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Parece conversa de adultos isto de falar de bicicletas e das muitas ciclovias na cidade (as já feitas e aquelas por fazer), quando queremos debater o presente e futuro sustentável, com menos emissões, de Lisboa. Mas os mais pequenos só não estão na conversa porque não são chamados.

Também muitos deles recorrem a bicicletas no dia-a-dia, para ir para a escola ou para estar com amigos. Sabem, como os mais velhos, que aprender a pedalar não é o maior dos desafios, esse é pedalar nas ruas da cidade, competindo com o espaço público concebido para os carros. E, afinal, são eles os cidadãos de amanhã. Por isso, por que não começar a chamá-los à discussão?

Desta vez, são eles que estão sentados à mesa das negociações.

Há um projeto internacional que quer dar voz a crianças de várias cidades europeias e desafiá-las a pensar em melhorias para cidades mais cicláveis. No fundo, torná-los cidadãos ativos e participativos no lugar onde moram.

Chama-se “Bicycle Heroes” (Heróis de Bicicleta) e é organizado pela BYCS, uma ONG sediada em Amesterdão e que tem como lema “as bicicletas transformam cidades e as cidades transformam o mundo”. Esta iniciativa tem o apoio da União Europeia e da EIT (Instituto Europeu da Inovação e da Tecnologia), entidade que promove as questões de mobilidade na Europa.

Todos os anos, são eleitas cidades europeias para recolher ideias dos mais novos, trabalhar de perto com eles em determinadas propostas e criar uma espécie de conselho de crianças para a mobilidade suave.

Liliana Madureira, da APSI, é uma das coordenadoras da implementação do projeto internacional em Portugal. Foto: Rita Ansone

Este ano, Lisboa, Roma e Dublin foram os eleitos. Liliana Madureira, da Associação Para a Promoção da Segurança Infantil (APSI) – uma das promotoras em Portugal da ideia, com a cooperativa Bicicultura – crê que a escolha se deva a uma maior visibilidade de Portugal no panorama internacional em questões de mobilidade.

Este ano, o movimento Kidical Mass, que põe crianças a pedalar por ruas mais seguras e saudáveis, chegou finalmente a Lisboa. E o Governo trouxe ao programa curricular as bicicletas, com “Desporto Escolar sobre rodas”, iniciativa através do qual 259 escolas irão receber bicicletas para que estudantes do 2º ciclo aprendam a pedalar.

A pandemia também mudou hábitos: daqui, surgiram movimentos comunitários como o CicloExpresso, “mas também fez com que as pessoas vivessem mais a dita ‘cidade dos 15 minutos‘, que passeassem mais pelos bairros, a pé e de bicicleta, e ficassem mais conscientes da sua mobilidade”.

Depois, a eleição de Lisboa terá sido “reforçada pela presença da nossa bicycle mayor Ana Pereira junto destes parceiros internacionais”, diz Liliana.

Tudo contribuiu para ter os olhos do mundo em Lisboa.

Bicicletas: afinal, o que querem as crianças?

As crianças foram chamadas à mesa das negociações para o futuro da cidade. Foto: Rita Ansone

Têm a particularidade de já serem utilizadoras de bicicletas, mais ou menos frequentes. E partilham como morada as cidades de Lisboa ou da Amadora – concelho vizinho que as entidades promotoras do projeto em Portugal decidiram incluir, dadas as várias iniciativas comunitárias ativas de mobilidade infantil.

Na Amadora, procuraram uma escola de 1.º ciclo, com projeto ativo de mobilidade, a Escola Básica Maria Irene Lopes de Azevedo. Em Lisboa, foram ao espaço público: aproveitaram a Kidical Mass, já por si um encontro de crianças, para, no final, com lanche à mistura, fazer os pequenos preencherem formulários e até desenharem a cores a cidade ciclável que desejavam.

Ao todo, em Lisboa e na Amadora, estão a participar 60 a 80 crianças.

A maioria deles fala em mais e melhores ciclovias, “porque estão habituados à conversa dos adultos”, mas chegam a ser “mais criativos do que isso”:

“Ter desenhos numa ciclovia [com uma arte urbana implementada]”

“Fazer vídeos no YouTube a explicar aos amigos e aos adultos como é andar de bicicleta na cidade”

“Bicicletas especiais para a chuva, com chapéus de chuva”

“Estacionamento de bicicletas à porta da escola”

“É fundamental ouvir as crianças por uma questão de capacitação. Se se habituarem a olhar o espaço público de forma crítica, estamos a fazer com que queiram melhorar a cidade de amanhã. Não serão passivos”, lembra Liliana.

E podem até vir a ser os nossos presidentes de câmara.

Além disso, diz, “não estão tão condicionados quanto os adultos, habituados a ouvir falar destas questões, já cheios de preconceitos na cabeça”. Chegam com ideias tão simples que “nós nem pensamos nelas”.

A criação de um conselho nacional de miúdos – com ajuda de adultos

A metodologia da Bicycle Heroes assenta em três etapas, desenvolvidas ao longo do ano e ajustadas à realidade de cada país. Em Portugal, foi implementada assim:

  • Numa primeira fase, no passado mês de maio, ao mesmo tempo que se celebrava o Dia da Criança e o Dia Mundial do Brincar, mas também quando as escolas começavam a fechar o ano letivo, foi organizada uma “chuva de ideias”, nada mais nada menos que um brainstorming de propostas. Várias crianças tiveram possibilidade de dizer que mudança gostariam de ver no espaço público. Abriu-se um concurso online de ideias e fizeram-se sessões presenciais, em escolas e locais públicos da cidade, para conversar cara a cara com os pequenos criativos.
  • Na segunda fase, a decorrer desde setembro e até outubro, com o arranque do ano letivo e com a Semana Europeia da Mobilidade, a missão é dar visibilidade às ideias que chegaram. Aproveitou-se a celebração desta data europeia e as atividades a ela inerentes para fazer circular um expositor atrelado a uma bicicleta com algumas das ideias lançadas pelos mais novos – e um QR Code, caso as pessoas quisessem saber mais sobre estas propostas.
  • Numa terceira e última fase, a arrancar em novembro, deverá ser criado um conselho de crianças, do qual farão parte também adultos convidados (representantes do IMT, da Autoridade de Segurança Rodoviária, das Câmaras Municipais, da Direção Geral da Educação, e parceiros como Alfragide sobre Rodas, entre outros). Nas primeiras semanas de novembro, as crianças vão trilhar caminho juntas e sem os mais velhos ao barulho, para discutirem sobre as ideias que têm para a cidade. Tudo para que, no dia 20 de novembro, aquando da comemoração da Convenção internacional sobre os Direitos das Crianças, possam falar destas propostas aos mais velhos e, juntos, miúdos e graúdos, debaterem, numa mesa redonda.

“Este último momento servirá sobretudo para que percebam as limitações de cada lado, o que é possível ou não, o que é necessário ou não”, explica Liliana Madureira.

E depois do debate?

Depois, é o que cada cidade quiser fazer com ele. “Isto é apenas um catalisador: cada país pode deixar a ideia morrer aqui ou fazer acontecer o que quer que seja a partir daqui. Espero que em Lisboa isto se torne cíclico, para que se capacite mais a comunidade para estas questões. Esta ideia é importante, a de ter as crianças connosco – agora, é tentar que financeiramente se possa manter”.

Os municípios portugueses que lutam por ser “Cidade das Crianças”

Como tornamos uma cidade amigável das crianças? Criar zonas para brincarem e circularem em segurança, a pé ou de bicicleta, pode ser um primeiro passo, sim. Tirar os carros junto das escolas é outro. E já sabemos como os portões se tornam autênticos parques de estacionamento, de manhã, quando os pais levam as crianças às escolas.

Lisboa vai fazendo o seu caminho: tornou-se recentemente mais uma das cidades europeias a aderir ao projeto “rua de escolas” (ou “rue aux écoles”). É um conceito aliado à “cidade de 15 minutos” do cientista colombiano Carlos Moreno, assessor da Presidente de Câmara Anne Hidalgo.

A entrada de Lisboa neste projeto urbano internacionalizado de “rua de escolas” foi agora aprovado pela Assembleia Municipal de Lisboa, por recomendação dos deputados independentes dos Cidadãos por Lisboa, Miguel Graça e Daniela Serralha. Pedem nada mais nada menos que a Câmara Municipal de Lisboa analise a possibilidade da pedonalização de algumas ruas em redor de determinadas escolas.

E já há quem faça desta medida definitiva, na cidade.

O Jardim-Escola João de Deus dos Olivais, por exemplo, começou a fechar o espaço à volta deste estabelecimento de ensino todas as quartas-feiras, no ano passado, no âmbito da iniciativa municipal Mexe-te Pela Tua Cidade. Este ano, a rua fechou definitivamente.

Também o Agrupamento de Escolas D. Filipa de Lencastre, no bairro do Arco do Cego, se fez pioneiro na cidade, ao decidir fechar as ruas à volta da escola todas as terças-feiras.

Imagens de um protesto junto à EB1/JI Maria Barroso, na Baixa lisboeta, contra a falta de segurança na estrada. Foto: DR

Mas quando o assunto é mobilidade escolar e infantil, Paris e Barcelona tornaram-se recentemente dois dos mais inovadores casos internacionais. Na capital francesa, há já 168 ruas fechadas ao trânsito e transformadas em “rue aux écoles”, totalmente pedonais. Uma mudança que abrange 204 escolas, localizadas em 18 bairros da cidade de Paris. Na cidade catalã, são 88 as escolas a beneficiar de ruas pedonais, ainda que o município preveja chegar às 175 escolas até ao final deste ano.

Tudo desagua na ideia de cidades pensadas para as crianças. E, lá fora, o conceito não é novo.

Há décadas que Francesco Tonucci, um pedagogo italiano e autor do livro “A Cidade das Crianças” – “La Città dei Bambini” -, defende que construir uma pode mesmo ser uma utopia, mas que há caminho para o alcançar e deve ser percorrido. A ideia corre mundo, partiu de Roma e gerou uma rede de centenas de cidades interessadas em aderir aos ideais de uma cidade pensada para as suas crianças.

Mas, no ano passado, Valongo, um município do distrito do Porto, sagrou-se o primeiro município português a oficializar a entrada nesta rede que visa envolver os mais pequenos nas decisões sobre o território.

A experiência chamou-se “Valongo 4.0” e tinha previsão de arranque em setembro do ano passado, com a criação de um Conselho da Criança, para o qual são sorteadas crianças com nove ou dez anos, residentes no concelho, que irão debater sobre uma revisão do Plano Diretor Municipal. Aquilo a que o presidente da Câmara Municipal de Valongo chamou de “laboratório comunitário”.

José Manuel Ribeiro dizia, na altura, que ainda não estavam definidas verbas para a iniciativa, à espera do que surgisse desta discussão entre crianças. Mas assumia que o caminho deveria passar por aquilo que Lisboa já experimenta a um nível micro e isolado, com a Brincapé: fechar ruas para as devolver às crianças.

O projeto Brincapé tem fechado ruas da cidade para que, por umas horas, sejam o espaço de brincadeira das crianças. Foto: Rita Ansone

Mais abaixo no mapa, Coimbra alberga também uma metodologia para incluir mais as crianças na cidade e trazê-las para o ar livre. Chama-se “Limites Invisíveis”, tem lugar na Mata do Choupal e é um projeto que pretende fomentar o contacto com a natureza, faça sol ou chuva – como nos países nórdicos.

Em operação desde 2015, trabalham com crianças dos três aos dez anos, para lhes proporcionar um bem-estar imediato e a longo prazo, com benefícios acreditados nas suas capacidade sociais, emocionais, cognitivas e motoras.


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Catarina Reis

Nascida no Porto há 26 anos, foi adotada por Lisboa para estagiar no jornal Público. Um ano depois, entrou na redação do Diário de Notícias, onde aprendeu quase tudo o que sabe hoje sobre este trabalho de trincheira e o país que a levou à batalha. Lá, escreveu sobretudo na área da Educação, na qual encheu o papel e o site de notícias todos os dias. No DN, investigou sobre o antigo Casal Ventoso e valeu-lhe o Prémio Direitos Humanos & Integração da UNESCO, em 2020.

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