Há prédios em Lisboa onde subir é um acto físico e descer uma mera decisão filosófica. O meu é um deles.
Pagamos renda como quem compra bilhete para um festival de filmes europeus premiados (lentos, exigentes e desconfortáveis), mas o que nos sai na rifa é uma espécie de documentário soviético sobre a falência da mecânica vertical. Chama-se a isto viver numa capital em crescimento desenfreado, fruto do progresso imobiliário virtual. Crescimento, note-se, para cima, mesmo que sem garantias de lá chegar.
Os elevadores do meu prédio, sito na sempre resiliente Avenida Almirante Reis, não estão avariados. Estão mortos. Tal e qual como os contactos com a empresa responsável. E como todos os mortos em Lisboa, continuam oficialmente com esperança de se manterem vivos nos papéis.
Há mais de um ano (ou dois, ou três, depende da memória e da fé de cada um dos meus vizinhos) que não funcionam. Tornaram-se figuras mitológicas, como o rei D. Sebastião, continuamos à espera que surja entre as brumas da memória. Reza a lenda que um deles ainda chegou a trabalhar, numa tarde de primavera, até os passarinhos da Almirante chilrearam, mas ninguém está vivo para o provar.
Entretanto, desenvolvemos todos uma excelente relação funcional com as escadas. Amigas íntimas, decisivas, sempre disponíveis para acolher os miúdos às cavalitas, os sacos de compras, a botija de oxigénio da vizinha de cima. Não falham. Não pedem manutenção. Não têm contrato com a Schindler.
A Schindler, para quem não conhece, é essa entidade abstrata que gere elevadores como quem gere destinos. Imagino que tenha uma lista (negra). Não uma lista qualquer, mas uma lista moral, quase bíblica. De um lado, os que sobem. Do outro, os que sobem… a pé.
Nós, aparentemente, estamos na segunda coluna. É um azar, mas quem disse que esta cidade maravilhosa se tornaria justa? Antes pelo contrário.
Houve um tempo em que ainda houve esperança. O monta-cargas funcionava como um primo menos nobre, mas eficaz. Até ao dia em que decidiu também abandonar o serviço público, levando consigo um cãozinho chamado Scott, que fez do elevador a sua última viagem. A sua e a nossa.
A tragédia, em Lisboa, tem sempre uma dimensão doméstica. Não é a queda do império, é o elevador que não chega. Não é a guerra, é o segundo andar com sacos de compras.
Depois disso, o edifício entrou numa espécie de estado de exceção. Bombeiros, Proteção Civil, Câmara Municipal, uma romaria institucional para confirmar o óbvio: aquilo não funciona. Ficou interdito. Como se já não estivesse.
Mas interditar, em Lisboa, é a forma mais elegante de abandonar. De esquecer. Passaram dias, semanas, meses, anos.
Continuamos a pagar. Isso nunca se poderá interromper. A renda subirá sempre (com ou sem elevador) na nossa cidade. Este seja talvez o único mecanismo verdadeiramente eficiente da nossa cidade. O aumento dos preços tão automático e eficiente.
Não há bons nem maus nesta história do elevador, dirão os mais generosos. Eu discordo. Há, pelo menos, uma dicotomia: vivemos numa cidade que se vende como destino de excelência, enquanto os seus habitantes treinam para o alpinismo urbano.
A Schindler, imagino, continua tranquilamente a gerir a sua lista. Talvez haja critérios. Talvez seja por ordem alfabética, rendimento mensal ou capacidade pulmonar.
Ou talvez seja mais simples: há prédios em certas zonas que merecem subir e outros que foram discretamente condenados a ficar pelo caminho.
No fundo, Lisboa sempre foi assim. Uma cidade onde nem todos chegam ao mesmo andar, mesmo quando vivem no mesmo prédio.

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