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– O senhor engenheiro hoje não engraxa?

– Engraxo na Baixa.

Assim brincava Alexandre O’Neill – amigo do meu pai desde a escola primária e companheiro de passeios a pé da minha mãe gravidíssima – no seu “Lisboa Remanchada”, texto que vem sempre à lembrança do senhor que se casou comigo quando por acaso divisa na rua um engraxador. É que, para grande pena dele, o ofício caiu em desuso…

Lembro-me realmente de há muitos anos haver dezenas de engraxadores espalhados pela capital – e não só na Baixa, onde o engenheiro do poema parecia acreditar que eram os melhores.

Sentados à espera de que alguém os chamasse diante das barbearias, ou tentando a sua sorte serpenteando entre os senhores engravatados das esplanadas, transportavam uma pesada caixa de madeira com uma espécie de assento incorporado e abas que se abriam para mostrar pomadas e escovas várias, paninhos de flanela e formas para alargar, conjuntos de atacadores ensebados e uma tira larga de couro que punham à volta do tornozelo do cliente para não lhe sujar as meias.

A minha mãe contou-me que, na Pastelaria Bocage – que bordava a esquina do prédio onde morávamos no início dos anos sessenta –, cirandava sem muito tino um jovem engraxador em começo de carreira que estava sempre a tecer elogios rasgados ao calçado do meu pai; não, curiosamente, por ser graxista, mas porque queria, segundo ela, transmitir daquele modo subtil o desejo de que o meu pai se lembrasse dele quando já não quisesse os sapatos.

Apesar de bom engraxador, não tinha muito trabalho; e, aos sábados, que a clientela escasseava no café, chegava a tocar à campainha do nosso andar e subir a correr os três lanços de escada para implorar à minha mãe que lhe arranjasse uns pares de sapatos para engraxar, estando-se nas tintas para que fossem dela, da minha avó ou mesmo nossos, pois o que queria era levar uns tostões para casa ao fim-de-semana.

A minha mãe, que tinha pena dele, lá andava a recolher as botas da criançada toda, fazendo-lhe a vontade; e às vezes era ali mesmo no patamar, para poupar o sobe-e-desce dos degraus, que o tipo se sentava a fazer o seu trabalho – e tão bem ou melhor do que qualquer engraxador da Baixa.

Contudo, soube-se mais tarde, não tinha licença para exercer o ofício, e a Polícia, apanhando-o em falta certo dia, acabou por aplicar-lhe uma multa pesada, com a agravante de lhe ficar com a caixa de engraxador enquanto ele não a pagasse.

Mais uma vez, valeu-lhe a solidariedade da minha mãe que, além de obrigar o meu pai a contribuir com algo que se visse, fez um choradinho à vizinhança toda e lá reuniu o necessário para recuperar o material apreendido e devolver ao rapaz o seu ganha-pão.

Ele ficou tão agradecido que se ofereceu para engraxar de graça todos os sapatos que ela lhe levasse durante aquela semana; mas a minha mãe não se aproveitou, entregando-lhe apenas um par, se bem que especial: uns sapatos ingleses caríssimos, feitos à mão, com que o meu pai perdera a cabeça numa viagem de trabalho a Londres e que pretendia calçar no sábado seguinte, num casamento em que ele e a minha mãe seriam os padrinhos.

Logo que lhes pôs os olhos em cima, o jovem engraxador quase perdeu a fala. Melhor fora, contudo, que o meu pai tivesse feito como o engenheiro de O’Neill e ido engraxar à Baixa: é que, quando a minha mãe achou que ele nunca mais aparecia e foi ver o que se passava, já o rapaz estava a milhas dali e, claro, muitíssimo bem calçado.


Maria do Rosário Pedreira

Nasceu em Lisboa e nunca pensou viver noutra cidade. É editora, tendo-se especializado na descoberta de novos autores portugueses. Escreve poesia, ficção, crónica e literatura infanto-juvenil, estando traduzida em várias línguas. Tem um blogue sobre livros e edição e é letrista de fado.

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1 Comentário

  1. Poesia ou crónica, adoro ler MRP…A sua escrita é visual, cinemática que faz de nós, espectadores cúmplices…Sou fã, há muito tempo!!! Digo-os muitas vezes os seus poemas…Quando me perguntam , qual a minha Poetisa preferida, adivinham a resposta? Certo: MRP

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