António Guterres, Secretário-Geral da ONU, em Lisboa, na abertura da 2ª Conferência dos Oceanos.

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Foi perante uma audiência de mais de 7.000 participantes, vindos de mais de 43 países, incluindo Chefes de Estado e delegações ao mais alto nível político, que António Guterres, Secretário-geral da ONU, marcou o arranque da 2.ª Conferência da ONU sobre os Oceanos em Lisboa.

«Deus quis que a Terra fosse toda uma, que o mar unisse, já não separasse», foi com esta frase de um poema de Fernando Pessoa que Guterres iniciou seu discurso destacando a importância da união dos países para abordar as múltiplas questões que afetam os oceanos e a importância desta conferência em Lisboa, co-organizada por Portugal e Quénia.

«Os Oceanos estão em estado de emergência – com problemas tão imediatos como a acidificação, a poluição de plásticos, a sobrepesca, o aumento do nível do mar e das temperaturas. Temos de reverter este declínio», disse o Secretário-Geral da ONU enquanto o Presidente da República Portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa, acentuava que Lisboa é o local certo e este é o momento certo para avançar com soluções e compromissos para proteção dos oceanos. «Esta tem de ser a conferência do desconfinamento e trazer uma abordagem certeira.»

António Guterres, Secretário-Geral da ONU, Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República português e Uhuru Kenyatta, Presidente do Quénia, na abetura da Conferência dos Oceanos 2022, em Lisboa. Foto: D.R.

Ecoando as palavras do homólogo português, o Presidente do Quénia, Uhuru Kenyatta, co-organizador do evento, também sublinhou que o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 14 da ONU – «life bellow water»- é de primordial importância dizendo que os oceanos são atualmente o recurso menos apreciado do planeta.

«Milhões de pessoas dependem do oceano para sobreviver; 90% do comércio é realizado através do mar, mas ao mesmo tempo temos 8 mil milhões de toneladas de plástico a serem atiradas para o oceano, a pesca ilegal e a degradação dos ecossistemas marinhos.»

Guterres voltaria a frisar a importância do evento ao falar para as dezenas de jornalistas de todo o mundo presentes em Lisboa – «Não podemos ter um planeta saudável sem um oceano saudável. É necessário aliar a ciência e a sabedoria tradicional; o investimento sustentável para a produção de alimentos, energia e formas de vida; temos de regularizar a atividade marítima. Estes são os objetivos concretos para os próximos 5 anos!»

Mais ainda, António Guterres afirmou que é necessário mapear o oceano em pelo menos 80% da sua área até 2030, reverter o declínio e restaurar a saúde deste, especialmente com a criação de mais Áreas Marinhas Protegidas em todo o planeta, a fim de garantir a diversidade dos ecossistemas e a recuperação do oceano. «O oceano está a gritar por socorro. É uma emergência evidente.»

Foto: Jonathan Borba/Unsplash

Investimento e uma economia sustentável são as principais chaves para solucionar os problemas que o oceano está a enfrentar. Sob o tema da Conferência – «Intensificar a ação nos oceanos tendo por base a ciência e inovação, para a implementação do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 14: balanço, parcerias e soluções» – em alinhamento com a Década da Ciência dos Oceanos para o Desenvolvimento Sustentável – UN Ocean Decade – está clara a necessidade do conhecimento científico aliado à tecnologia marinha para restabelecer a resiliência do oceano.

As atividades humanas estão a pôr em risco a saúde do oceano. De acordo com o Relatório Estado do Clima Global em 2021, da Organização Meteorológica Mundial, o aumento do nível do mar, o aquecimento e acidificação dos oceanos, e as concentrações de gases com efeito de estufa atingiram novos recordes em 2021. A poluição marinha está a aumentar a um ritmo alarmante e, se as tendências atuais continuarem, mais de metade das espécies marinhas do mundo podem estar praticamente extintas até 2100.

Apesar deste quadro dramático, António Guterres, avançou alguma esperança com a criação de um instrumento juridicamente vinculativo sobre a conservação e a utilização sustentável dos recursos marinhos em áreas marítimas além da jurisdição nacional de cada país; a criação de um novo tratado para enfrentar a crise mundial de plásticos que estão a sufocar o oceano e também de um acordo da Organização Mundial do Comércio assinado há uma semana sobre o fim dos subsídios prejudiciais à pesca.

Esta reportagem conta com o apoio do El Corte Inglés


Nysse Arruda é jornalista especializada em náutica, autora de diversos livros sobre regatas oceânicas internacionais e fundadora e curadora do Centro de Comunicação dos Oceanos-CCOceanos – a série de palestras livestream e presenciais a abordar os mais diversos temas relacionados com os oceanos, conectando os países de Língua Portuguesa e tornando Portugal um polo de partilha de informação atualizada sobre os oceanos. Videoteca CCOceanos Palestras no YouTube

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