo do PT em Lisboa. Fundado em 1993, o núcleo, apesar de sediado na capital portuguesa, extrapolou as fronteiras para mobilizar a comunidade brasileira no Porto, em Aveiro e em Coimbra.

“Concentramos as atuações em encontros, debates, comícios, passeatas e distribuições de panfletos”, explica o atual coordenador do núcleo, Pedro Prola, 34 anos, um imigrante nascido no Paraná a viver em Lisboa desde os 9 anos de idade.

O Núcleo PT em Lisboa Foto: Facebook

Pedro conta que a mobilização para as eleições presidenciais começou ainda 2020, com ações que pediam o “Fora Bolsonaro”. Essas atividades serviram de amálgama para que outros 15 coletivos, associações e representações partidárias brasileiras em Portugal – como o Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e o Partido Socialismo e Liberdade (PSol) – se unissem ao movimento visando um melhor desempenho nas presidenciais em relação a 2018.

“Uma das ações-chave foi o estímulo à transferência do título de voto”, lembra Pedro. A principal dificuldade era alertar os imigrantes brasileiros para fazer a transferência do título de eleitor – obrigatório aos brasileiros para votarem – do Brasil para Portugal. E isso dentro do prazo, que se encerrou em 4 de maio, meses antes das eleições.

“Os brasileiros vão ganhando consciência da campanha em agosto ou setembro e quando decidem votar, já é tarde demais. Desta vez, conseguimos alertá-los a fazer a transferência dentro do prazo”, continua Pedro.

Coincidência ou não, o número de imigrantes aptos a votarem em Lisboa mais que duplicou em relação à última eleição, de 21 mil para 45 mil votantes – a maior fora do Brasil.

A campanha de sensibilização para a transferência do título de eleitor realizada pelo núcleo teve igualmente impacto no Porto, onde o número de eleitores também mais do que dobrou, alcançando os 30 mil votantes, levando Portugal do quarto posto em 2018 para o primeiro lugar como o país estrangeiro com mais brasileiros aptos a votarem: 80 mil no total.

Até a segunda volta das presidenciais, em 30 de outubro, as atividades do núcleo seguem intensas. O desafio é manter os números da primeira volta e ainda convencer os quase 60 por cento dos eleitores brasileiros que não foram às urnas em Lisboa a fazê-lo. “Numa eleição, todo voto é importante”, resume Pedro Prola.


Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 49 anos, há seis em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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