Agualva Cacém
A célebre Avenida dos Bons Amigos, em Agualva-Cacém

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Há dois trajetos diferentes que têm deixado marcas na minha jornada de afirmação pessoal. Primeiro, foi o percurso casa-escola. Agora, é o percurso casa-faculdade. Ambos se intersectam na linha de Sintra. Mais concretamente, na estação ferroviária de Agualva-Cacém.

Em homenagem ao Paul, o turista canadiano (auto-confesso “fã do brutalismo”) que seguia certo dia de verão ao meu lado no comboio, tirando fotografias às urbanizações de betão armado monocromáticas que ladeiam o caminho ferroviário, decidi fazer de guia turístico de Agualva-Cacém, ou, como veremos, da minha entrada na idade adulta.

Não falaremos apenas de caras bonitas ou de lugares históricos: vamos explorar sonoridades, ambientes e memórias que transformam a zona-dormitório num lugar desperto e cheio do seu próprio caráter e interesse turístico.

Começar o dia

Fui aluno da Escola Secundária Ferreira Dias, em Agualva. Pesem embora as arbitrariedades de horários diferentes de ano para ano, as memórias mais vivas que tenho são, claro, as de me enfiar no carro do meu pai às sete e meia da manhã para ir mais cedo para a escola.

Só entrava às oito e um quarto. Podia ir a pé, eram só quinze minutos. Em dias de chuva, essa ideia passava rapidamente, porque o caminho ainda era ventoso, a descer e sem prédios debaixo dos quais me abrigar. Além disso, era um momento de ligação importante, uma boa rotina que me deixa saudades duplas hoje: não só as da própria, como do meu pai também.

Curiosa viagem, esta: saíamos de carro de casa e acabávamos por usá-lo para andar pouquinho, muito pouquinho. Não chegava a dois quilómetros em linha reta. A distância que separa o meu apartamento de khrushchyovka (betão armado) do resto do mundo é geograficamente curta mas estruturalmente longa e sinuosa. Moro no fundo de uma encosta. O meu caminho para a estação é a subir para ambos os lados.

De manhã, pouco se vê em Agualva-Cacém. Todos os dias se fala dos engarrafamentos no IC-19 “da área de serviço do Cacém à reta dos Comandos”. Esse festim de carros em diversos tons de cinzento com condutores de espírito cromaticamente equiparável peca por ser pouco memorável e tornar o ar irrespirável.

O cruzamento pedonal em cima do IC-19

A cidade está a acordar ainda: os cantoneiros continuam a fazer as rondas aos moloks (lixo), as padarias começam a abrir, há fila à porta de diversos serviços administrativos e do centro de saúde.

Falta a toda a gente ainda o primeiro café da manhã.

A vitalidade surge pelas dez. É a altura ideal para visitar e começar o dia com o pequeno-almoço num café típico. Estes não se somem, mas os franchisings de fora não duram muito. Um sintrense faria referência aos travesseiros e às queijadas, mas um cacenense diria, sem problemas, que a sandes mista e o galão na Mina dos Amigos também podem ser habituais.

Deixemos as especialidades para quem a elas se dedica.

A escola e a sua órbita

Nos últimos anos do secundário, tinha a tendência para almoçar numa galeria comercial, quase a ser promovida a shopping center, na rua da Ferreira, o Agualva Shopping.

No andar de cima, havia restaurantes (outrora, uma Pizza Hut) e uma esplanada interior que enchia por volta da uma da tarde com adolescentes e trabalhadores locais.

Lugar simpático, era para onde batíamos em retirada quando era dia de peixe na cantina.
Depois de almoço e antes de voltar às aulas, passava pelo café da Dina. Não me recordo do nome ao certo. Era na galeria comercial do prédio ao lado, num sítio algo manhoso onde podiam fumar sem se chatearem com a proprietária. Tomava lá o cafezinho, fingia que era adulto e voltava para a aula de Biologia. Havia no meio dessa galeria comercial uma fonte.

Ainda não entrei lá de novo para ver se está funcional.

Aprendi a conduzir numa escola de condução na Avenida dos Bons Amigos. Ainda me recordo de esperar por uma aula de código no jardim e a ler os Dez Dias que Abalaram o Mundo do John Reed.

Há aí uma estátua a honrar a figura do professor primário, de Anjos Teixeira, com duas crianças de bronze. Embora a intenção e o tom sejam claramente outros, a estátua representa, para mim, o Cacém – ou, aliás, a amorfa “periferia” – para os seus mais jovens residentes: espaço de crescimento, contacto, aprendizagem e qualificação para um futuro possível.

A estátua do professor primário Anjos Teixeira, no jardim da Avenida Bons Amigos, em Agualva-Cacém.

Recomenda-se, assim, um pequeno passeio a subir a Avenida dos Bons Amigos, atentando na diversidade de rostos – e expressões – que a desce rumo à estação. Pese embora o seu diminuto tamanho, é uma vigorosa artéria urbana. A cada pulsação, um olhar e uma memória diferente.

Foi aqui que meti o aparelho nos dentes. Foi ali, na biblioteca, que li o Livro de Cesário Verde pela primeira vez. Foi aqui que aprendi a fazer o ponto de embraiagem. Os amigos nem sempre são bons, mas as memórias mantêm-se.

Por entre a Praceta da Fraternidade Universal, o Largo Aristides de Sousa Mendes e a Ponte Luís Lázaro Zamenhof se formaram muitos monólogos internos da minha crise eriksoniana da adolescência.

Hoje, só penso em como vivi tantos anos na sombra dos prédios velhos sem me lembrar de olhar para cima e ao meu redor de vez em quando. Culturas, aprendizagens e sonoridades que se difundem por osmose para dentro da identidade em formação.

Conheci figuras da música, do desporto e da arte. Conheci quem outros conhecesse. As barreiras acústicas que ladeiam a Ferreira do lado do caminho de ferro estão completamente cobertas por murais. Um deles, que retrata a figura de José Saramago, apareceu-me num livro de Português – todos ficámos fascinados por ter representação daquele nosso “bocado de terra esquecida” em algo de fora. O meu preferido, contudo, é o mural ao eterno Zeca Afonso que, simples, inscreve “Utopia” (nome igualmente do artista) na fronteira entre comboios e pessoas.

O mural de Zeca Afonso.

A Utopia deve ser essa. A coexistência perfeita entre arte, vida quotidiana e realização dos desígnios do ser humano. Sendo, porém, científico, não consigo deixar de refletir, sempre que por ali passo, na beleza cruel da vida quotidiana no Cacém: a dança de carros e autocarros, pais com filhos levados pela mão, inúmeros estilos de moda e de vida, incontáveis línguas faladas daqui a Kathmandu, tanta gente que enche comboios com condições e desafios tão semelhantes, mas desejos e ideias tão díspares.

Recomenda-se, pois, que o turista e o Paul se prendam à realidade suburbana e não caiam no papel do flâneur desinteressado.

Entrem em lojas. Falem com as pessoas. Digam “bom dia”. Percam tempo.

A sorte é que costuma fazer sol e bom tempo durante o dia, o que faz o Cacém ganhar em amenidade a qualquer zona urbana central do norte e centro da Europa.

Não se enganem: o Cacém não é uma cidade pedonal nem ciclável. O turista deve vir precavido e o Paul deve ter cuidado ao atravessar a estrada.


* Aprendiz de médico cacenense em Lisboa. Adepto de transportes coletivos. Militante pela defesa da imprensa estudantil e apaixonado por Saúde, ética, política e o que sobra. Sou mais interessante ao vivo.

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14 Comentários

  1. Excelente analogia. Sou brasileiro, vivo no Cacém há três anos e gosto muito dessa zona. Muito me familiarizo com suas indicações, são muitas as memórias… Parabéns.

  2. O Cacém nem sempre foi como o descreve 😉 , vivo no Cacém há quase 54 anos e era tão diferente , saudades das quintas e das vivendas que foram substituídas pelos blocos de betão .
    Obrigada pelo artigo .

  3. Tivesse ele conhecido o Cacém como eu conheci, nessa altura sim podia-se dizer que o Cacém era lindo.
    Mas ele fala apenas do que conhece claro.
    Eu pessoalmente e como conheci o Cacém noutros tempos não acho que tenha nada de extraordinário

  4. Cresci no cacém, vivi no e o cacem como secalhar poucos viveram, foram tempos excelentes em que não os trocaria pela melhor cidade do mundo.
    O cacem não é só o que se vê, mas o que faz sentir, o saber crescer nessa cidade é algo que muitos não percebem só de a visitar.
    Excelente texto.
    Parabéns.

  5. Muito bom. Vivi no Cacém mas a IC19 e o isolamento do trabalhador que sai às 7 e volta as 22h no comboio da linha de sintra, nao era nada acolhedor. Nunca tive qq problema mas era muito cansativo. Teresa Florentino

  6. Vivi no Cacém 11 anos. Brinquei na avenida dos bons amigos, estudei na escola do shopping, na António Sérgio. Ainda sou do tempo em que se vinha do Cacém de cima, e tinha que se fazer a avenida dos missionários toda a pé… A alternativa era passar por umas pedras na ribeira e arriscar um banho mal cheiroso…. Ainda havia a Capri, o barbeiro do sr João em frente é a loja dos brinquedos da d. Dolores. Havia um parque infantil em frente ao clube Unidos do Cacém. Ainda era no tempo em que havia vivendas, jardins, a quinta da bela vista ao abandono…. Mas podia se brincar na rua até tarde. E toda a gente conhecia toda a gente

  7. Que texto mais fabuloso , belo e que me inunda o coração de saudade das duas vezes indo a Portugal ( Lisboa) , fiquei no Cacém . Meu deus quanta saudade do Cacem . Quanta saudade de passear a noite e o frio cortante juntamente com sua garoa que me enchia de prazer ao senti-los . A leitura do texto me remeteu e me colocou em cada local , sua, loja , mercado , padaria e cafés quando estive no Cacem . A saudade deste local não cabem no peito …

  8. Que mais posso dizer é que essa av dos bons amigos era bastante conhecida por condutores por av das passadeiras, estão a imaginar um veículo pesado recomeçar a marcha, e os condutores dos ligeiros, era só muzica

  9. Não entendo todo este saudosismo para com uma das piores localidades da periferia da capital… Uma sandes mista na Mina dos Amigos? Ahaha, pagar 6€ por um pequeno-almoço com vista privilegiada para Nairóbi. Enfim, mas algum turista quer vir aqui? Ver o quê? Os idosos a morrer sozinhos nas suas casas a cheirar a humidade, fezes e cães molhados? Ou ir à Praceta das Palmeiras e comprar 10€ de Haxixe, enrolar um charro, e vir a fumá-lo pelos Bons Amigos abaixo, e chegando à estação, já lhe dando a fome, comprar uma chouriça de restos da Silau, feitas na 4.ª Cave Direita de um apartamento qualquer da Rua Elias Garcia? Logo de seguida, a sobremesa, uma maçaroca de milho cozido com um leve toque de chulé…. Humm, pequenos prazeres, estimular a economia paralela. Por fim, e para acabar a excursão, um passeio pelo parque ali pertinho, para comprar mais um conto de chamon ou, OU, regressar para o interior da estação e sofrer um forte soco na nuca, para de seguida acordar no Hospital Amadora-Sintra descobrindo então que foi assaltado por um jovem de 15 anos que acordou revoltado com o facto de um cavalheiro estrangeiro vir para a sua cidade tirar fotos. Sim, esse jovem que representa toda uma geração de jovens descontentes com o seu insucesso escolar e buscam saídas pecaminosas. Após a alta hospitalar, o turista regressa ao seu Hotel Boutique no Chiado e o Cacém continuará aqui, neste buraco esquecido por baixo do IC 19, a espreitar o Belas Club de Campo por cima da Carregueira, sabendo que todos os problemas sociais aqui existente irão continuar, para sempre. Posso parecer revoltado ou desfasado do objectivo da crónica, mas sou apenas realista, um contraste com a autêntica falta de noção da realidade Cacenense deste Pedro Vilão Silva.

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