Semanalmente, publicamos um diálogo entre Lisboa e Maputo. Uma ideia que nasceu de residências literárias feitas pelos escritores Ana Bárbara Pedrosa e Eduardo Quive: ela em Moçambique, ele em Portugal. Como, além dos quilómetros, parecem muito distantes um do outro, e uma vez que a língua os une, resolveram estreitar as pontes através de frases. Maningue giro (ou “muito giro”) é o título desta série a quatro mãos.

Já ouviste falar do romance “A cor da tua sombra”? Vai ser apresentado em Portugal esta semana. Lembro-me da primeira vez que o li, do topo do edifício da Embaixada em Maputo, com vista para a Avenida Eduardo Mondlane na vertical e a Julius Nyerere na horizontal. Claro que, nessa altura, eu não me punha a ver as ruas que se estendiam à minha frente, só vi as folhas de papel, mas nas pausas ia lá espreitar a cidade. Sempre adorei o sossego da noite, sentir que sou a única pessoa acordada, e se estiver a ler ou a escrever sinto mais gás. Ora, por ser aquela a zona que eu conhecia melhor, imaginei que a mulher que, no romance, se atirava de um prédio caía mesmo ali, em frente ao elefante às portas da Embaixada. Só podia estar naquela rua, só podia vir da minha casa. Imagino que tenhas ouvido falar do livro, já que foste tu que o escreveste, e ainda te puseste a pôr-me a adivinhar a rua como se eu fosse carteira em Maputo e lhe reconhecesse os recantos.

Depois disso, lá me mandaste numa excursão para a Guerra Popular. Já lá tinha passado de carro uns meses antes, mas a pé é outra coisa. A pé é sempre caos. E pareceu-me um péssimo sítio para uma tentativa de suicídio, há demasiada gente, demasiadas coisas a acontecer na calçada. Sempre associei o suicídio a silêncio e solidão. E admito que me confusão que, no livro, ninguém parasse ali perante um corpo acabadinho de cair ao chão. Mais chocante do que se acontecesse na Julius Nyerere, onde pelo menos há mais espaço e talvez seja mais fácil ignorar. Seja como for, eis a Guerra Popular a chegar a Portugal, com mãos de Eduardo Quive. Já estava na hora de o povo português descobrir que se mascam canas de açúcar. E antes fazê-lo por um livro, que eu creio que aprendi aí da pior forma.

Esta troca de cartas já o deve ter provado a muita gente, mas nunca será demais dizer que chegou o príncipe da literatura moçambicana. Pelo menos, fora do whatsapp, que o que dizemos lá – o que digo, vá – não conta para nada. Isto de se ser princípe pela vida, e de ter mãos principescas que escrevem coisas régias, não é coisa de se passar ao lado. Houve alguém que me apresentou a ti na primeira vez que fui a Maputo e acho que nem liguei puto a um bacano qualquer. Mas talvez já conhecesse o nome, não sei porquê – à distância, pouco garanto. Talvez já tivesse em casa os livros que o Matteo me tinha emprestado da biblitoeca do Camões e que, vou ser simpática nisto, os meus filhos também leram. Ora, depois peguei no Mutiladas, e fiquei logo irritada contigo. Irrita-me que escrevas tão bem, seu imbecil. Ainda hoje me enerva que não tenha sido eu a inventar o My man, Maimen, Maiman, ou lá como escreveste. E foi tão lindo, tão redondo, ver aquela história de um corpo retalhado, de vidas desfeitas, de horror, de alucinação completa metida numa justificação de um crime hediondo revestido de justiça. Não me vou pôr com palermices – toda a gente sabe que sou spoiler. Quem não gostar de spoilers pode parar de ler aqui. Vou citar de cor. Há três rapazes, uma rapariga. Blablablá, conhecem-se, há uma festa. E ela aparece com o corpo em fanicos. E a polícia chega e pergunta aos rapazes que raio aconteceu. E um deles justifica-se, numa formulação de mestre, de príncipe Quive, que ela tinha comido a comida deles, bebido a bebida deles, e acho que até tinham dados uns beijinhos, mas na hora de terem o que queriam ela nem sim nem sopas. A simplicidade do crime horrorizou-me. A violência desmesurada também. E eu pensei logo: quero ser amiga deste gajo. E agora cá estamos, e eu ainda fiz uma crónica na Mensagem de Lisboa que partia desse conto, chamado “Mais um sábado”. Depois, voltei para Portugal, e por razões outras fui entrevistada pela Patrícia Reis e pela Paula Cosme Pinto, que começaram a falar sobre a residência literária que me levou aí. Ainda me lembro da Patrícia a perguntar-me qualquer coisa sobre o dia que descrevi na crónica. Olha, não sei o que me deu, mas não tive o topete de admitir, e logo em frente às câmeras, que inventei tudo e nem sequer saí de casa. Ou que saí de casa às vezes, mas que aquilo era inventado na mesma – eram só as coisas que eu achava que podiam acontecer. As ruas para mim sempre foram meio vida, meio ficção. E esta possibilidade de acontecimento não tem de acontecer na vida, dá para acontecer tudo num texto. Seja como for, exibe-te perante os leitores da Mensagem. E podes fazê-lo com a tua discrição de assinatura, porque só tens de responder ao meu pedido: vá lá, Quive, mete na próxima crónica aqueles últimos parágrafos do conto.

Depois disso, vamos apresentar o teu romance por aí. Aqui em Portugal, somos mais descontraídos. Ainda ontem à noite eu estava com o Israel num jantar com o último presidente da república. O Israel chocado: ai que ninguém nos revistou, ai que alguém podia ter uma faca. A meio do jantar, duas senhoras bateram à porta a pedir para tirarem uma fotografia com Marcelo. O Israel passado: ninguém as conhecia, podiam vir matar o presidente, não havia equipa de segurança, e até com uma caneta se fura a carótida de um homem. O Israel maluco com isto, saído dali, creio, directo a um psiquiatra. Eu só pensava “Calma aí, Israel, aqui ninguém mata ninguém, o único perigo é que nos contem histórias que não queremos ouvir”. Enfim, a verdade é que o Israel passa demasiado tempo a pensar em crimes violentos e chefes de Estado assassinados. Há demasiado sangue naquela cabeça, demasiada propensão para o crime – acredito que, quando vê um guardanapo, pensa em sete formas de sufocar alguém com ele. Acho que temos de ter cuidado com o gajo, pá. Seja como for, a questão é esta: o príncipe da literatura moçambicana, tal como qualquer presidente, não precisará de rodriguinhos, e poderá calcar o chão de Lisboa a seu bel-prazer, que nem rosas no chão nem tiros no ar lhe irão dar cabo dos dias. Como se diz “bem-vindo” em changana?


Ana Bárbara Pedrosa

Veio para Lisboa estudar Literatura em 2012. Daqui só saiu para o Brasil, onde, à portuguesa, teve saudades dia e noite. Regressada, escreveu Lisboa, chão sagrado e a cidade foi a diva onde se perderam personagens. Anos depois, numa casa em Benfica, foi ao Médio Oriente e escreveu Palavra do Senhor. No mesmo sítio, meteu a cabeça em Vizela e escreveu Amor estragado. Para os de cá, tem sotaque minhoto; para os de lá, engravatado.

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