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Nasceram em outubro de 2021, depois das eleições autárquicas, e como coletivo que clamava por “mais bicicletas” e pela manutenção da ciclovia na Avenida Almirante Reis. Esta semana, depois de muitas reuniões, assembleias e petições, tiveram a notícia de que esta deverá prevalecer, segundo intenção anunciada esta quarta-feira pela própria autarquia. E assim se pode dizer que o Lisboa Possível acabou de ganhar pontos em direção à sua visão da cidade, menos dominada pelo automóvel. Essa possibilidade de uma outra Lisboa, com mais espaço e conforto para as pessoas – peões e bicicletas.

Ksenia Ashrafullina, russa, uma das principais faces do movimento, chegou a Lisboa há 10 anos para trabalhar numa startup com escritório na Rua Serpa Pinto, em pleno Chiado. “Foi um primeiro impacto de amor, achei tudo giríssimo, embora já tivesse conhecido muitas outras cidades”, diz. Mas o tempo passou e, hoje, quando olha para a Rua Garrett, uma das ruas com mais tráfego pedonal da cidade, só consegue reparar nos “carros a passar e duas filas de estacionamento”. Parece-lhe “um atraso civilizacional, uma viagem aos anos 80”.

“É inaceitável darmos tanto espaço aos carros, em vez [de o darmos] a pessoas”

Ksenia, Lisboa Possível

Ksenia encara o espaço concedido ao automóvel como uma “pobreza da imaginação”, mas olha para Lisboa “como uma das maravilhas do mundo”. “Quero preservá-la”, garante.

Rita Prates também dá a cara pelo movimento. Cresceu em Lisboa, “formatada” num estilo de vida “de carro para todo o lado”. Foi o trabalho fora do país que a levou a encarar os espaços da cidade de outro modo. No início da sua experiência profissional em Lyon, achava “quase exótico toda a gente a andar de bicicleta”.

E rendeu-se. “Passei a andar de bicicleta para todo o lado. Podes parar em qualquer sítio, não tens de esperar pelo transporte, é super libertador”. Quando regressou à cidade que a viu nascer e crescer, Rita trouxe consigo uma interrogação: “Se lá fazia, por que é que aqui não faço?”. Comprou uma bicicleta elétrica e constatou, afinal, que “é possível”.

Rita (esquerda) e Ksenia (direita), do coletivo cívico Lisboa Possível. Foto: Inês Leote

Ksenia, Rita e mais três pessoas são o núcleo duro do coletivo cívico Lisboa Possível. Esforçam-se por “desfazer uma ideia errada de progresso” em Lisboa, considerando que “a imaginação está entalada num paradigma do passado”. E é precisamente à imaginação que o coletivo apela. Numa chuvosa tarde de fins de março, foram até ao pequeno Largo Luiz Francisco Rebello, um espaço de esplanadas, onde se consegue ouvir a conversa de quem se senta. É um espaço sem carros, que se descobre, ali mesmo, em plena Rua Garrett. Um exemplo daquilo que a cidade pode ser.

“Choramingar não traz mudança”

Quando a vontade é mudar a cidade para melhor, “choramingar não vale a pena”, diz Ksenia. “Não traz a mudança”.

O Lisboa Possível faz diferente: grava podcasts em vídeo, publicados no YouTube, e escolhe deliberadamente comunicar através de uma “estratégia da palavra”. Inspirados na comunicação de autarcas como Ada Colau, de Barcelona, ou Anne Hidalgo, de Paris, procuram “encontrar a palavra, inventar a expressão certa para passar a ideia”.

No final de 2021, Rita e Ksenia intervieram numa audição pública da Câmara Municipal de Lisboa com uma proposta que propõs a reflexão em torno de duas visões de futuro da cidade – uma com mais carros, outra com menos. Deram nas vistas.

Tentam ser “divertidos” e procuram as “metáforas”, as imagens, as cores. Ksenia promove o lema “test and learn” – testar e aprender. Quando não funciona, experimenta outra coisa. Ainda não têm o alcance que desejam, mas já têm várias conquistas para mostrar – procuram reunir com quem decide a cidade e intervêm sempre que há palco.

“Se sairmos da nossa frustração privada com a cidade e começarmos a dizer que somos muitos, podemos convencer os políticos e podemos fazer pressão [para lhes dizermos] que queremos outra cidade”

Ksenia, Lisboa Possível

“A nossa missão é tentar chegar aos políticos, mas também às pessoas frustradas, que acham que é impossível”, diz.

Este ano, reuniram com o arquiteto paisagista João Castro, responsável pelo processo participativo que vai decidir o futuro da Avenida Almirante Reis, e com o vereador Ângelo Pereira, com a pasta da mobilidade. Marcaram audiências. Foram recebidos. E os relatos do encontros foram publicados no blog do coletivo.

Mil pessoas na rua e três mil em petição

No dia 19 de outubro de 2021, a concentração, uma das maiores de sempre, em Lisboa em defesa da mobilidade sustentável e da ciclovia da Avenida Almirante Reis, foi o início organizado do coletivo. “A Lisboa Possível que estava ali na história da ciclovia da Almirante Reis, começou a tocar mais uma data de pontos”.

Foi a demonstração de uma “indignação que não se limitava à Almirante Reis e se estendia à cidade toda: da falta de ciclovias, da falta de condições das estradas, da falta de condições de mobilidade e do quão longe Lisboa estava de uma cidade sustentável”, explica Rita.

Hoje, a visão de cidade do coletivo é mais abrangente, procura defender quem se desloca a pé, de bicicleta, quem utiliza o transporte público e quem tem a sua mobilidade condicionada.

Aquela tarde de outubro juntou reivindicações urbanas. Foi, nas palavras de Ksenia, uma “erupção de vontades”. Com o apoio da Lisboa Possível e de dezenas de outros coletivos e movimentos da sociedade civil, como o Caracol POP, responsável pela proposta mais votada de sempre ao Orçamento Participativo de Lisboa, para a construção do Jardim do Caracol da Penha, ou a cooperativa Rizoma, foram naquela tarde recolhidas dezenas de assinaturas para uma petição que pretendia o lançamento de um processo participado para a construção do futuro da Avenida Almirante Reis – que Carlos Moedas tinha garantido, em campanha, ir acabar.

Logo em dezembro, foram entregues na Assembleia Municipal de Lisboa 2900 assinaturas, em papel. A posição da Lisboa Possível foi inequívoca: “Manter a ciclovia. Uma Almirante Reis mais verde. Querem mudá-la para a direita? Para a esquerda? Isso a mim não interessa, tem é de haver ali uma ciclovia”, sublinha Rita.

Autocolantes por uma Baixa com ciclovias

Depois de vencida a luta pela manutenção da Avenida Almirante Reis – a CML grantiu, esta semana, que vai avançar com uma reformulação, mantendo-a – o coletivo tem nova bandeira: querem ciclovias na Baixa, ligando a infraestrutura ciclável já existente na Avenida da Liberdade e na Avenida Almirante Reis ao rio e à restante rede.

“A Baixa é onde acabam todos os farrapos”, diz Ksenia, numa alusão a troços da rede ciclável que não se encontram ligados entre si.

No autocolante criado pelo coletivo Lisboa Possível para reivindicar ciclovias na Baixa, lê-se Apoiamos a Baixa Ciclável. Foto: Inês Leote

Dentro do coletivo, reina a sensação de terem contribuído para o sucesso da campanha e para o lançamento de um processo de auscultação das pessoas, com o futuro da Avenida Almirante Reis em pano de fundo. “Sei quantas assinaturas levei para aquele número”, conta Ksenia, que, na altura, passou tempo nas praças, a falar com as pessoas, a perceber o que sentiam e a procurar assinaturas.

Ksenia a recolher assinaturas pela construção de uma rede de ciclovias na Baixa.

O coletivo continua agora o seu percurso, desta feita com os olhos postos em nova meta. Lançaram uma petição pela construção de uma rede de ciclovias na Baixa, que conta, já, com mais de 500 assinaturas. Querem chegar às mil e querem, depois, levá-las até à assembleia municipal e à câmara. Criaram um autocolante para espalhar a mensagem e colam-no nas montras de comerciantes que aderem à ideia.

Dizem que pedalar na Baixa “só com uma bicicleta de montanha e frio na espinha”. “É como andar a trote, de cavalo, por causa dos buracos”, diz Rita. O “frio na espinha”, esse, surge com “as razias dos carros”.

“Há cada vez mais pressão dentro da sociedade civil para que este tipo de mobilidade exista. [As pessoas eleitas] Vão ter menos medo do eleitorado, porque vão ver que há mais pessoas interessadas nisto”

Rita, Lisboa Possível

Rita acredita nos resultados do trabalho que estão a desenvolver. Sente que estão a dar uma visão de vontades, até então invisíveis, a quem tem o poder de decisão política. “Estão a ver que há cada vez mais pressão dentro da sociedade civil para que este tipo de mobilidade exista. Vão ter menos medo do eleitorado, porque vão ver que há mais pessoas interessadas nisto”.

Por enquanto, Rita, Ksenia e os companheiros estão a ganhar.


Frederico Raposo

Nasceu em Lisboa, há 30 anos, mas sempre fez a sua vida à porta da cidade. Raramente lá entrava. Foi quando iniciou a faculdade que começou a viver Lisboa. É uma cidade ainda por concretizar. Mais ou menos como as outras. Sustentável, progressista, com espaço e oportunidade para todas as pessoas – são ideias que moldam o seu passo pelas ruas. A forma como se desloca – quase sempre de bicicleta –, o uso que dá aos espaços, o jornalismo que produz.

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2 Comentários

  1. Excelente artigo, mais uma vez. O Jornalismo d’A Mensagem é sempre muito bom.

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