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Natércia Bernardino, Faysal Ahmmed, Ivan Bustillo, Fernanda Nogueira, Smily Widhon. Nomes com sonoridades, origens e histórias bem diferentes. Mas todos de pessoas que se cruzam no Arraial P’ra Sempre, da Associação Renovar a Mouraria, no Largo da Rosa. Fazem parte da equipa de voluntários e membros da associação que fazem a festa: penduram grinaldas nas árvores, arrumam a banca da cozinha, preparam os petiscos e as bebidas.

Quando a música começar a tocar e a Mouraria se encher outra vez de cheiro a cerveja e a sardinha assada, eles estarão já há muito a trabalhar. E assim será até dia 18 de junho. A Mensagem participou na festa, com um bailarico ao som de músicas escolhidas por Dino D’Santiago, Kalaf Epalanga, Gil do Carmo, Ana Bacalhau, Inês Menezes, Rodrigo Costa Félix, Nuno Varela. Tudo músicas de Lisboa.

De Lisboa e da Mouraria, esse lugar para onde os mouros, derrotados, vieram viver em 1147 segundo as ordens de D. Afonso Henriques. Lisboa podia não ser deles, mas aquele bairro seria para sempre conhecido pela sua presença. Este foi o lugar que se tornou o berço de fado e que durante tantos anos foi alvo de estigmatização. Hoje é o espelho dessa multiculturalidade que faz parte da identidade de Lisboa.

O arraial que trouxe nova vida à Mouraria

Natércia Bernardino diz-se uma verdadeira “alfacinha”. Está já munida com o seu avental, qual arma de guerra, para assar sardinhas. Todos os Santos, vem à Mouraria, onde viveu, cresceu e assou muita sardinha.

“Ai, tenho tantas memórias da Marcha”, recorda. Há dois anos que não fazia a viagem do Barreiro, para onde se mudou, para regressar aquela que é e sempre será a sua casa. Mas a festa este ano voltou em força, e ela está feliz. Uma festa que ela conhece bem desde que a Renovar a Mouraria a passou a organizar.

A Mouraria sempre foi casa para muitos, mas o bairro nem sempre foi visto como um lugar seguro e atrativo. Foi por isso que em 2008 se formou a Renovar a Mouraria, uma associação de revitalização social, comunitária, cultural e artística, cujo principal objetivo passava por dar nova vida a este bairro.

Natércia Bernardino assa sardinhas no arraial da Renovar a Mouraria desde sempre. Foto: Rita Ansone

Natércia Bernardino, que vivia no Beco do Rosedo, mesmo ao lado da sede da associação, passou a frequentar esse espaço com os seus filhos e, por isso, foi logo convidada para assar sardinhas no primeiro dos arraiais. Até hoje, ainda não falhou um. E até o filho Samuel a vem ajudar.

Logo desde o ano da sua fundação, a Renovar a Mouraria queria que o arraial fosse uma festa diferente de todos as outros que por estes dias animam as ruas de Lisboa. “Queríamos criar um evento cultural que espelhasse o que é a realidade multicultural mas que se integrasse na cultura lisboeta”, explica Inês Andrade, uma das fundadores da associação.

Rita Madeira, responsável pela comunicação da Renovar a Mouraria, e Inês Andrade, uma das fundadoras da associação. Foto: Rita Ansone

Um arraial que refletisse uma cidade que se tornava cada vez mais cosmopolita mas que trouxesse também os lisboetas à Mouraria. “As pessoas de Lisboa dantes não vinham à Mouraria, tinham medo”.

Para isso, a associação apostou numa programação multicultural que desse palco não só a artistas consagrados mas sobretudo a novos projetos musicais, especialmente a bandas de outros países.

O primeiro dos arraiais “acordou” a Mouraria: “Foi incrível o feedback que tivemos de pessoas que nunca tinham vindo ao bairro”, diz Inês.

Entretanto, em 2011 o arraial migrou para o Beco do Rosedo mas desde 2017 que está aqui: “Viemos para aqui, que é um lugar maior, e onde estamos mais à vontade em termos de produção de ruído”, esclarece Rita Madeira, responsável pela comunicação da associação.

Faysal Ahmmed está a viver o seu primeiro arraial. Foto: Rita Ansone

Todos os anos há cada vez mais pessoas a chegar ao arraial, vindas de Lisboa e de todos os cantos do mundo. É o caso de Faysal Ahmmed, um rapaz com um sorriso de orelha a orelha, que não esconde o entusiasmo por estar a viver o seu primeiro arraial. As suas origens estão no Bangladesh, mas viveu sempre em Itália, e está há três meses em Lisboa, a estudar Marketing e Gestão Empresarial. “Sempre me envolvi com organizações de voluntariado e aqui as pessoas são muito agradáveis”, conta.

E se Lisboa e a Mouraria são casa para Natércia Bernardino, também são para Ivan Bustillo, da Colômbia, que está já há um ano a trabalhar com a Renovar a Mouraria como técnico de inclusão social e coordenador de projetos com o Laboratório de Mediação Intercultural e com o projeto PROFCOM destinado ao desenvolvimento de modelos de negócio da comunidade migrante.

Ivan Bustillo encontrou em Lisboa e na Renovar a Mouraria uma casa. Foto: Rita Ansone

Veio para Lisboa num programa de ERASMUS em Migração e Inclusão Social e acabou por ficar aqui. “Aqui é a minha casa, em Lisboa, na Mouraria”, diz.

A diversidade é, pois, a palavra de ordem para a programação deste ano: para além da estreia de uma banda portuguesa, os Miranda, o arraial vai contar com os sons da Gâmbia dos Chibanga Groove, a onda mais italiana dos Anonima Nuvolari, os cantares e adufes da Voz do Operário, o já conhecido Sebastião Antunes e, claro, com a participação da Mensagem.

“A maior parte dos arraiais de Lisboa não mostra a diversidade cultural que na verdade compõe a cidade de Lisboa”, diz Rita Madeira. Para além disso, o arraial acolhe o trabalho de associações e projetos como o É uma Mesa, da CRESCER.

Dois anos depois, o reencontro de uma família

Este é, claro, um ano especial pois marca o regresso muito esperado das festas de Lisboa à cidade: é por isso mesmo que o arraial traz hoje a mensagem do “para sempre”.

“O arraial é quase energizante para o resto do ano, é o reencontro”, conta Inês Andrade. É um reencontro para o público, mas também para os músicos como os DJs que no primeiro dia abrem a pista de dança com o projeto Tropicáustica.

Riça, Luca Argel e Rui Silva são quem hoje faz a festa no palco do Largo da Rosa. Já marcam presença neste arraial desde 2017. Não são de Lisboa, mas sim do Porto, e trazem do Norte uma “mensagem política” de “igualdade, tolerância, antirracismo, antifachismo”.

Riça, Rui Silva e Luca Argel fazem parte do projeto Tropicáustica, que abriu o arraial. Foto: Rita Ansone

Juntaram-se em 2015 na procura de espaços que não fossem comerciais para organizar festas cujos lucros revertessem para associações ou projetos de solidariedade. Entretanto, começaram a passar música nas festas no Salão de Bombeiros do Porto, e Inês Andrade descobriu-os numa festa de diversidade do SOS Racismo.

“A nossa ideia é construir um ambiente seguro para toda a gente”, diz Luca Argel. “Queremos que a nossa festa seja um espaço seguro e de diversão, sem preconceito, sem assédio”. Um espaço de “diversidade” para “corpos dissidentes, como os corpos negros, LGBT”, explica Riça.  

O reencontro de uma família é um sentimento também partilhado por Fernanda Nogueira, que em 2019 fez pela primeira vez voluntariado no arraial. Agora, regressa à Mouraria, onde viveu durante muitos anos e onde costumava frequentar a Renovar a Mouraria.

Para esta lisboeta, este é um arraial diferente de todos os outros: “Aqui há outra ligação”, diz com um sorriso. “Não é um arraial tão bairrista, vêm pessoas de várias nacionalidades, o que permite darmos a conhecer a tradição das festas da cidade”.

Dar a conhecer a tradição é importante. Isto porque, “acima de tudo, Lisboa é a minha cidade”, partilha com grande orgulho. A tradição das festas não era uma realidade que Smily Widhon conhecia. É timidamente que conta a sua história, ainda a ambientar-se ao espírito. Veio de longe, da Índia, para estudar. Está em Lisboa há um ano mas foi aqui, na Renovar a Mouraria, que encontrou “uma família”.

A famíla de Lisboa que tem nos arraiais a sua reunião predileta.


Ana da Cunha

Nasceu no Porto, há 25 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.

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