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Se há coisa que estragou decididamente muitas ruas de Lisboa (sem contar com as marquises, evidentemente, que mancharam a reputação a dezenas de arquitectos) foi a desfaçatez com que se deixou construir a eito, com cores, formas e materiais de todas as nações, sem olhar ao que existia antes e procurar um mínimo de harmonia.

Na Avenida Fontes Pereira de Melo, por exemplo, existem hoje arranha-céus dourados e prédios de metal e vidro a imitar harmónios a escassos metros de palacetes clássicos, casas com janelas de cantaria, torres e fachadas românticas.

Ainda assim, até pela sua incrível extensão, nada é mais tutti-fruti em termos arquitectónicos do que a velha Almirante Reis, onde, num passeio de olhos bem abertos, podemos encontrar obras-primas modernistas e magníficos frisos de azulejos entre quadrados de betão ou caixilhos de alumínio que não lembram ao diabo.

Mas nem sempre foi assim e, acreditem ou não, pelos vistos já foi chique morar na avenida que é hoje uma das mais feias de Lisboa; quem o conta é a minha mãe, a quem um vizinho novo-rico, o João Miguel, gabava o segundo andar novinho em folha que a irmã lá comprara nos anos cinquenta e que tinha duas casas de banho com banheira, uma novidade para a época!

O João Miguel fora ver o apartamento da irmã ainda sem mobília – e, talvez por isso, o pormenor que lhe ficara gravado na memória – e que gostava de alardear sem saber a figura triste que fazia – eram as torneiras douradas que decoravam os lavatórios.

Uns dias depois de a irmã se mudar, caminhando o nosso João Miguel por mero acaso nas imediações, foi inesperadamente acometido por uma violenta cólica intestinal e rezou a todos os santinhos para que a irmã se encontrasse em casa e o poupasse ao buraco negro de alguma taberna ou ao vexame das calças borradas em plena avenida.

Chegou ao moderníssimo prédio, tocou à campainha e, por milagre, a porta abriu-se quase instantaneamente. Subiu abraçado à barriga e de nádegas muito apertadinhas os três lanços de escada e, encontrando a porta do apartamento aberta, empurrou-a com o pé e seguiu corredor fora sem chegar a cumprimentar a irmã, indo sentar-se, ofegante e com o suor a escorrer-lhe das têmporas, na retrete novinha em folha. Nem acreditava que conseguira chegar a tempo…

Foi só depois de ter largado o presente na porcelana branquíssima da sanita e levado a mão ao manípulo para puxar o autoclismo que respirou de alívio e procurou à esquerda e à direita o rolo de papel higiénico; mas, surpresa das surpresas, para onde quer que olhasse, não havia uma única torneira dourada…

Com a aflição, o João Miguel nem tinha fechado a porta da casa de banho – e agora, do outro lado, francamente intrigado com aquela visita intempestiva, esperava-o um casal desconhecido; o marido até já tinha o nariz lá dentro (e o cheiro que pairava no ar não era propriamente a perfume) e uma carranca e pêras…

Afinal, o cagão do João Miguel não passara do primeiro andar…

Casas pardas? Decididamente.


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Maria do Rosário Pedreira

Nasceu em Lisboa e nunca pensou viver noutra cidade. É editora, tendo-se especializado na descoberta de novos autores portugueses. Escreve poesia, ficção, crónica e literatura infanto-juvenil, estando traduzida em várias línguas. Tem um blogue sobre livros e edição e é letrista de fado.

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