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Talvez já lhe tenha acontecido: está com muita pressa para apanhar o metro, mas quando chega ao cais o televisor anuncia uns demorados 15 minutos para a sua chegada. Desde o início do ano já foram dez as greves convocadas pelos trabalhadores e são cada vez mais os atrasos e as avarias nas linhas. Em maio, segundo o site perturbações.pt, a Linha Azul sofreu um total de 15h15m de perturbações, a Amarela 11h40m, a Verde 15h20m e a Vermelha 14h37m.

O que se passa com o metro de Lisboa?

Carlos Macedo é maquinista e membro do Sindicato dos Trabalhadores do Metropolitano (STMETRO) e aponta aquele que lhe parece ser o principal problema: falta de trabalhadores. Especialmente de trabalhadores que garantam a manutenção do material circulante e a vigilância nas estações. “Temos estações desertas de trabalhadores e por isso há também mais degradação das infraestruturas e dos comboios”, explica.

Foto: Metropolitano de Lisboa

Ainda em maio, o ministro do Ambiente e da Ação Climática Duarte Cordeiro afirmou que seriam iniciados os procedimentos para contratações até ao final do mês, e foi anunciada ainda a intenção de se reduzir a oferta do serviço do metro para não se sobrecarregar os trabalhadores. O que, para Carlos Macedo, se tratou de um equívoco. “O objetivo é reduzir a frequência no horário de verão, o que já acontecia, mas não tem sido tão notório por causa do turismo”.

O que é preciso mudar no metro?

Para José Manuel Viegas, professor emérito da Universidade de Lisboa e presidente da Tis.pt – Consultores em Transportes Inovação e Sistemas, S.A., um dos fatores que pode contribuir para o mau funcionamento do metropolitano é a sinalização.

Segundo o professor, os sistemas utilizados não permitem circulações muito intensas, porém, permitem intervalos de quatro minutos entre passagens, pelo que a sinalização não será o problema. Em contrapartida, Fernando Nunes da Silva, especialista em mobilidade e professor catedrático em Engenharia Civil do Instituto Superior Técnico (IST), diz que é preciso haver uma “modernização do sistema de sinalização, que é muito antiquado”.

Foi neste sentido que, no passado dia 5 de maio, o contrato para a aquisição de um novo sistema de sinalização ferroviária e a aquisição de 42 carruagens recebeu visto prévio por parte do tribunal de contas. Este novo sistema de sinalização vem substituir um sistema dos anos 1970.

Outro fator, claro, é a falta de trabalhadores. Esta realidade não se sentiu tanto durante os períodos de maiores restrições da pandemia, mas agora tornou-se evidente, tal como comprova Fernando Nunes da Silva: “São precisos mais operadores e maquinistas para se ter mais frequências”.

Há ainda um outro fator que tem levado ao aumento dos tempos de espera: o material circulante. “Quando se lançam obras, o material circulante encomendado pode demorar mais tempo do que terminar-se a empreitada”, diz José Manuel Viegas.

O que, de facto, se verifica, basta ver que a assinatura do contrato de aquisição de material circulante e do sistema de controlo automático referido acima é o resultado do concurso público internacional lançado em setembro de 2018 que foi adjudicado no dia 24 de janeiro de 2020.

Neste momento, Carlos Macedo pinta mesmo um cenário de “comboios e estações degradadas”, em que é difícil garantir a segurança de trabalhadores e utentes. “A rede cresceu dezenas de quilómetros nos últimos anos e, simplesmente, não houve aquisições nenhumas”, denuncia Fernando Nunes da Silva.

Tempos de espera em Lisboa e lá fora

Os números que hoje se veem nos televisores das estações de metro muitas vezes assustam, especialmente quando o ideal para um transporte como o metro seria uma espera máxima de seis minutos. “Dois, três minutos é o desejável”, especifica José Manuel Viegas.

Mas o Global Public Transport Report 2020, promovido pela aplicação Moovit Insights, não mostra resultados muito satisfatórios. Este estudo analisou globalmente milhares de viagens em transportes públicos (não só de metro, portanto) no ano de 2020 através dos dados dos utilizadores.

Enquanto o tempo de espera médio por transportes públicos em Lisboa é de 14 minutos, em Paris e em Londres será de 11 minutos, em Barcelona, Madrid e Berlim de 10.

Tempos de espera pelo transporte público em alguns países europeus. Fonte: Moovit

É em cidades como Burgos e Bilbao, as duas em Espanha, onde há maior probabilidade de se esperar menos de cinco minutos pelo transporte público (45,8% e 43,64% respetivamente). Em contrapartida, as cidades onde a probabilidade de se esperar mais de 20 minutos são Recife e Salvador, no Brasil (64,58% e 57,6% respetivamente).

Em Lisboa, a probabilidade de se esperar menos de 5 minutos numa viagem é de 23,79% e a de se esperar mais de 20 minutos é de 18,07%.

Mas em 2022 os tempos de espera no metro parecem estar a agravar-se, mesmo depois de em 2021 a satisfação dos utentes do metro ter atingido o valor mais alto de sempre (7,78 pontos numa escala de 10). Mesmo assim, as principais queixas eram, claro, as frequências, os atrasos e ainda a vigilância.

Tempos de espera pelo transporte público em Portugal. Fonte: Moovit

Com um cenário destes, José Manuel Viegas considera normal que os transportes públicos perfaçam apenas 16% da quota do mercado: “As pessoas não são burras, é muito mais barato andar de transportes públicos do que de automóvel. Por que é que não andam de metro? Porque estão mal servidas”.

Qual a solução, então? Para José Manuel Viegas, esta é uma pergunta de resposta difícil. “Não posso dizer se a culpa é da administração, das finanças ou do sindicato”, diz. Isto porque o professor defende que não há “transparência” em relação ao metropolitano: a informação do relatório de contas é muito “agregada, centrada na vertente financeira” e o contrato entre o governo e o metro não é de acesso público.

Fernando Nunes da Silva já tem uma opinião mais convicta:  “A administração do metro só se tem preocupado com obras caras quando há soluções baratas”, começa por explicar. “Não tem de facto trabalhado no que é fundamental: na parte da operação”.

Carlos Macedo resume aquele que tem sido o caminho até agora: “O desinvestimento da troika provocou danos graves que não foram recuperados com o fraco investimento dos últimos governos”, aponta. “O investimento não foi suficiente, é preciso investir”.

E acrescenta ainda: “Todos temos interesse que o metropolitano de Lisboa seja uma boa empresa e que Lisboa se reveja nela, os trabalhadores sempre lutaram por isso”.


Ana da Cunha

Nasceu no Porto, há 26 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.

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1 Comentário

  1. Caros srs era de bom tons mostrarem o desagrado dos utentes e não só dos trabalhadores… Trabalho em Lisboa e moro no Entroncamento … As greves são feitas para lesar os utentes e não a empresa… Se a ideia é forçar a empresa a algo… Devem é abrir as portas e anda tudo à borla, o meu meio de transporte preferido é o metro e não gosto de pagar o passe e estar constantemente a ter perturbações nas deslocações… Se não podem abrir as portas devolvam o dinheiro dos dias em greve… Para terminar se há greve os trabalhadores têm de estar concentrados no local de trabalho não é fechará as estações e ir para a praia

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