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2001, 13 de maio. Enquanto, em Portugal, rezavam a Nossa Senhora de Fátima, eu encontrava-me em Milão finalmente a tomar uma decisão drástica: eleições legislativas a decorrer, Berlusconi a ganhar, já não dá para viver neste país.

Há muitos anos que a vida milanesa tinha deixado de me satisfazer. Aquela cidade cinzenta, underground, aniquilada pela direita da Lega Nord. Precisava de novos estímulos e, numas férias em Lisboa, entre umas rodas de capoeira e pastéis de Belém, fui fazer uma entrevista: na Zona J, a trabalhar com os jovens do bairro? Porque não?

Volto para Milão, aviso lá no trabalho que não iria continuar no centro de jovens e, no dia 20 de setembro de 2001, estou pronto para a maior aventura da minha vida – até à altura.

A 1 de outubro, iria começar a trabalhar em Chelas.

Carreguei todos os meus “bens” no carro do meu colega “Espinho”, que (sorte a minha!) ia para Lisboa para fazer Erasmus: “’Bora, Eupremio. Dou-te boleia de carro até Lisboa!” Partimos às 11 horas da manhã de Milão, no dia 20 de setembro e sem pressa: Ligúria, Costa Azul, França, Barcelona, Madrid, Badajoz, Évora – dois dias de grandes conversas, maços e maços de cigarros, só rockalhada na aparelhagem que acompanhava a nossa aproximação à terra lusitana e à sua capital. Dia 22 de setembro, à tarde, finalmente chegamos.

Passamos a ponte 25 de Abril (uau! Parece San Francisco!) e… stop!

Esta era a área com restrições à circulação automóvel em 2001.

Dia Europeu Sem Carros. Não se pode entrar em Lisboa – pelo menos de Alcântara para o centro. E agora?

Sem conhecer nada das estradas, perdemo-nos em Monsanto, onde desesperados por não encontrar ninguém, cruzámo-nos com uma mulher, loira, de aparência nórdica (Austríaca? Alemã? Não me lembro). Explica-nos que não se pode entrar em Lisboa de carro até àquela noite e aconselha-nos a deixar o carro em Alcântara e depois irmos a pé (ou de táxi) até onde tínhamos o nosso ponto de dormida, Picoas.

A ideia parecia boa, mas onde em Alcântara? “Não conhecemos nada daqui”. A rapariga logo acalmou os ânimos: o seu namorado (um gigante de quase dois metros) era segurança de uma discoteca e poderíamos deixar o carro lá em frente.

Estaríamos em boas mãos com a discoteca Luanda, pensamos. Mesmo sendo um beco mal cheiroso e, soube depois, abalado pela grande tragédia do incêndio de poucos meses antes. “Não deixo o meu carro aqui com tudo cá dentro.” O meu PC, o meu berimbau, os meus CD’s.

Mas deixámo-nos convencer, estacionámos o carro lá e eu… bem, segui caminho com o PC, o berimbau e os CD’s nos braços. Estava pesado! Viva o Dia Europeu Sem Carros? Sempre fui um apoiante de causas “verdes” – mesmo naquele maldito 22 de setembro de 2001.

Já passaram mais de 20 anos. Podemos realmente fazer menos sobre quatro rodas – a última das minhas opções, hoje em dia. Lisboa já não é a mesma desde que cheguei, já muito mudou para que se tornasse mais verde. E a próxima vez que mudar de país já tenho menos tralha comigo – talvez a bicicleta chegue.

Dia Europeu Sem Carros, integrado na Semana Europeia da Mobilidade, é celebrado anualmente a 22 de setembro, em várias cidades europeias. A ideia é sensibilizar a população e as autoridades para a necessidade de reduzir o tráfego automóvel, para tornar os territórios mais sustentáveis.

*Eupremio Scarpa tem 53 anos, nasceu em Milão, onde se formou como mediador comunitário – além de Itália, passou pela Índia, pelo Haiti, pela Guiné-Bissau e pelo Brasil. Chegou a Lisboa em 2001, para assumir o mesmo papel nos bairros sociais da capital, onde vive até hoje. Entretanto, ajudou a fundar o mais recente clube lisboeta, através da Associação Desportiva Recreativa Relâmpago, uma provocação para reacender a presença social dos clubes da cidade.

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