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Lisboa, com a sua luz singular, foi desde sempre uma cidade boa para namorar. Em adolescente, calcorreei-a com um rapaz pelintra de quem gostava e que nunca tinha gasolina na moto; e, mais tarde, palmilhei-a de lés a lés com um namorado que a conhecia intimamente, subindo ruas estreitinhas e desconhecidas que desembocavam inesperadamente em praças silenciosas, autênticos oásis na capital.

A minha mãe quase centenária contou-me que, na sua juventude, apesar de apanharem o eléctrico para o liceu ou para o emprego (ela morava junto à Sé), as raparigas do bairro sabiam que andar a pé se tornava fundamental para arranjar namorado, pois era quase sempre na rua que tudo começava.

Duas irmãs ou amigas saíam juntas de um café ou de uma loja e, pouco depois, apercebiam-se de que levavam um rapaz atrás delas. O objectivo dele era descobrir onde morava a eleita, para assim a poder esperar, elegante e penteado, noutra ocasião qualquer – e então, sim, tentar a sorte de uma conversa.

Porém, segundo a minha mãe, nem todos se deixavam estar caladinhos durante a perseguição, havendo mesmo quem se atrevesse a umas insinuações bastante grosseiras, situação, aliás, em que ela se encontrou mais de uma vez.

De uma delas, percebendo o desconforto, veio em seu auxílio um rapaz entroncado que disse ao autor dos insultos ser parente da ofendida e o ameaçou com uns valentes socos. Contudo, assim que viu o outro dar à sola, confessou à minha mãe que só tomara aquela atitude para poder ser ele a acompanhá-la a casa…

Não fazia, infelizmente para ele, o tipo físico da minha mãe, que nessa altura andava caidinha por um jogador de hóquei com quem, certa tarde, trocava risinhos junto à igreja de Santo António quando um vizinho que gostava dela mas não era correspondido a surpreendeu naquela alegria esfusiante, indo logo contar tudo à minha avó.

Resultado: quando a pobre da minha mãe chegou a casa, tinha duas bofetadas à espera: uma por estar a conversar com um desconhecido no meio da rua; a outra por ter deixado sobre a secretária do quarto, à vista de todos, a interminável lista dos seus pretendentes…

Entre estes, talvez estivesse o morenão que se lhe ofereceu ao balcão de um café depois de a ter ouvido pedir – vejam lá – um “garoto escuro”. Só que ela preferia os loiros, especialmente se tivessem bigode, características que reunia um tal Ernesto, seu colega no curso nocturno de Inglês, que, pouco depois de se terem conhecido, logo a pediu em casamento, deixando-a baralhada e dividida, porque, ao que parece, o meu pai já dera igualmente os primeiros passos para um namoro sério.

E foi ele, o meu progenitor – moreno e tudo, mas com muitíssima lábia –, quem conseguiu destronar a longa lista de pretendentes da minha mãe: não só escreveu à minha avó, manifestando as suas intenções – e dizendo, de caminho, que achava que uma rapariga séria não devia andar por aí sozinha na rua à noite, mesmo que fosse para estudar inglês –, como também, depois de saber daquela intempestiva declaração de amor do loiro Ernesto, se ofereceu para escrever uma cartinha a declinar a proposta, que a minha mãe só teria de copiar e meter no marco do correio…

Segundo a pretendida, a dita carta ainda está guardada lá em casa, dentro de algum gavetão. O meu pai é que já se foi embora há muito tempo.


Maria do Rosário Pedreira

Nasceu em Lisboa e nunca pensou viver noutra cidade. É editora, tendo-se especializado na descoberta de novos autores portugueses. Escreve poesia, ficção, crónica e literatura infanto-juvenil, estando traduzida em várias línguas. Tem um blogue sobre livros e edição e é letrista de fado.

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1 Comentário

  1. Gostei…
    Tive outras mais ou menos- mais tarde, talvez fôsse por eu adorable andar a pé da Praça do Comércio até ao cimo da AV. da Liberdade, ao Camões, à Av. De Roma, ou à Estrela…
    Lisboa é traiçoeira, ela empurra-nos para qualsuer lado. Um abraço!

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