António Gomes diante da oliveira que guarda as cinzas do escritor José Saramago, no Campo das Cebolas. Leitor voraz de todos os romances, mesmo antes de assumir a missão.

Há cerca de uma década, tem sido assim: uma vez por ano, António Gomes recolhe as ferramentas de jardinagem e a escada de metal para cultivar a memória da literatura portuguesa. Não é uma simples metáfora. Canadiano, descendente de portugueses, António é o responsável pelos cuidados da frondosa oliveira do Campo das Cebolas onde repousam as cinzas do escritor José Saramago em frente à Casa dos Bicos.

António Gomes, em simbiose com a oliveira que cuida desde que chegou a Casa dos Bicos, há cerca de uma década.

Foi assim por estes dias de abril, quando a silhueta magra, a calva e os óculos de António poderiam induzir quem passava pelo Campo das Cebolas a pensar ser o próprio Saramago quem se equilibrava sobre a escada, serra e tesoura às mãos, a podar os ramos da oliveira. “Talvez o pensem, mas nunca o disseram”, diz António, acostumado a ser abordado pelos passantes, em pleno ofício.

“Comoveu-me como Saramago deu um caráter humano à fria figura da Morte, antagonista do homem que acaba por estabelecer uma empatia com ele.”

António Gomes

Deparar-se com Saramago a podar a sua oliveira seria uma cena digna de As Intermitências da Morte, o livro favorito do fiel jardineiro do Nobel português. “Por anos, foi Ensaio sobre a Cegueira, até lê-lo. Comoveu-me como Saramago deu um caráter humano à fria figura da Morte, antagonista do homem que acaba por estabelecer uma empatia com ele”, conta António, engolido pelos ramos, em simbiose com a árvore, a entrevista a decorrer em paralelo com a extenuante poda.

Leitor de Saramago no Canadá

Mirando-o do passeio, ofuscado pelos raios de sol que varam a copa da árvore, pergunto se ter lido os livros do escritor é um requisito para se trabalhar na Fundação José Saramago. António acha piada: “Poderia ser, mas não é. Já era leitor antes disto. Era leitor dele desde os tempos em que vivi no Canadá.”  

Além da poda regular, António também gere a manutenção do património da Fundação.

Nascido em Québec há 55 anos, filho de emigrantes, António passou a adolescência na Guarda, quando foi apresentado à literatura dos seus antepassados. Ao regressar ao país natal, desta feita para Toronto e já adulto, era um leitor voraz de Saramago. Lia-o em português, isto anos, décadas antes de imaginar que um dia seria responsável por zelar não só pela oliveira, mas pela manutenção de todo património gerido pela Fundação.

Formado em arquitetura de interiores, António estabeleceu-se em Lisboa nos anos 2000. O convite para trabalhar na Fundação José Saramago viria em 2012, feito pela própria Pilar Del Rio, que o conhecia de trabalhos anteriores e disse precisar de alguém com o perfil multitarefa dele. Não pensou duas vezes. “Estava no sítio certo e na hora certa. Hoje, organizo os arquivos, monto as exposições, mexo em tudo”, resume.

Uma oliveira sensível que já deu azeitonas

Enquanto regula a pressão do parafuso na tesoura de poda, com uma moeda de dez cêntimos a fazer as vezes de chave de fenda, António lembra-se dos primeiros anos de contacto com a centenária oliveira, trazida “adulta” da Azinhaga, a terra de Saramago. “No início, a árvore demorou a pegar. Depois, fincou raízes e deu frutos. No Natal, os funcionários da Fundação recebiam um pote com as azeitonas da árvore”, conta.

Foi assim até a recente reabilitação urbanística no Campo das Cebolas, em 2018. Se José Saramago foi lembrado para dar nome ao largo que surgiu da requalificação – uma forma de Câmara de Lisboa marcar os 20 anos da atribuição do Nobel de Literatura ao português – a ampliação da área pavimentada retirou parte do jardim ao pé da oliveira e reduziu a porção de terra no entorno da mesma.

A escolha da oliveira para lar das cinzas de Saramago remonta a infância do escritor, na Azinhaga

A árvore parece ter sentido os efeitos e, nos últimos anos, por coincidência ou não, os funcionários da Fundação não contam mais com as azeitonas no cabaz de Natal. Paciente e otimista, António sabe que o tempo pode outra vez dar a volta à situação e, novamente, a centenária oliveira responder às adversidades. O fiel jardineiro faz a sua parte e rega-lhe o tronco com o regador que, subitamente, surge nas suas mãos.

Assim como o personagem do livro favorito, o jardineiro usa o talento para driblar a morte.

A escolha da oliveira para lar das cinzas de Saramago remonta à infância do escritor, na Azinhaga. Em algumas entrevistas, Saramago mencionou o cenário da aldeia onde crescera, rodeada de oliveiras. O Nobel de Literatura lamentava ainda o fato de os olivais paulatinamente cederem espaço a culturas mais lucrativas, confessando que a mudança radical da paisagem era, para ele, uma espécie de “golpe no coração”.

Por isso, manter a integridade da oliveira é, de alguma forma, manter o coração de Saramago a pulsar. Uma alternativa de usar o talento para se driblar a morte, como fez o violoncelista do livro preferido do jardineiro fiel, ciente da importância de sua missão. A entrevista termina, mas não a poda, que, diletante, segue a liturgia da escrita de um romance, cada golpe da tesoura executado com a precisão de quem escolhe uma palavra.

Pois, convenhamos, manter as raízes firmes de Saramago em Lisboa é também uma forma de se fazer literatura.


Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 48 anos, há cinco em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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8 Comentários

  1. Detestava Saramago como pessoa.
    Mas leio as suas obras com o respeito devido a obras primas. Deleitando-me com algumas (muitas) passagens.
    Já a escolha da oliveira para depósito das cinzas (confesso que ignorava tal facto) leva-me a fazer-lhe uma imensa vénia. E vai daqui um Obrigado muito grande e sentido ao senhor António Gomes. Temos no nosso território oliveiras seculares. Mais antigas que o próprio reino de Portugal. Espero que esta atinja essas idades. Não para preservar a memória de um escritor. Mas como testemunho da existência de homens que souberam respeitar, e preservar, a Natureza.
    Obrigado pelo artigo.

  2. Parabéns Álvaro, pela escolha da pauta e pela trato às palavras nesta reportagem que é ao seu modo também uma crônica sobre a relação entre o cultivar a vida, a memória e a natureza.

  3. Conheço bem o António Gomes, sempre discreto e diligente nas sessões da Fundação, sempre amável e sorridente, esteja onde estiver. A última vez que nos cruzámos foi lá, na Livraria. Pensava eu que sabia “tudo”…, mas faltava descobrir “o jardineiro”. (E tudo “o resto”.) Que bonita mensagem/ homenagem!

  4. António que lindo… como tu. Abraço forte do Bentes de Serpa.

  5. Sou um dos muitos reformados que, com alguma acrobacia, se aguenta com o seu parco orçamento. Foi graças a alguns malabarismos que consegui comprar todos os livros de Saramago. É muito difícil eleger um favorito. Para me desculpar das minhas limitações, nomeio sempre três, os quais, por várias razões, me empolgam:
    São os ensaios (sobre a cegueira e sobre a lucidez) e as Intermitências da Morte.
    Este último é de uma acutilância e mordacidade que consegue a maravilha de transformar o nosso natural medo da morte numa enorme vontade de rir.
    Não acreditam? Leiam!
    Logo me darão razão.

  6. Parabéns pela dupla franqueza.
    É raro encontrar quem saiba destinguir a pessoa da sua obra. Obrigado!

  7. Que belíssimo texto, Álvaro! Parabéns! Uma imersão total na mais valiosa estética: desde o tema – o cultivo da memória de Saramago -, passando pela poesia que Antônio escreve na oliveira, até suas doces, belas e sábias palavras. Saramago estaria muito feliz com essa homenagem tão cuidadosa que vocês dois fazem!

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