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Todos olhavam atentamente o lago emoldurado pelo jardim. Sentados na plateia do anfiteatro, de pé ou ajoelhados, os urban sketchers desenhavam a peça que a natureza lhes encenava em palco. Entre piscos curiosos, e desenhados, e tufos de algodão de choupos-brancos a pairar, distraíam-se as crianças e coçavam-se os narizes.

De caderno nos joelhos, nas mãos ou no chão, os participantes pintavam de verde, de azul, de amarelo o desafio que Mário Linhares, professor de Desenho na Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa e urban sketcher, tinha lançado quando ali chegaram: “desenhar mais Terra e menos céu”.

Foram desafiados a olhar mais para o chão que pisam, a sentir o Planeta que habitam, em celebração do Dia da Terra.

Carolina fê-lo sem pensar duas vezes – confessa-se apaixonada por ilustrações botânicas e quis “desenhar flores, ao pormenor”. Foram rosas e flores de fruto, que viu pelo jardim. É designer de profissão, sketcher nos tempos livres, e foi o irmão Otávio, oficial da Marinha, que a incentivou a seguir artes em Évora. É desta sua paixão que se ocupa nas pausas de teletrabalho, entre refeições e quando viaja.

Garden sketching é uma atividade e uma paixão que Otávio e Carolina partilham. Foto: Inês Leote

Folheia o seu diário gráfico no sentido cronológico inverso, passa por um jantar com o irmão em Almada, por um prato de marisco em Itália – desenhado enquanto bebia Prosecco com a família – e para num dos confinamentos: só através das fotografias conseguiu revisitar o Alentejo e foram as aguarelas que consolaram as saudades das planícies.

No caderno que segura, também coleciona pequenos almoços, flores e plantas, selvagens e envasadas, mas a estrela, diz Carolina, é o croissant. “Especialmente se for de Nutella e avelã”.  

É ao fim-de-semana que consegue fazer planos com o seu “ídolo das artes”, que deixa em Portugal os pincéis e a irmã quando parte em missão. Otávio esteve destacado nos últimos três anos e admite, com pena, que a única arte que conseguia incluir na rotina eram alguns passos de dança.

Agora, que “finalmente tem algum tempo livre”, tenta dedicar-se a um novo hobby, a fotografia, e é desafiado por Carolina para desenhos contra-relógio no Parque Eduardo VII e para encontros como este. Estrearam-se os dois naquele dia com os Urban Sketchers de Lisboa.

Despediram-se com Carolina a pensar na corrida de 20km que faria no dia seguinte – apetecia-lhe um croissant daqueles que gosta de desenhar.

De Seattle a Lisboa

Estávamos em 2007, quando Gabriel Campanario, um jornalista e ilustrador catalão do Seattle Times, criou um fórum online para partilhar quotidianos e nomeou correspondestes urbanos, com a responsabilidade de contar a atualidade que os rodeava. O que começou por ser uma troca de experiências e dias desenhados, acabou por criar um movimento a nível mundial que, hoje, se desdobra em mais de 300 capítulos – assim são chamados os grupos locais de Urban Sketchers. Para o capítulo de Lisboa já contribuem mais de 500 desenhadores.

Tudo começou a esboçar-se pela mão direita de Eduardo Salavisa, num workshop de diários gráficos, em que Mário participou. Dali, saiu um blogue com o mesmo propósito do fórum de Campanario e, com intenção de alargar a comunidade, fundaram os Urban Sketchers Portugal.

Com Mário Linhares a seu lado, Salavisa impulsionou a cultura do desenho da cidade, na cidade, e deu aos sketchers portugueses a oportunidade de pertencer a uma família que conversa através de escalas e pontos de fuga, pensados e concretizadas in loco, no local.

Como dita o manifesto seguido internacionalmente, a ideia é “mostrar o mundo, um desenho de cada vez” e, naquele anfiteatro, acrescentaram-se mais de 50 páginas ao capítulo lisboeta.

Em cada esquina, um desenhador

Ao contar a cidade pelo pincel, diz Mário, os sketchers têm uma sensibilidade mais apurada para o pormenor porque “já se deixaram absorver durante horas pelos detalhes” daquele sítio – sabem a que soam as ruas vazias de Lisboa e o que mais floresce nos jardins, sabem como crescem as colunas dos teatros e como se curva a água nas fontes. O desenho obriga-os a “parar, linha a linha, mancha a mancha”.

Enquanto sketcher, Mário desafia-se na escolha dos locais, no enunciado do seu desenho e até no diário gráfico que escolhe para trabalhar – agora tem um A4, de capa azul escura, que aberto no colo torna-se uma folha A3, gosta de se “forçar a situações de desconforto”, que diz ajudar na criatividade. Quando se prepara no local, é levado a contemplar a imensidão branca e a questionar-se: “é uma página tão grande, o que vou fazer daqui?”.

Relembra a vez que se sentou na Rua de Santa Justa, com vista para o Elevador, “as pessoas passam e olham, estranham, são curiosas”, afinal de contas não foi numa cadeira que se sentou, entre tantas esplanadas. Como os curiosos, há também “os desconfiados, mas simpáticos”, diz Mário, são os donos de lojas e de cafés da Baixa que o veem desenhar a sua fachada e o convidam para entrar.

Numa cidade que é sua, Lisboa, ainda se perde e descobre cantos que o levam a viajar. Há sempre esquinas por dobrar, histórias por contar. Até há um ano, não conhecia o Terminal do Beato, e até hoje não sabe quem são os donos dos barcos lá abandonados, mas lembra-se de lhes imaginar as vidas difíceis enquanto desenhava as antigas faluas do Tejo.

Quase perdido nesta memória, interrompe-o a gargalhada de Olga, que quer a opinião do Professor e amigo sobre o que desenhou. Médica recentemente aposentada, agora aluna na Universidade Sénior de Oeiras, passeia e desenha com os Urban Sketchers há cinco anos. Antes, desenhava apenas Campo de Ourique, até conhecer Rosário, que a convenceu a pintar outras paisagens.

Olga e Rosário conheceram-se num dos encontros para Desenhar Campo de Ourique, uma das iniciativas de vizinhos realizada pelo movimento CampOvivo, fundado em 2013. Presente desde o início, Rosário pretende retomar o ritmo das atividades, suspensas devido à pandemia.

Na sua agenda, tem já a Festa do Vizinho de Campo de Ourique, no dia 28 de maio – será a música e a exposição de Mário Dionísio que desenharão juntos naquele dia.

Fazer um catálogo das árvores do Jardim da Parada, onde gosta de passear as aguarelas, também faz parte dos seus planos e quer mesmo compilá-las num livro infantil – confessa-nos o seu diário gráfico que já se antecipou nessa recolha.

Ao contrário de Mário, Rosário não imagina histórias vividas pelas ruas ou pelas pessoas que desenha. Gosta de ser ela a vivê-las, de desenhar in loco, de criar as memórias de raiz enquanto almoça com amigos, vê museus ou passeia com a família, embora não queira “fazê-los esperar”. Foi por isso que trouxe um desenho a menos de Zurique, quando visitou o filho – não tiveram tempo para apanhar o elétrico azul e branco. Nem Rosário, nem o pincel.

Com tempo, gosta de desenhar Lisboa, de lhe ondular as colinas e esboçar os rostos com quem se cruza. Folheia os dois diários gráficos que traz consigo, mas diz ser fiel a um deles, que trata num tom carinhoso: é o seu “caderninho”. É o que leva sempre consigo.

Muito requisitado após a atividade terminar, Mário aconselhava também um grupo de alunos. Um deles era Francisco, aluno de Arquitetura, que assiste às aulas do professor de desenho enquanto prepara a sua tese de mestrado. Era das Gares de Alcântara e de perspetivas que se falava – num desenho que retrata a vista para o Tejo, onde Francisco quer voltar a trazer o peão, em segurança. Visita semanalmente o Vale de Alcântara para observar os fluxos que o percorrem a pé e sobre duas e quatro rodas, e sonha com uma reformulação que transforme aquele “vazio urbano, de passagem”, num espaço mais verde, mais vivo.

Estuda Arquitetura na margem norte e vive na margem sul, mas é na primeira que passa mais tempo e onde prefere desenhar. Como Carolina e Otávio, a designer e o marinheiro, promete ficar atento aos próximos encontros dos Urban Sketchers Portugal.

Um movimento que se une e reúne pelo país e pela Europa há 13 anos, encontrou na Gulbenkian um parceiro de Equinócios, Solstícios e dias temáticos, que celebram juntos a desenhar. É graças aos sketchers, conta Paula Corte-Real, arquiteta paisagista, que há no site da Fundação uma cronologia viva do jardim.

Já muito dispersos, ao final do dia, alguns sketchers ainda prolongaram a conversa. Os tufos de algodão pousavam na plateia do anfiteatro, já quase vazio. No Dia da Terra, acrescentaram-se mais de 50 páginas ao capítulo lisboeta.

Carolina talvez tenha desenhado mais um croissant.


Inês Leote

Nasceu em Lisboa, mas regressou ao Algarve aos seis dias de idade e só se deu à cidade que a apaixona 18 anos depois para estudar. Agora tem 21, gosta de fotografar pessoas e emoções e as ruas são o seu conforto, principalmente as da Lisboa que sempre quis sua. Não vê a fotografia sem a palavra e não se vê sem as duas. Agora, está a fazer um estágio de fotografia na Mensagem de Lisboa.

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