Ilustração: Lia Ferreira

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Nos meus anos em Nova Iorque, fui anfitrião de muitos amigos e conhecidos portugueses. Em casa, depois de cumpridas as deambulações citadinas dos meus hóspedes e a minha jornada de trabalho, era frequente ouvir relatos de encontros não antecipados memoráveis, bastando alguns dias na cidade para que alguém se cruzasse com um Tom Cruise.

Vivi em Nova Iorque seis anos e só me recordo de três encontros acidentais com celebridades, nenhuma com o estatuto de mega-estrela: a cantora Alanis Morissette numa sala do museu Whitney, o maestro James Levine numa rua do Upper East Side e o actor John Malkovich à mesa de um restaurante de Greenwich Village. Foi uma colheita fraca, que ilustra o quão diferente é a forma como turistas e moradores se relacionam com uma cidade.

Só o tempo permite que a cidade nos colonize, somando às sensações imediatas do turista (visuais, auditivas, gustativas e olfactivas) a experiência táctil. Mas diante do simples morador que chega à cidade já adulto e não se enraíza, o indígena nova-iorquino depressa se demarcaria, lembrando que as suas sensações penetram até ao mais fundo da memória. Essa experiência só tenho com Lisboa.

Visitei com amigos o Zoo do Bronx numa manhã fria e de céu limpo, banal em Nova Iorque. Lembro-me de um percurso no monorail, que avança por áreas arborizadas onde podemos ver tigres e rinocerontes indianos, e de contemplar longamente os primatas através de um vidro, num espaço bem pensado para eles, muito semelhante às áreas do actual Jardim Zoológico de Lisboa, mas que me trouxe à memória o triste gorila enjaulado e prostrado numa área exígua e suja, uma lembrança de infância que apostaria ser comum à dos lisboetas da minha geração.

Terei visitado esse antigo Jardim Zoológico de Lisboa várias vezes quando era criança, pela mão dos meus pais, de outros familiares e também em visitas organizadas pela escola. A memória mistura já realidade e fantasia, pois convenci-me de que observei no ringue de patinagem o “professor preto muito direito a deslizar para trás no cimento em elipses vagarosas sem mover um músculo sequer”, que na verdade é uma memória de António lobo Antunes (Os Cus de Judas).

As boas memórias de infância reforçam o nosso lado conservador. Percebo o anacronismo crescente da tourada, mas não me mobilizo para acelerar o seu fim porque me lembro da afición do meu avô materno. Percebo quem se opõe à existência de Zoos nas cidades, mas nem aquele gorila triste me arregimenta, não por causa do argumento técnico de que os zoos contribuem para a conservação das espécies, antes pelas girafas que – quero acreditar – foram felizes em Sete Rios.

Até há uns dias, por mais activa que tivesse até então sido a comunidade ucraniana em Lisboa, Kyiv era uma cidade distante e ausente para os lisboetas. A esmagadora maioria de nós nem sequer estava equipado com a vã experiência do turismo na Ucrânia. Perante o risco de morte real, a desconcertante coragem do presidente Zelensky e dos civis que continuam a fazer fila para combater expôs o privilégio que é haver duas gerações em Portugal virgens de guerra.

E então começámos a apurar o ouvido para trocar “ Kiev” por “Kyiv” e tentar ao menos perceber se Zelensky fala em ucraniano ou se dirige em russo aos vizinhos, cumprindo uma espécie de exercícios elementares de empatia que nos habilitem a admirar aquele povo.

É também assim que deve ser entendida esta crónica, não como um impulso de fanatismo animalista, porque os animais do zoo de Kyiv contam muito menos do que os bebés, as  meninas e os meninos que ficaram no hospital pediátrico, as suas mães, e todos os ucranianos que, armados ou não, permanecem na cidade.

Penso nos 4000 animais do zoo de Kyiv à beira da fome, no seu único gorila, e imagino que por lá terão também a sua “aldeia dos macacos”, porque é uma forma de ancorar a Ucrânia à memória. E penso ainda no zoo de Kyiv pelo potencial de esperança. Com um jardim zoológico perto, o surrealismo está sempre iminente. E há alturas em que só o inverosímil nos dá alento. Basta um esquecimento ou um rocket tresmalhado para se ver a grande fauna africana nas ruas de uma metrópole eslava, as girafas entrelaçando o pescoço na haste da bandeira da praça da Independência e um tanque russo colhido pelo galope de uma manada de elefantes em fúria.


* Vasco M. Barreto é biólogo. Nasceu em Lisboa, cresceu nos Olivais Sul durante os anos 70 e 80, viveu uns anos no Lumiar e depois seguiu para Paris, onde se doutorou, e a seguir Nova Iorque. É casado e tem duas filhas. Árvores plantadas. Livro a caminho.

* Lia Ferreira nasceu em Lisboa em 1974 e ali cresceu e fez a sua formação artística. É pintora, ilustradora e retratista. Mãe de 4 filhas, leva a vida na Arte.

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