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Com a chegada do calor, Lisboa cheira a regabofe, que é como quem diz: festa rija, praia, sardinhas e vinho branco, estupidificar numa esplanada; durante o Verão, há tantas maneiras de ser tolo e feliz, praticamente sinónimos.

Mesmo para uma careta workaholic como eu, que prefere o frio porque consegue trabalhar mais e melhor, o calor puxa mesmo pelo dolce far niente, o chamado vegetar.

Perguntem-me, se tiverem coragem, porque é que estou a usar tantos estrangeirismos neste texto. Mesmo que não perguntem, eu digo. É assim a lógica da leitura, o autor ou a autora escrevem e vocês lêem se fizerem o favor.

Portanto, como eu estava a dizer, todo este estrangeirismo é porque – e não sei se já repararam mas tenho quase a certeza que sim – Lisboa está outra vez a abarrotar de turistas.

Não tenho nada contra os turistas, embora acredite que aí desse lado esteja um ou outro xenófobo mesmo à espera de apanhar uma migalha para verbalizar em voz alta: «Vão para a vossa terra, isso mesmo! Finalmente alguém diz aquilo que todos pensamos.»

Não, pessoa xenófoba, isso não vai acontecer. Não contem comigo para xenofobia, nunca experimentei, mas dá-me ideia de que é como o cocó. Não é preciso provar. É feio, cheira mal e não é certamente para comer.

Bom, como eu estava a dizer, o calor é mesmo incrível para vegetar pela cidade, mesmo que se tenha de enxotar, com simpatia q.b., algum turista mais afoito que se comporta como se a cidade fosse sua.

Enxotar um turista não é xenofobia, atenção. Estamos só a pedir que se desvie para outra esplanada porque aquela agora é para nós durante um bocadinho, pode ser? Se calhar somos ciumentos com a cidade, eu cá sou.

Não gostamos de ver tudo expropriado por turistas, e repito, não tem que ver com xenofobia, sabemos que é bom para o país e são todos muito bem-vindos. Só chateia que às vezes ocupem os lugares todos e que não haja um banquinho de lona que seja para sentar a nossa real regueifa à sombra numa esplanada.

Eu cá tenho saudades de ver lisboetas em Lisboa. Parece uma redundância, lisboetas em Lisboa, mas neste momento não é. No outro dia, em conversa com a minha irmã que vive na Bélgica há mais de cinco anos, mais propriamente em Bruxelas, constatávamos que a maior parte dos amigos dela, pessoas na geração entre os 30 e os 40 anos, ou emigraram ou foram enxotadas do centro de Lisboa para as periferias. Na melhor das hipóteses, vivem na Amadora, que também já se tornou cara com a chegada de franceses a comprar apartamentos. Está giro, mas não tem graça nenhuma.

Também vi que Lisboa foi considerada a terceira cidade mais cara da Europa. Cá está, mais uma informação que desmoraliza os portugueses, nomeadamente os lisboetas que foram deportados para o cu de Judas, citando o título homónimo de António Lobo Antunes, ou se quisermos ficar mais no espírito da turistagem, recambiados a grande velocidade para o «south of nowhere»; é à escolha do lisboeta que fale português e inglês.


* Cláudia Lucas Chéu nasceu de madrugada na mais célebre maternidade lisboeta, em 1978. Cresceu na margem Sul, mas viveu parte da adolescência enfiada no King. Quase todos os momentos emocionantes da sua vida se passaram em Lisboa: perdeu a virgindade nas Laranjeiras, foi assaltada no Cais do Sodré, subiu ao palco pela primeira vez como atriz profissional na Praça de Espanha, publicou o primeiro livro no Rossio e deu à luz uma filha no Alto dos Moinhos. Vive há mais de duas décadas em Lisboa. Não contempla morar noutra cidade.

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