A fachada do edifício do Ritz-Club. Foto: Pedro Salazar

Há uns dias, passeava eu pelas ruas de Santo António (isto da renomeação das freguesias de Lisboa ainda me baralha um pouco) e acabei a passar à porta do antigo Ritz-Club, espaço noturno onde passei muitas noites em meados dos anos noventa do século passado. Escusado será dizer que foi com particular saudade que contemplei aquela bonita fachada de grandes janelas e varandins em ferro forjado onde se lê ‘Tuna Commercial de Lisboa’ nuns bonitos Viúva Lamego.

Quando penso nos meus espaços noturnos preferidos de sempre para sair à noite em Lisboa, há sempre dois que se destacam: o Ritz Clube e o Incógnito. No caso do antigo dancing club e cabaré, fechado definitivamente já nos anos 2010, fui um seu absoluto habitué entre 1991 e 1996, anos em que trabalhei em produção de espetáculos. 

Para um jovem adulto, que alternava os concertos pelo país fora nos mais variados sítios e salas, desde um palco em cima de bidões numa feira da terra até grandes concertos nos coliseus ou na Praça do Comércio, estes foram anos de sonho. E, nesse período, o Ritz Club foi absolutamente central na minha vida.

O quanto eu venerava aquele espaço vibrante e decadente.

Sempre que vínhamos de um concerto em Lisboa ou perto da capital, a noite acabava quase sempre no Ritz-Club – muitas vezes, precedida de uma passagem pelo Hot Clube e terminando no saudoso B.Leza da Rua de São Paulo. Nessa altura, eram já uma memória longínqua os tempos das prostitutas e do striptease e era aí possível assistir a grandes concertos, música africana com muito roça-roça, tertúlias inolvidáveis e belas comezainas de inspiração alentejana. Gerido, entre outros, pelos atores Maria do Céu do Guerra e Hélder Costa e os irmãos Salomé, com quem trabalhei nessa época, são muitas as vivências e as memórias que guardo desses tempos. 

Nas muitas noites que passei na Rua da Alegria, 57, conheci pessoas extraordinárias, deslumbrei-me e desapontei-me, delirei com concertos extraordinários e dancei muitas coladeiras ao som de música africana. Ah, e esforcei-me sempre por sair dali em bom estado, pois a escadaria da entrada era particularmente tramada e íngreme na hora da saída. 

Aliás, pelo que sei, nos tempos da incipiente ASAE (aqui, é pura especulação minha), além dos restaurantes chineses travestidos de japoneses, o Ritz-Club foi uma das muitas vítimas da fúria normativa dessa nova autoridade. E, numa altura em que já não era seu frequentador, ainda reabriu com grande ambição, mas acabou fechado definitivamente em 2013. 

Nesses meus roaring 1990s, vivi uma vida dupla: por um lado, era um estudante esforçado de Economia que acabou metido (e bem) na associação de estudantes; e, por outro, era um roadie deslumbrado com o show business da música rock e de intervenção, que percorreu o país de lés-a-lés ao volante de uma Ford Transit de caixa alta, conheceu músicos e artistas de todas as proveniências e feitios e ainda acabou a fazer uns cobres valentes, que deram muito jeito na altura. 

É claro que, como em tudo na vida, um dia é preciso ganhar juízo e dar por finda a festa. Se assim não fosse, dificilmente teria conseguido terminar a licenciatura e receber o canudo.

Ora, supervisionado pelos meus mentores e chefes Paulo Pulido Valente e Vitorino, uma das pessoas mais generosas e agregadoras que alguma vez conheci (e que batizou a iniciativa), fi-lo da forma mais espetacular possível: produzindo as ‘Noites Quentes do Ritz’, uma série de concertos memoráveis, ao longo de dois meses, que contaram com grandes nomes da música portuguesa: Clã, Dixie Gang, Filipa Pais, Janita Salomé, Jorge Palma, Tito Paris, Sérgio Godinho, Paulo Gonzo, Rão Kyao ou Xutos & Pontapés. Foi épico.

Questiono-me sobre qual será, hoje, o sucessor dessa maravilhosa casa que era o Ritz-Club.

Após o fecho de espaços icónicos como o Music Box, talvez a Casa Capitão, que mal conheço, mas de que tenho ouvido falar muito bem amiúde nos últimos tempos, seja esse espaço. Lá está. Como sempre e memórias à parte, the show must go on


Pedro Salazar

Nasceu na freguesia de Arroios a quatro meses do 25 de abril, mas já viveu um pouco por toda a cidade (Avenidas Novas, Santa Catarina, Almirante Reis, Santo António, Campo de Ourique e, desde 2010, em Alvalade). Licenciado em Economia pelo ISEG, foi produtor de espetáculos, jornalista e é, há mais de vinte anos, consultor de comunicação. Já viveu fora de Portugal, em Estocolmo e em Ljubljana, mas é em Lisboa que se sente em casa.

O jornalismo que a Mensagem de Lisboa faz une comunidades,
conta histórias que ninguém conta e muda vidas.
Dantes pagava-se com publicidade,
mas isso agora é terreno das grandes plataformas.
Se gosta do que fazemos e acha que é importante,
se quer fazer parte desta comunidade cada vez maior,
apoie-nos com a sua contribuição:

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *