Acredito verdadeiramente que a participação se pode traduzir em influência real. De várias formas, o facto de eu estar hoje aqui é prova disso.

Mas apenas quando a participação é mais do que simbólica. Muitas vezes, os jovens são convidados para estas salas para serem ouvidos, mas não se confia neles para moldar resultados. A participação real exige poder, recursos e acompanhamento.

Na Amnistia Internacional, graças à Global Children and Youth strategy, co-liderada por jovens, estamos ativamente a caminhar rumo à capacitação juvenil. Atualmente, pelo menos 1/3 dos delegados da nossa assembleia global têm de ter menos de 25 anos, e isso é importante, porque a participação significa, em última análise, dar espaço para que os jovens influenciem as prioridades.

Ao mesmo tempo, temos de ser honestos: a participação não é automaticamente inclusiva. Se estes espaços permanecerem acessíveis apenas às pessoas do costume e não forem interseccionais, então limitam-se a reproduzir a desigualdade com uma linguagem melhorada.

Portanto, sim, a participação pode levar à influência. Mas apenas quando as instituições pararem de tratar os jovens como decoração e passarem a tratar-nos como atores políticos capazes de moldar decisões.

Rodrigo Cardoso discursou no encontro anual das Nações Unidas dedicado à juventude, onde jovens, ministros com pasta da juventude e decisores de todo o mundo se reúnem para discutir o progresso dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e a Agenda 2030. Foto: UN Youth Office/Joel Sheakoski

Eu venho da Buraca, um bairro marginalizado em Portugal, e hoje estou a falar nas Nações Unidas e a aconselhar altos funcionários. Esse contraste diz muito.

Fui criado por uma mãe solteira numa família migrante de baixos rendimentos e sou um estudante universitário de primeira geração. Não havia um roteiro na minha vida para espaços como este. E isso tem um custo.

Para muitos de nós, especialmente os que vêm de contextos de classe trabalhadora, migrantes, racializados, queer ou de outra forma excluídos, entrar em espaços institucionais significa ajustarmo-nos constantemente. Pensamos na forma como falamos, como nos vestimos, se parecemos suficientemente polidos, credíveis, institucionais. Nós não entramos apenas na sala. Nós traduzimo-nos a nós próprios.

E depois há o custo material. A participação é frequentemente celebrada em teoria, mas não é apoiada na prática. O tempo custa dinheiro. Viajar custa dinheiro. A roupa formal custa dinheiro. As oportunidades não remuneradas custam dinheiro. Até o parecer suficientemente “profissional” depende, muitas vezes, de padrões construídos em torno do privilégio.

Por isso, a exclusão nem sempre é uma porta fechada. Muitas vezes, é uma porta aberta que continua a ser demasiado cara para alcançar e atravessar.

É por isso que, quando falamos de participação juvenil, temos de perguntar: participação para quem, e a que custo? Porque se a participação depender da exaustão, do sacrifício e da resiliência não remunerada, então não é verdadeiramente inclusiva.

É também por isso que os movimentos de base e liderados por jovens importam tanto. Eles lembram-nos que a legitimidade não existe apenas dentro das instituições. Quando os espaços formais permanecem inacessíveis ou simbólicos, os jovens continuarão a organizar-se noutro lugar, a construir poder noutro lugar, e com toda a razão.

Portanto, a qualquer pessoa aqui presente que se sinta como um estranho, quero dizer isto: não te diminuas para caberes na sala. E, assim que entrares, não feches a porta a outros.

E aos decisores políticos e ministros nesta sala: se acreditam verdadeiramente em não deixar ninguém para trás, então não se limitem a convidar os jovens. Sejam intencionais sobre quem está na sala, que realidades estão representadas e quem ainda falta. Confiem em nós. Deem-nos recursos. Porque a verdadeira medida da inclusão não é quantos jovens excecionais conseguem singrar, mas sim se o próximo chegará com um pouco menos de luta e um pouco mais de certeza de que aquele é o seu lugar.

Se há uma coisa que quero deixar nesta sala, é esta: muitos de nós não entramos nestes espaços sozinhos. Chegamos carregando os sacrifícios de quem nos criou, as lutas das comunidades de onde viemos e a responsabilidade de tornar o caminho mais largo para aqueles que ainda tentam entrar.

Como cantou Sam Cooke, a espera foi longa, mas eu sei que a mudança está a chegar (“a change is gonna come“).

Rodrigo Cardoso discursou no encontro anual das Nações Unidas dedicado à juventude, onde jovens, ministros com pasta da juventude e decisores de todo o mundo se reúnem para discutir o progresso dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e a Agenda 2030. Foto: UN Youth Office/Joel Sheakoski

Rodrigo abre fundo para estudar numa das mais conceituadas universidades do mundo
Depois de ter entrado na Sciences Po (Instituto de Estudos Políticos de Paris), no Joint Masters em Jornalismo e Relações Internacionais com concentração em Direitos Humanos e Ação Humanitária, a universidade cancelou o programa de bolsas a que Rodrigo e outros estudantes teriam direito. Por isso, decidiu abrir um GoFundMe. Se quiser, contribua aqui.


Rodrigo Cardoso

Lisboeta nascido na Buraca. Irmão mais velho. Rodrigo Cardoso, a estudar Ciência Política e Relações Internacionais na Universidade NOVA de Lisboa, acumula os cargos de Conselheiro jovem junto do Presidente do Comité Económico e Social Europeu e da Diretora da Agência Europeia para os Direitos Fundamentais, Comissário da Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial, e membro da Direção da Amnistia Internacional Portugal. Foi estagiário na Mensagem de Lisboa.

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