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Nova Iorque tem estado a fazer uma subreptícia mudança: a limitar os carros e a sua importância na vida da cidade. Aconteceu durante a pandemia. Foram dedicadas ruas a peões e as esplanadas espalharam-se pela cidade. Estas semanas de agosto continua a Summer Street – o fecho de ruas da cidade aos carros durante o fim de semana, privilegiando mercados, bicicletas, corridas e, sobretudo, espaço para todos. E agora a Câmara da metrópole dos carros e avenidas largas anunciou que vai passar a taxar a circulação em determinadas áreas da cidade.

Isto enquanto em Lisboa a criação de uma ZER (Zona de Emissões Reduzidas) na baixa da cidade continua em discussão – tendo sido atrasada sine die.

As taxas (ou portagens) são uma solução que já existe em Singapura desde 1975, foi adotada em Londres, onde este ano se anunciou a expansão da Zona de Emissões Ultra Reduzidas a toda a área da capital inglesa, estando os veículos que não cumpram os critérios para a circulação sujeitos ao pagamento de uma taxa de 12,50 libras diárias. E também funciona em Oslo, Bergen e Estocolmo.

Desta vez, é Nova Iorque que quer dar um passo em frente. Afinal, esta é a cidade onde os condutores perdem todos os anos 102 horas ao volante e onde, em média, 7,7 milhões pessoas entram e saem todos os dias – pelo menos em Manhattan CBD (a zona sul do centro da cidade, abaixo do Central Park, onde se concentram os bens e serviços). E embora a maioria ainda recorra aos transportes públicos (75%), 24% continua a usar o carro.

Nos últimos anos, vários programas tentaram melhorar a mobilidade na zona central de Manhattan: descontos nos transportes públicos para os mais velhos, os mais novos e para os portadores de deficiência, reduções nos impostos para os trabalhadores de algumas empresas, criação de ciclovias, de faixas para autocarros e de áreas pedonais.

Mas nada disto impediu o congestionamento. Agora vem a taxa para os condutores que circulam na zona central da cidade. A ideia é investir mais mil milhões de dólares no sistema de transportes públicos (um setor onde se prevê um défice de de 2,5 mil milhões de dólares em 2025.).

7,7 milhões pessoas entram e saem todos os dias do centro de Manhattan (Central Business District) e embora a maioria recorra aos transportes públicos (75%), 24% ainda usa o automóvel. Foto: Unsplash/Tetiana Shyshkina.

Taxas de 23 dólares em horas de ponta

O estudo sobre os impactos da medida chegou a possíveis cenários para a aplicação das portagens, que vão variar de acordo com o tipo de veículo a entrar na cidade e a hora em que circulam. Os portadores do Ez-Pass (Via Verde americana) poderão pagar 23 dólares nas horas de ponta. A Taxa pode ser superior para veículos maiores que não circulem com E-ZPass: numa das propostas, os camiões pagariam mais de 100 dólares.

No entanto, há ajudas para pessoas com rendimentos mais baixos que vivam na área de congestão: caso tenham um vencimento inferior a 60 mil dólares por ano, há a possibilidade da obtenção de um crédito para compensar o custo destas taxas.

Há isenções: veículos de emergência ou carros que viajam com portadores de deficiência não terão de pagar. As portagens serão também diferentes para camiões de entrega e discute-se a hipótese de os veículos não comerciais não serem taxados mais do que uma vez por dia. A taxa pode ainda não ser aplicada a veículos que já pagaram portagens em túneis e pontes – e são vários uma vez que Manhattan é uma ilha.

Para já, ainda está em debate se táxis, carrinhas e autocarros estarão isentos ou não.

A zona onde se propõe aplicar uma taxa de circulação. Fonte: CBD Tolling Environmental Program Assessment

Os especialistas acreditam que, além de uma cidade menos poluída e com melhor qualidade do ar, esta é uma forma de lutar pela equidade social, ao taxar-se aqueles que podem em teoria pagar, pois recorrem ao automóvel.

É que, neste momento, os transportes em Nova Iorque precisam de espaço, por causa do congestionamento, são lentos e pouco fiáveis em termos de horários. Este projeto quer mudar o paradigma, contribuindo para a sustentabilidade ambiental e para a construção de um sistema de trânsito para todos os nova-iorquinos.

Entre os dias 25 e 31 de agosto, os nova-iorquinos serão ouvidos sobre esta medida, e, assim que os líderes com responsabilidades na matéria, que neste caso reúne autoridades federais, estatais e locais, chegarem a um consenso, a aprovação virá da Metropolitan Transportation Authority. Espera-se a implementação em janeiro de 2023 – e o funcinamento no final do ano.

Reduzir o caos no tráfego é uma luta da cidade que chega na mesma altura em que o presidente Joe Biden anunciou um grande plano para o clima com um investimento de 370 mil milhões de dólares e que acompanha a luta contra a crise: crédito fiscal para que todos os cidadãos norte-americanos comprem carros elétricos, financiamento em 30% na instalação de painéis solares nos telhados das casas, a redução da vulnerabilidade das florestas e o apoio à transição energética das indústrias poluentes.


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Ana da Cunha

Nasceu no Porto, há 25 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.

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