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“As mãos até tremem.” Irene, 74 anos, há 50 a viver nesta encosta de Alcântara, nem em sonhos via um dia como este chegar. Desabafa o nervoso miudinho, a vaidade e vemos os seus olhos azuis humedecerem com a ideia: esta quinta-feira, 11 de novembro, o seu retrato e o de outros moradores do bairro da Quinta do Loureiro viaja das paredes dos cafés da encosta para uma exposição aberta à cidade inteira.

“Às 18 horas”, comunicava várias vezes ao telemóvel à família, que faz questão que não falte a este momento que terá lugar na Biblioteca Cinema Europa.

Irene, 74 anos, há 50 que mora neste bairro, depois de ter vivido numa barraca no Casal Ventoso. Foto: Inês Leote

É um momento marcante para muitos dos que aqui vivem. Num bairro como este, ainda em parte uma extensão do antigo e desmantelado Casal Ventoso, poucas são as oportunidades que levam os seus nomes e retratos dali para fora por boas razões.

Quase sempre, o tema é o outro: “a droga”, “tudo sujo”, os conflitos – lamenta e remata com um suspiro. O rasto do bairro antigo perseguiu os seus moradores até aos prédios aonde foram realojados – alguns na Quinta do Loureiro.

Um bairro que é, afinal, muito mais do que aquilo que faz páginas de jornais. Mas que precisa de uma ajuda para também os que lá moram poderem sonhar alto.

João Santos. Foto: Inês Leote

Que o diga João Santos, 14 anos. Antes, sem grandes sonhos, hoje com um que palpita forte nas suas ambições. João fixa os olhos na câmara fotográfica da nossa fotógrafa desde que chegámos e, logo ali, poderíamos adivinhar qual é o seu novo sonho: ser fotógrafo profissional, confirma. Antes disso, esta ideia de pensar o futuro não era muito clara na sua cabeça. “Sei lá. Talvez ser editor de vídeos”.

Tudo mudou porque o projeto Bairro Meu e o fotógrafo Daniel Rodrigues, português premiado pelo World Press Photo, deram a estas crianças e adolescentes uma oportunidade que de outra forma não teriam: uma máquina para a mão, a aprendizagem com um dos melhores na profissão e a promessa de uma exposição – até 11 de dezembro. Aquela pela qual Irene tanto treme e anseia.

Daniel Rodrigues é um fotojornalista português premiado pelo World Press Photo. Foto: DR

Ao todo, são 14 os pequenos aprendizes que irão ver as suas fotografias expostas na Biblioteca Cinema Europa – entre eles, João, Bia, Daniela Oliveira, Enzo, Eva, Daniela Garcia, Maria, Rodrigo, Tiago.

Foto: DR

Retrato a retrato, o projeto desafiou miúdos e graúdos deste bairro de Campo de Ourique a sonhar através das artes e, quem sabe, perspetivar um futuro diferente. Por detrás da ideia, os maiores rostos são Jwana Godinho, da associação sem fins lucrativos It’s About Impact, e Ana Marta, que quiseram dar à cidade “um segundo olhar” sobre um bairro “a que ninguém vem”.

O que a pandemia tirou, a fotografia devolveu

The New York Times, The Wall Street Journal, The Washington Post, Al Jazeera, Helsingin Sanomat, CNN, BBC, Folha de São Paulo… As fotos de Daniel Rodrigues já foram publicadas em muitos sitios e a sua lente já viu muito mundo. A pobreza, sobretudo, na Índia, em países africanos ou no Brasil, é uma marca do seu portfólio. “Mas há coisas que não esperava ver em Lisboa”, confessa.

Já lá vão anos desde que Daniel passou por este bairro pela primeira vez, numa visita que não durou mais do que quatro horas, “quando foi para contar a história do Casal Ventoso, o famoso hipermercado da droga, para o The New York Times“. Na altura, longe de imaginar que em 2021 ali voltaria para presenciar desafios semelhantes aos de antigamente e a pena com que muitos, como Irene, ainda vivem, depois de terem perdido “as (suas) ricas barraquinhas”. Vieram as casas mas a integração não aconteceu.

Este cenário estava a acontecer “no centro da cidade, junto a uma das mais movimentadas avenidas de Lisboa”. “É inadmissível”, diz Daniel.

O pior foi mesmo o isolamento que se abateu sobre a comunidade da Quinta do Loureiro, “que parecia que tinha perdido o espírito de bairro”. O fotógrafo acredita ser uma consequência da pandemia: “Senti uma frieza e falta de sentido de comunidade.” Por isso, o desafio foi voltar a juntar as peças e provocar o cruzamento de diferentes gerações.

“Não é só carregar no botão e tirar uma fotografia”, aprendeu o pequeno João. Além das questões técnicas que a arte de fotografar exige, há o lado humano, que ele diz ter sido uma das partes mais difíceis. “Foi preciso convencer as pessoas” e saber respeitar um “não”.

Assim os mais novos foram conhecendo, pela primeira vez ou melhor, os rostos da memória mais antiga do bairro e reativando este espírito de comunidade adormecido. “No final, esse espírito já estava lá”, garante Daniel.

A paciência é o motor

Workshop, fotografia, exposição. Nada disto entusiasmava João, que até se diz pessoa de fácil entusiasmo. “Nasci fascinado”, põe-no nestes termos. Mas quando lhe apresentaram a proposta de fazer parte deste grupo de crianças e adolescentes que iriam retratar o seu bairro com uma câmara fotográfica, achou “uma seca”. “Nunca me interessou e nunca tinha experimentado.”

Por isso mesmo, a sua evolução foi uma surpresa. “A maior”, diz o fotógrafo Daniel Rodrigues.  E Ana Marta, gestora do projeto, diz que o João é hoje “o representante de bairro”. “Ele pega nos nossos objetivos e materializa-os.”

Ele que há já dois anos não vive no bairro, do qual a família se quis distanciar “por causa do ambiente”. Ainda lhe é estranho ver estas pessoas que se sentam em cima de cadeiras de escritório na rua, a droga de que falam, a sujidade que os próprios moradores reclamam. Mas é assertivo em dizer que há sempre dois lados da mesma moeda: “Há partes boas e partes más. Boas, como este projeto”.

Ana Marta sabe dizer exatamente o momento em que o aborrecimento no olhar de João se transformou nesta paixão que hoje tem pela fotografia. Lembra-o, apontando para a ponte pedonal branca que jaz atrás de nós: “Foi ali, João”.

Naquele dia, após várias sessões com Daniel, começadas em junho, algo mudou. “Vi que conseguia tirar boas fotos. Antes, não tinha conseguido tirar nenhumas boas.”

A paciência é imprescindível no processo de ensinar “quem nunca tem a possibilidade de estar tão próximo das artes” como os jovens deste bairro, diz Daniel Rodrigues. Por não acreditarem ser capazes, porque estas oportunidades normalmente não chegam a estes bairros, ou por toda a desconfiança que há perante novos inquilinos neste espaço, um caso como o do João seria “a vitória mais material” que o projeto poderia ambicionar.

Foi nesta ponte pedonal, que faz a ligação do bairro com o resto da cidade, que João ganhou um sonho. Foto: Inês Leote

Mas não só.

Tiago Singh, 12 anos, que se alinha ao lado do amigo João para esta conversa, não troca as luvas de guarda-redes por nada, mas hoje diz que tem “muito orgulho” em ter um trabalho dele nesta exposição. Mesmo que o futuro não passe pela fotografia, “valeu muito a pena” ter aprendido “o que não se aprende aqui”.

Tiago Singh mora no bairro desde que se lembra e, aos 12 anos, mostra orgulho em ter um exposição com fotografias suas. Foto: Inês Leote

Muito além de fotografia

Por que razão esta história se conta na Quinta do Loureiro? Jwana Godinho, há anos ligada às artes e uma das coordenadoras do projeto, diz que é “o bairro ideal”. Quer isto dizer, “um bairro no centro de Lisboa, muito delimitado e com pessoas muito carismáticas”. “Obviamente, tem os seus desafios, mas onde facilmente conseguimos ver as partes tão bonitas que ele tem também”, lembra.

Era, por isso, o palco perfeito para um projeto com estes objetivos: motivar e integrar pessoas através das artes. Ou, simplificando: “fazê-las sonhar”.

As sessões arrancaram em junho, mas muito antes a equipa levou as malas para o bairro, para um primeiro reconhecimento de terreno. Fizeram “coisas tão simples como andar de um lado para o outro e ajudar nas atividades do bairro”. Até ao dia em que, com a confiança conquistada, chamaram os mais novos para o desafio de fotografar o sítio onde moram.

Mas “a verdade é que a fotografia se tornou algo bastante maior do que esperávamos”, diz Jwana. O impacto foi além da juventude. “O facto de as crianças tirarem fotografias aos mais velhos promove este encontro de gerações e permite um empoderamento das pessoas fotografadas também.” Ainda hoje esta ideia a emociona.

Por isso é que este é apenas o princípio de um projeto que se quer mais ambicioso. Porque “o que funciona para uns não tem que funcionar para outros”, os planos do Bairro Meu passam por trazer mais artistas e mais modalidades artísticas – como a música, a arte urbana, a escrita, as artes performativas e o audiovisual.

Este futuro é já amanhã, mas esta equipa prepara também o futuro seguinte. Tem como parceiros a Junta de Freguesia de Campo de Ourique e o Projeto Alkantara, e como investidores sociais entidades como a Gebalis, a Câmara Municipal de Lisboa, a Santa Casa da Misericórdia e o Banco Montepio. E, a médio e longo prazo, o objetivo é criar residências artísticas no bairro.

Nunca é só uma questão de trazer workshops e artistas, diz Jwana. É permitir que isso mude o bairro para melhor. “Ao fazer um workshop de arte urbana e ao pintar uma parede, permitimos uma reabilitação das infraestruturas.”

Retrato a retrato, parede a parede. Certo é que a primeira experiência já trouxe mais sonhos a este bairro que se tinha esquecido de sonhar.

Para João, nasceu a possibilidade de um futuro atrás da câmara fotográfica. Para Irene, um bairro que passa a ser falado por boas razões.

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Catarina Reis

Nascida no Porto há 26 anos, foi adotada por Lisboa para estagiar no jornal Público. Um ano depois, entrou na redação do Diário de Notícias, onde aprendeu quase tudo o que sabe hoje sobre este trabalho de trincheira e o país que a levou à batalha. Lá, escreveu sobretudo na área da Educação, na qual encheu o papel e o site de notícias todos os dias. No DN, investigou sobre o antigo Casal Ventoso e valeu-lhe o Prémio Direitos Humanos & Integração da UNESCO, em 2020.

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2 Comentários

  1. Excelente trabalho de relatar casos positivos e concretos que acontecem por Lisboa. Parabéns a toda equipa que faz parte deste projecto, de um jornal que tem marcado a diferença.

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