Os pais e as crianças são vértices fundamentais nesta equação e por isso há que perceber o porquê de hoje as crianças ainda se deslocarem tanto de carro. Foto: Rita Ansone

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Todos os dias, logo pela manhã, são muitos os carros que circulam pelas ruas de Lisboa, transportando no banco de trás crianças ensonadas. Muitos seguirão uns atrás dos outros, todos com o mesmo destino: a escola. Esta é a realidade de uma Lisboa em que a maioria das crianças continua a chegar de carro à escola que é já bem conhecida e que é comprovada pelos resultados do inquérito de 2021 Mãos ao Ar Lisboa! (MAA), promovido pela Câmara Municipal de Lisboa (CML).

Esse é mesmo um dos grandes motivos para a utilização dos carros na cidade.

48,2% dos 38.078 inquiridos chegam à escola de automóvel, segundo o estudo da CML aos alunos do 1º ao 12º ano de 179 escolas.

Em fevereiro, a CML aprovou uma proposta do PCP para a criação pela Carris de um serviço de transporte escolar gratuito, com o arranque de um projeto-piloto em setembro que englobasse pelo menos dois agrupamentos escolares.

Nessa altura, a Direção Municipal de Mobilidade e a Carris comprometeram-se a estudar a possibilidade deste serviço que tanto poderia dispor de “recursos dedicados” como da integração “dos recursos existentes da Carris”, pensando-se ainda na criação de circuitos para crianças com necessidades especiais, como explica João Ferreira, vereador do PCP.

O estudo devia contemplar quais os meios financeiros, materiais e humanos para assegurar este serviço, estabelecendo uma interação mais estreita com os agrupamentos escolares incluídos no projeto-piloto. Para além destas dimensões, previa-se ainda a criação de sinergias com outros serviços de proximidade, permitindo-se assim o transporte de pessoas idosas para serviços públicos mais significativos.

O objetivo é, claro, reduzir a presença do automóvel nas ruas e prestar apoio às famílias, rumo a uma cidade mais verde e sustentável. Mas será que a criação deste sistema pode realmente dissuadir o uso do automóvel por parte dos pais das crianças?

A solução do transporte escolar tem de ser multimodal e trabalhada com os pais. Foto: Ana Sofia Serra/ CML

Para Filipe Moura, professor de Sistemas de Transportes no departamento de Engenharia Civil e Arquitetura do Instituto Superior Técnico (IST), tudo depende da forma como for implementada. Na sua opinião, a solução passa por aumentar a cobertura da Carris e adaptar as carreiras já existentes, aproveitando os autocarros que têm uma taxa de ocupação mais baixa – o que, para já, é o caminho apontado.

Mas há que envolver os pais e as crianças no desenho das soluções.

Porquê o carro?

Afinal, os pais e as crianças são vértices fundamentais nesta equação e por isso há que perceber o porquê de hoje as crianças ainda se deslocarem tanto de carro. Na hora de se escolher o transporte para a escola, aquilo que mais parece pesar é, nos casos em que as crianças estão próximas de casa, a insegurança de deixar o filho ir sozinho para a escola.

Sandra Nascimento recorda o projeto SigAPÉ, que demonstrou que a distância pesa no recurso ao automóvel.

“É um medo lícito”, diz Sandra Nascimento, presidente da APSI (Associação para a Promoção da Segurança Infantil). “Mas torna-se uma pescadinha de rabo na boca: porque tenho medo que o meu filho vá sozinho para a escola, levo o automóvel que cria o ambiente de insegurança”.

Por outro lado, há a questão da distância quando as crianças vivem mais longe, o que se torna ainda mais evidente quando comparados os números do uso do automóvel pelos alunos das escolas públicas com os das privadas.

Nas escolas privadas (que geralmente não são escolhidas pela proximidade, para além de que os pais que as escolhem têm também mais facilmente acesso ao carro), 78,9% dos alunos desloca-se de carro para a escola. Nas públicas, o número é de 34,5% (pesa, no entanto, terem participado no inquérito 123 escolas públicas e 56 privadas).

Sandra Nascimento recorda o projeto SigAPÉ, trabalho de identificação dos principais obstáculos à mobilidade autónoma e segura nos percursos escolares que decorreu durante o ano letivo 2017/2018. Com este estudo, percebeu-se que a questão da distância é relevante também para as escolas públicas.

Nas quatro escolas que participaram no projeto (EB1 de Santa Clara, EB1 do Castelo, EB1 Arquitecto Victor Palla. A Voz do Operário e EB 2,3 Nuno Gonçalves), a maioria dos alunos deslocava-se a pé, menos na Voz do Operário, onde 82% dos alunos chegava à escola de automóvel.

Porquê? A distância. Nas escolas analisadas, a maioria dos alunos vivia entre dez a 15 minutos da escola enquanto na Voz do Operário a maioria dos alunos vivia a 20 minutos ou mais a pé.

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O cenário em frente à Escola Básica Integrada Parque das Nações, em 2014. Vídeo: Gonçalo Peres

Porque não os transportes públicos?

Mas porque é que estas crianças não recorrem ao transporte público? Há várias questões, entre elas a autonomia. “A partir dos 12 anos, as crianças costumam ser autónomas, mas varia muito de criança para criança e depende também dos pais”, explica Filipe Moura. Ou a segurança: afinal, os autocarros convencionais não estão adaptados às crianças mais novas.

Há uma outra razão, que foi apurada em 2020 por Filipe Moura, Mariza Motta Queiroz e Carlos Roque com o estudo Shifting from Private to Public Transport using Duration-Based Modeling of a School-Based Intervention: falta comunicação entre os pais e as operadoras de serviços de transporte público.

Com o seu trabalho de investigação, Filipe Moura percebeu que é necessário estabelecer diálogo entre as famílias, as crianças, a escola e as operadoras de serviços de transporte público.

“Percebemos que os pais nem sequer sabiam que havia autocarros perto da escola e que os operadores públicos não sabiam quais as preocupações dos pais”, diz Filipe Moura. “Se temos este sistema quebrado, como podem ir as crianças de autocarro?”.

Esta falta de comunicação explica o porquê de a percentagem de alunos que usa os transportes públicos ser tão baixa – uma questão que os passes gratuitos para jovens, proposta aprovada pela Câmara Municipal de Lisboa, não resolve.

É por isso que o investigador acredita que, para o transporte escolar funcionar, os pais e as crianças têm de participar neste processo de estudo. “Podem ser autocarros com cor, com bandas desenhadas”, diz. “Adaptem, envolvam as crianças!”.

Esta adaptação terá de pressupor, claro, mais segurança: “O transporte escolar vai implicar que todos estejam sentados com cinto de segurança, e no caso das pequeninas, com sistema de retenção”, comenta Sandra Nascimento. Filipe Moura fala mesmo na hipótese de estar presente nestes autocarros “um agente conciliar, um cuidador”.

O transporte escolar, parte de uma solução “integrada e multimodal”

Sandra Nascimento acredita que o transporte escolar é um passo positivo. Mas é um passo que faz parte de um caminho bem mais complexo: o da alteração da mobilidade escolar. Para além da implementação do transporte escolar, é preciso incentivar o andar a pé ou de bicicleta.

Uma alteração da mobilidade escolar é necessária não só por questões ambientais, mas também pela saúde física e mental das crianças. Foto: Unsplash

É por isso mesmo que Sandra Nascimento defende que o transporte escolar tem de fazer parte de uma solução “multimodal e integrada”. “Nas zonas históricas em que as ruas são estreitas e há declives, pode haver soluções conjugadas com o transporte escolar, como os autocarros humanos, os comboios a pé e de bicicleta”, propõe a presidente da APSI.

Esta alteração da mobilidade escolar é necessária não só por questões ambientais, mas também pela saúde física e mental das crianças. Para a presidente da APSI, é fundamental que as crianças possam parar no caminho para a escola para brincar e para socializar. “As crianças, quando vão de carro, não veem as coisas da mesma maneira”, diz. “A mobilidade permite criar oportunidades de socialização”.

O que pode muito bem acontecer com as idas num autocarro escolar para aqueles que vivem longe e não podem deslocar-se a pé. Uma viagem de transportes públicos é também uma boa desculpa para o convívio. Afinal, quantas amizades não poderão nascer nos bancos de um autocarro?


Ana da Cunha

Nasceu no Porto, há 26 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.

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5 Comentários

  1. Parabéns pelo excelente artigo.

    Onde se escreve “por que” em “Por que não os transportes públicos?” e “Mas por que é que estas crianças não recorrem ao transporte público?”, creio que se devia escrever “porque”.

  2. Vocês enviam o vosso jornal para os jornais locais de outras cidades? Na minha opinião, seria muito útil e poderiam estimular uma partilha de noticias sobre questões de interesse comum, como esta é! Bem hajam.

  3. Olá Artur. O nosso jornal é digital, está acessível em todos os lugares. E também é aberto, sem pagamentos ou assinaturas. Apenas, quem gosta do nosso trabalho, pode sempre contribuir. Obrigada pelo elogio, e por nos divulgar!

  4. Não tendo por hábito entrar neste tipo de debates e desde já pedindo desculpa pelo texto longo gostaria de deixar uma sugestão à redação da Mensagem, que é de perceber até que ponto as regras de distribuição das crianças pelas escolas não são, pelo menos ao nível do ensino pré-escolar uma das causas do problema.
    Deixo o meu exemplo, tenho dois filhos de 4 e 2 anos, o primeiro numa creche particular e a mais velha num jardim de Infância Público.
    Vivo no Bairro de Caselas na freguesia de Belém e por isso a creche onde o meu filho anda, o Colégio Helen Keller, será das mais perto de casa, a cerca de 20 minutos a pé partindo do princípio que levo o meu filho ao colo ou às cavalitas. Existe um autocarro (carreira de bairro) o 79-B que vai direto à creche mas passa apenas de 30 em 30 minutos pelo que é uma opção não utilizável já que perda do mesmo implica ir buscar o carro para o levar.
    A minha filha mais velha, apesar da existência de um Jardim de Infância público em Caselas apenas teve colocação no Jardim de Infância de Belém junto aos Jerónimos. É viável levá-la à escola de autocarro (depos de deixxar o mais novo na sua escola de carro), tenho a opção de usar as carreiras 714 ou 727 com um transbordo junto à ES Restelo. Em ambas as opções as paragens ficam ainda a cerca de 5 minutos a pé da escola. Resumindo, se usasse transportes públicos para os ir pôr ambos à escola, mesmo que seguisse de Belém para o meu trabalho no Saldanha demoraria cerca de uma hora no cenário de não perder nenhum autocarro e isto só para deixar os meus filhos na escola faltando ainda os 40m de transporte para o trabalho. As creches/JI abrem às 08:00, começo ao trabalhar às 09:00 como resolver esta situação sem carro? naturalmente o transporte escolar cobrindo toda o agrupamento seria uma solução excelente em espacial numa freguesia como Belém em que vivo numa ponta da mesma e tenho uma filha a estudar na outra ponta da freguesia. Entregando as crianças em Caselas pelas 08:00 poderia chegar ao trabalho a tempo com menos stress para todos e menor consumo de combustível.
    Mas importa perceber que, pelo menos em relação à minha filha mais velha, poderia deixá-la na escola a pé se houvesse vaga junto ao casa e não há porque as regras do ME ao beneficiarem as crianças mais velha na colocação desprezando a morada e desse modo criando este enorme absurdo de uma criança que vive num bairro com escola não a poder frequentar sendo obrigada a deslocar-se para outra a 3 cerca de 3kms. de distância.
    O mais curioso? antes de ter filhos sempre me desloquei de autocarro para o trabalho, desde que frequentam a escola sou obrigado a ir levá-los de carro por falta de opção e como demora cerca de meia hora neste percurso tenho de ir para o trabalho de carro, opção que detesto mas a única que tenho para poder chegar ao trabalho a uma hora aceitável (mas nunca antes das 09:15).
    Em suma, quanto mais novas as crianças mais o transporte de carro é uma necessidade só havendo duas formas de combater este problema: dar mais importância à morada no acesso ao pré-escolar e numa futura rede de creches públicas ou existir transporte escolar que recolha as crianças em pontos-chave dos bairros onde residem passando o ónus do transporte e do tempo associado para a escola/autarquia. Isto sim seria serviço público.
    Fora destes cenários os seres humanos tenderão ao tomar as opções que lhes sejam mais práticas e confortáveis e assim o carro será difícil de bater por bicicletas ou carreiras padrão da carris.
    Deixo apenas uma nota final e que nada tem a ver com consumo de combustível ou poluíção… uma pessoa na minha situação sem carro oe com trabalho a começar às 09:00 como resolverá este problema? e ao contrário do que se possa pensar o bairro de Caselas tem muitas pessoas pobres que necessiteriam muito de uma ajuda deste tipo.

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