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Indeciso sobre usar a palavra sorte ou privilégio, o que é certo é que a minha vida não teria sido o que é sem duas decisões que de mim não dependeram: ter nascido em Lisboa e ter vivido no Pátio 112. Ter nascido em Lisboa fez de mim uma pessoa cosmopolita; ter crescido no pátio 112 uma pessoa sociável.

Como digo, nada dependeu de mim, mas de circunstâncias do tempo e de decisões sempre tomadas mais na aventura do desconhecido do que na certeza de um futuro melhor. Os meus pais, nascidos na Beira Alta, tiveram que sair das suas aldeias perdidas na serra, sem cultura nem condições de vida, à procura de um futuro melhor. Não foram os únicos, basta ver a história dos anos 40, 50 e 60 do século passado para perceber o que foi a mobilidade e as deslocações do interior para o litoral.

Bairro Chinês, em Marvila. Foto: Arquivo Municipal de Lisboa

Desde criança, ouvia as histórias daquele tempo, em que o não ter nada não era excessivo nem figurativo e muitos portugueses, e a minha família também, em vez de arriscarem a emigração decidiram vir para Lisboa. Instalaram-se onde os seus conterrâneos já se tinham estabelecido, no famoso Bairro Chinês, em Marvila, nas barracas do “cano da água”.

O Bairro Chinês era, ao mesmo tempo, uma cidade com ambiente de aldeia. Uma cidade porque ninguém imaginaria quantas pessoas poderiam viver numa barraca; uma aldeia porque toda a gente se conhecia e respeitava. Apesar de as condições de higiene serem mínimas (barracas com telhado de chapa, ruas barrentas, pequenas ruas labirínticas e desniveladas), o que é certo é que as casas, por dentro, estavam muito bem equipadas e asseadas. Com muita dignidade, não se comparavam às então recentes torres construídas em Chelas.

Eu não vivi no “cano da água”, mas ainda o conheci bem. Cresci, como disse, no Pátio 112. Se de um lado da rua estavam as barracas, do outro lado estavam os pátios. O Pátio 112 era mais um. A rua era, de facto, o risco que fazia a separação. Empedrada, com muito comércio ao fim de semana, começava no campo da bola do Clube Oriental de Lisboa e terminava na passagem da linha dos comboios entre Marvila e Braço de Prata.

Cada pátio era diferente, a começar pelos seus vizinhos. Mas a estrutura era sempre a mesma: um portão, aberto durante o dia e fechado à noite, com uma rua cimentada até ao seu fim e casas de um lado e de outro.

O Pátio 112 tinha, no entanto, quatro particularidades: além das casas onde vivíamos, tinha a D. Susete que vendia roupa na rua e tinha no pátio o seu pequeno armazém, a taberna do Sr. Salvador, que servia no verão uns caracóis sem rival, o Sr. Justino que era alfaiate e o Tio Manuel que era sapateiro.

Apesar do seu imponente portão verde-escuro, era um pátio aberto, com bastante movimentação. Havia também no pátio um gato, de pelo preto brilhante, que era de todos e não era de ninguém, baptizado com o mesmo nome do pátio: Cento e Doze.

Além deste pequeno comércio local, o pátio tinha os seus habitantes. Pertencia a três senhorias, irmãs entre elas, e cada uma recebia a renda do aluguer dos seus lotes. Nós pagávamos a renda à D. Etelvina. As casas eram todas pequenas e sem grande diferença entre elas: uma cozinha, uma sala e um quarto. Só as senhorias tinham casa de banho na sua casa e todos os outros moradores do pátio tinham duas casas de banho comunitárias. Não tenho ideia como é que se marcavam os banhos, mas o que é certo é que funcionava.

À medida que a família ia aumentando em número e em disponibilidade financeira, já se podia ser mais ousado: pedir para fazer obras de ampliação na casa ou mudar de casa. Alguns vizinhos meus optaram por sair, os meus pais por ampliar. E aquele pequeno T2 foi aumentado, numa primeira fase para cima, depois para a frente e, finalmente para o lado, com a compra da casa que, entretanto, vagara. Apesar de ter aparência de um condomínio pobre, o que é certo é que o pátio dava segurança, conhecíamo-nos todos, e nós, mais novos, éramos controlados pelos vizinhos que iam deitando o olho.

E perguntará o leitor: qual foi a sorte ou o privilégio? Antes de mais o ter podido partilhar a minha vida com pessoas que me viram nascer e crescer; depois, o sentido de pertença e de responsabilidade; também ainda o espírito de família e de entreajuda que se criava e, finalmente, o que me educou para a vida.

O Pátio 112 não era um pátio “dormitório”, no Pátio 112 era impensável passar pelos vizinhos e não lhes falar (e às vezes até ter de responder ao que nos perguntavam); no Pátio 112 podia-se brincar (andar de triciclo, jogar à bola e ao pião…), sempre respeitando a roupa estendida ou as horas em que não se podia fazer barulho. De certa maneira preparou-me para a vida comunitária que vinte anos depois viria a abraçar, trocando o pátio por um convento.

No final dos anos 90 do século passado, foi tudo abaixo: as barracas e os pátios. Daquele tempo só continua a rua, agora alcatroada. No lugar das barracas construíram prédios e no lugar dos pátios, quintais (ou hortas urbanas, como agora se chamam).

(Para um estudo mais histórico e social é indispensável a leitura da tese de Mestrado de Maria Margarida de Almeida Reis e Silva, com o título “Pátios e Vilas da Zona Ribeirinha Oriental: Materialidade, memória e recuperação urbana”, disponível em https://repositorio.iscte-iul.pt/handle/10071/6967).


Nasceu e cresceu em Marvila, Lisboa, há 46 anos. E há 23 que vive em São Domingos de Benfica. Frade dominicano, de 46 anos, a sua vida divide-se entre o convento e a cidade, sobretudo no apoio aos mais pobres, como voluntário da Associação João 13. Escreve por gosto e também por necessidade.

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3 Comentários

  1. Excelente descrição do bairro chinês e sua envolvente. Era realmente isso tudo, mais a liberdade de brincar na rua o dia todo sem preocupações. Não havia NET nem Telemóveis e por essas razões os putos eram completamente livres. E dali saíram grandes homens.

  2. Excelente artigo de frei Filipe Rodrigues, com a descrição poetica- do Patio 112. A saudade e a alegria são recorrentes em todo o texto, assim como o movimento das pessoas no seu quotidiano e na relação familiar entre os moradores do do Pátio.
    Relações, amizade, por ventura zangas e arrufos, mas sobretudo laços que aproximam os corações.

  3. Não nasci nem vivi infância em pátios bem em Lisboa ,mas sim em Luanda Angola ,em imóveis de condomínio ,que tínhamos precisamente o que havia no pátio 112 e mais ainda ,clima mágico e gentes de todas etnias e éramos todos muito felizes …
    Até que uns iluminados das trevas conseguiram transformar nossas vidas e “pátios” em autêntico inferno ,pois acabaram com esta vida ,mágica ,linda e repleta felicidade …

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