Num quente e preguiçoso fim de tarde de sábado em Alfama, um cão brinca com uma garrafa de plástico a fazer as vezes de bola. O animal tem uma das patas enfaixadas, mas não parece ser um problema. De pé, na porta do bar da rua dos Remédios, o dono observa.

— Até mesmo com a pata partida, o cabrão não para — comenta.

Jim e a pata partida após a fuga pela janela de um primeiro andar.

— O que houve com o cão? —, pergunto, sentado numa das mesas da esplanada.

— Partiu a pata a pular da janela — responde.

— Da janela?

— Do primeiro andar. Uma cliente roubou-o há duas semanas. A gaja tinha uma pancada com o cão. O Jim tentou fugir pela janela.

— Jim?

— O cão.

— Sei, sei, o cão, claro. E como soubeste disto?

— A maluca ligou-me. Não sabia o que fazer com o cão magoado.

— Sei, sei…

A saga de Jim foi o fio da meada para o perfil de um lisboeta de Alfama, o berço do fado, que em vez da voz feminina e das guitarras portuguesas, elegeu o jazz como banda sonora do seu bar, o Real Sociedade. Saquei o caderno e a caneta. Lá sei foi o sábado de folga. Não é sempre que uma boa história surge assim, de bom grado.

A história de João de Jesus já bastava pela heresia em abrir um jazz bar no coração do fado. Logo ele, que garante ser o único dono de bar na rua nascido em Alfama. Uma informação, difícil – se não impossível – de ser verificada, como tantas outras histórias que contará, mas como diz o ditado, se non è vero, è ben trovato.

Ou seja, verdade ou não, são bem contadas as histórias do homem que cai morto ao seu lado numa mesa de bar, as aventuras como fadista em Paris, sobre ter aberto o primeiro hostel de Alfama, a sessão de wrestling com os atores da série Os Sopranos e outros pequenos sucessos e alguns fracassos em 47 anos de vida bem vividos.

A companhia de um morto na mesa

Louis Prima substitui Sinatra no setlist do Real Sociedade, por entre promessas de que when you’re smiling, the whole world smiles with you. O mundo, entretanto, nem sempre sorriu para o menino João, que começou a trabalhar como estafeta aos 14 anos.

O Real Sociedade destoa das tradicionais casas de fado de Alfama, ao trocar a voz feminina e as guitarras portuguesas pelo jazz.

“Pelo contrário”, ouve-se a voz grave vinda de dentro do bar, ainda vazio àquela hora. “Aos 27 anos, era vendedor e não conseguia pagar a renda. Vivia numa casa abandonada, na rua de São Miguel”, conta João, de volta, pousando duas médias na mesa. Jim continua o massacre à garrafa de plástico, já deitado aos pés do dono.

O cão, um irrequieto border collie de dois anos, não é isco apenas para jornalistas. Funciona para atrair clientes. Um casal francês ajoelha-se para uma festa no vistoso pelo de Jim. Aí entra em ação o vendedor João, o sorriso estampado no rosto, uma piada escondida na manga. Os gauleses riem de algo e prometem voltar mais tarde.

Jim exerce especial atração nas mulheres, a quem o dono – que vagamente lembra um Javier Bardem que precisa cortar no açúcar – reserva uma atenção especial. Uma jovem francesa interrompe a tranquila promenade por Alfama e afaga o animal. “Attaque, Jim, attaque!”, ordena João, num falso comando, ensaiado com o animal.

O cão sabe do que se trata e nem se move. A jovem francesa sorri do gracejo, um sorriso de alvos dentes. Não é preciso nem a promessa de voltar. O sorriso já basta. Na coluna, Louis Prima diverte-se com a cena e emenda o famoso refrão de Just a Gigolo: aaainnnn’t got no-bo-dy, nobody cares for me, I’mmmmm so sad and lo-ne-ly

“Estava a beber com o tipo num bar, um gajo com os seus 60 anos, quando ele de repente baixou a cabeça… e morreu.”

João de Jesus

O francês fácil, fluente, João aprendeu ao “fugir para Paris” após o incidente com o morto na mesa. “Estava a beber com o tipo num bar, um gajo com os seus 60 anos, quando ele de repente baixou a cabeça… e morreu”, conta. A imagem, ainda fresca na retina, foi uma epifania. “Pensei comigo: se continuar assim, em breve vou ser eu.”

Instalado num quarto em Paris, João deixara a árida rotina de vendedor em Lisboa. “Cantava os fados de Amália e Carlos do Carmo nos restaurantes de imigrantes portugueses”, lembra.

Vivia a boa vida de artista, como nos refrões The Good Life, entoados por Tony Bennett, the good life, to be free and explore the unknow.

Um amigo de João apresenta-se para o jantar de sábado à tarde, como a cumprir um antigo ritual. Sou convidado para a mesa, arroz de pato, uma das especialidades da ementa, ao lado do pica-pau e da torta de chocolate. “Receitas da minha mãe”, jura. O amigo meneia a cabeça, não muito convencido da hereditariedade da fórmula.

A decoração intensa do Real Sociedade espelha a soul jazz de João. Um mosaico de capas de romances noir divide as paredes com quadros coloridos. O salão termina num bar, onde uma placa avisa os interessados: I kiss better than I cook. No ambiente ao lado, um sofá convida a esticar a conversa mais um pouco. E há ainda um piano.

O piano anda mudo desde a pandemia. Houve épocas em que se ouvia jazz ao vivo, mas as portas fechadas e as incertezas levaram à redução do staff ao mínimo e agora João faz carreira a solo como anfitrião, cozinheiro e empregado de mesa. E mesmo assim, com as mesas vazias, parece ter gente demais a trabalhar na casa.

Uma impressão que logo, logo, passa.

Wrestling com Os Sopranos

Uma das últimas vezes que se ouviu o piano foi em grande estilo. Certa noite, João disse a um dos clientes que ele se parecia com o ator John Ventimiglia, da série Os Sopranos. Quase teve uma síncope quando ouviu: “I’m John Ventimiglia”. E não era só ele, mas também Michael Imperioli, outro ator da série, sentado bem ao lado.

A selfie que regista o encontro entre João e John Ventimiglia, no Real Sociedade.

Era 2018 e ambos participavam da gravação do filme português Cabaret Maxime e, num giro por Alfama, foram atraídos pela banda sonora do bar, omnipresente em todo filme sobre mafiosos. “Mano, foi uma loucura. Acabámos com a bebida do bar”, diverte-se. “Terminámos às seis da manhã com uma sessão de wrestling em frente ao piano.”

Os Sopranos, Sinatra, Bennett, Prima… João parece ter um fraco pelo universo dos gângsteres. Garante que sabe de cor, por exemplo, todo o repertório do musical Chicago. “Os meus amigos disseram que deveria ter participado no casting para a versão portuguesa”, diz. O amigo confirma a informação, entre garfadas de arroz de pato.

“Mano, foi uma loucura. Acabámos com a bebida do bar . Terminámos às seis da manhã com uma sessão de wrestling em frente ao piano.”

João de Jesus

Mas João não foi ao casting de Chicago. O mais próximo da ribalta que chegou foi numa versão de O Cozinheiro d’Oz que produziu. “Um fracasso. A estreia foi num 1 de junho, Dia Mundial da Criança, e não sabia que os espetáculos infantis são gratuitos na data. Seis pessoas na plateia, um prejuízo. Não houve uma segunda encenação.”

À época, João havia voltado da sua experiência parisiense e desistido em definitivo do fado. “Fartei-me do drama”, resume. Talvez, um trauma: uma das últimas apresentações em Paris foi transmitida numa rádio local, mas o concerto foi interrompido por uma briga generalizada entre os portugueses presentes.

Lazy Crow, o primeiro hostel de Alfama

O jantar termina com a chegada de um casal de polacos. O velho amigo despede-se a palitar os dentes. Com os cotovelos apoiados no balcão, vejo o anfitrião ajoelhar-se ao lado da mesa e recitar, como numa prece, a ementa do dia. A familiar receita do arroz de pato parece ter convencido os clientes.

No início do novo milénio, João ainda não tinha o jazz bar, mas já fazia negócio no mesmo sítio, no 145 da Rua dos Remédios. “O primeiro hostel de Alfama”, conta, as fatias de pão enfileiradas no cesto, a jarra cheia com vinho da casa, e ele de volta à mesa ao som de Fred Buscaglione… per stare bene io bevo alla mattina la nitroglicerina.

O primeiro andar do número 145 da Rua dos Remédios, onde funcionou o hostel Lazy Crow, uma espécie de antepassado dos Airbnb.

Antepassado dos Airbnb, o Lazy Crow ocupou o primeiro andar do prédio. Resumia-se a um único cómodo, dividido em 16 camas, onde dormiam juntos rapazes e raparigas. João teve a ideia do hostel após uma viagem a Salamanca. “Era muita bom. Todas as noites, uma festa”, lembra, enquanto aquece o arroz de pato num tacho.

Apesar de muita bom, o sonho de João não era um hostel, mas um jazz bar. Sonho de infância. “O meu pai dizia que, desde miúdo, eu falava em ter um jazz bar”, lembra. O pai, um frequentador assíduo do Casino de Lisboa, parecia não apostar muito nisso. Ainda bem, senão seria mais uma entre tantas apostas perdidas.

“My father is portuguese, my father is portuguese”

Aos polacos, soma-se agora uma dupla de italianos. Dez minutos depois, um ruidoso grupo de espanhóis ocupa a mesa em frente ao piano. Um casal de Almada senta-se à esplanada, observado por Jim. Subitamente, o Real Sociedade está cheio. Sozinho nas múltiplas tarefas de um bar, João não vê outra saída: “Podes fazer-me um favor?”.

Balanço a cabeça que sim.

Duas raparigas espanholas pediram o menu vegetariano, mas não há alface. “Podes ir ao indiano ao lado?”. Vou, claro. Explico a situação ao dono da mercearia, na verdade um paquistanês, que nem levanta a cabeça. Parece habituado aos pedidos vegetarianos de última hora. Volto e cruzo as mesas com as folhas de alface num saco.

João prepara dois pratos em simultâneo. No balcão, um americano que surgira do nada insiste em travar uma conversa. “My father is portuguese, my father is portuguese”, repete, enquanto na cozinha João, um Shiva com os seis braços ocupados, apenas balança a cabeça. Lê-se o desespero em seu rosto. “Podes fazer-me outro favor?”

E foi assim que meu sábado de folga terminou numa jornada dupla de jornalista e empregado de mesa. Sirvo os italianos. Volto com o pedido de sobremesa dos polacos e de mais vinho para os espanhóis. “My father is portuguese, my father is portuguese”, insiste o americano. O menu vegetariano espera-me para ser entregue.

Viver na companhia das baleias

A rotina segue a mesma até o fim do expediente, às dez e meia.  Restava um casal de alemães a dividir a última fatia da torta de chocolate e João, finalmente, ouvia a história sobre o pai português do americano. Quando as portas se fecharam, desabou na poltrona, exaurido como um pugilista em ação até o último round.

Após uma vida agitada, João planeia dias mais tranquilos a bordo de um barco, ancorado numa ilha açoriana. “Abrir um barzinho junto à marina.”

Desde 2014, com mais ou menos intensidade, são assim as noites no Real Sociedade. Talvez por isso, João tenha pensado em abdicar do sonho de infância, comprar um barco e navegar por dias mais calmos. Tem procurado por embarcações na internet. “Na Dinamarca, os barcos são uma pechincha”, garante.

O plano de fuga prevê vender o bar a “um inglês maluco”, comprar o tal barco dinamarquês e ancorá-lo na ilha de São Miguel, nos Açores. “Abrir um café, um barzinho próximo da marina, levar uma vida tranquila junto às baleias”, comenta. Ao lado do dono, Jim parece não gostar da parte das baleias.

A voz do Solomon Burke ecoa pelo salão vazio, em tom de apelo, como se o Real Sociedade também tivesse o que dizer sobre o tema: If you’re expectations aren’t met in me today, there’s always tomorrow, please don’t give up on me. As luzes do Real Sociedade apagam-se e João segue pela Rua dos Remédios, assobiando um jazz, na companhia do fiel Jim.

É hora de descansar, pois sempre haverá um amanhã.


Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 48 anos, há cinco em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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7 Comentários

  1. Qualidade extra! Parabéns.
    E parabéns também ao João. São pessoas como ele que ajudam a fazer da nossa Lisboa um sítio tão especial.

  2. Que forma tão boa de explicar Alfama e porque não Lisboa? São as suas gentes que fazem jus às suas origens e terras. Obrigado. Havemos de experimentar Jaz em Alfama!

  3. Que história massa, Sr. Álvaro. Deliciosa de se ler e de imaginar. Tem um que de crônica-conto. Já saquei a jogada: em breve reuinirás as melhores histórias em uma antologia. Quem sabe a Cepe as publique no Recife. Se eu fosse o editor, com certeza.

    Parabéns.
    Um abraço.
    PS.: A outra história muito boa, do jardineiro de Saramago.

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