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De jardineiros para todos: assim é a nova Academia do Jardineiro Lisboeta que abre portas dia 18 de março, na Rua Nova da Trindade, no Chiado. Aqui se cultivará a botânica no papel, com eventos únicos em calendário jardinista. É inusitado em Portugal, tal como quem a idealizou: Nuno Prates, jardineiro e especialista na aclimatação de espécies tropicais.

“A mim calhou-me ser jardineiro”, diz Nuno como se anunciasse um fado que se impõe, sem que pudesse escolher a cantiga que ia cantar para a vida. Este destino viria a alcunhá-lo de Jardineiro Lisboeta, nome que adotou no Instagram e agora cunha este novo espaço que cria.

A Academia é um projeto que surge tanto da vontade como da oportunidade. Quando descobriu o espaço de um antigo alfarrabista por recuperar, Nuno viu as prateleiras onde em tempos idos procurou livros de botânica serem preenchidas pela sua coleção exclusivamente dedicada às plantas e jardins. São mais de 1000, em apenas sete metros quadrados.

“Retiro-os agora da esfera pessoal para partilhar com a comunidade”, conta.

Da Biblioteca à Academia, uma ideia atrás da outra pelo entusiasmo e estímulos que o espaço lhe oferecia. Sendo composta por três áreas distintas, terão iniciativas de encontro, estudo, debate e divulgação. Além da Biblioteca e do espaço onde se realizarão workshops e exposições, a Academia conta ainda com um herbário.

Nuno Prates considera que a dimensão teórica continua por explorar em Lisboa e que jamais a jardinagem foi vista como motivo suficiente para ser abordada de forma literária, estudada ou explorada de modo plástico.

O jardineiro Nuno Prates num dos seus jardins. Foto: Rita Ansone

E é isso que vai mudar com a AJL, retirando o “jardineiro do seu papel reduzido às práticas elementares da montagem e manutenção de jardins para o incontrolável universo da criatividade”.

Esta nova etapa encara-a como um outro jardim, cujo espírito reside “em ser visto, usufruído, admirado, na esperança que algo seja perpetuado, inspirando, ensinado e estimulado”. À semelhança dos espaços de natureza vegetal, existirá de acordo com a interação dos lisboetas.

É também um legado que deixa à cidade: “Os meus livros cessavam toda a sabedoria que deles aprendi, no momento em que não seriam lidos e partilhados por mais ninguém. Não fazia sentido. Assim fica reposta essa valiosa missão que os livros têm para a paisagem vegetal nacional.”

Assim se manterá viva a alma literária desta loja com história.

O jardineiro aprendiz da natureza

Nuno nem sabe como despertou para o mundo vegetal. Descobriu as plantas como as crianças descobrem as letras, que aprendem a compor para transmitir mensagens. Sucedeu-lhe algo semelhante com a matéria vegetal. Jardinar acaba por ser um idioma, um estilo, que Nuno não pretende calar, inscrevendo-o na paisagem enquanto forças houver. “Aprendi a compor com plantas. E, tal como escrevemos até desaparecer, jamais deixarei de plantar e jardinar”, reitera.

Nuno acha que Lisboa e os lisboetas deviam cuidar mais dos seus jardins. Foto: Rita Ansone

Ver uma paisagem tropical onde a “abundância fosse selvagem, autêntica e não antrópica, levou tempo”, diz. Até esse dia chegar, era pela mão do pai, nas idas à Estufa Fria de Lisboa, que viajava em pensamento até ao coração das florestas tropicais. E é aí que reside a verdadeira inspiração do que procura mimetizar, nas composições de hoje.

“Sou aprendiz da Natureza”, assim se vê e assim aprendeu. Observar foi, para o Nuno, uma escola, onde sem tutores ou explicações teóricas, ia percebendo para depois experimentar. Observações, como as da Estufa Fria, deram origem à prática num jardim da família cujos desígnios botânicos lhe foram confiados pelos pais. Isto durou até ter os seus espaços e expandir o dom cultivado a outros.

Chamaram-no de colecionador de jardins por isso. Porém, não coleciona propriamente jardins. Ao ocupar os locais por onde passa, a premissa é tornar o jardim o elemento mais importante da casa. Mais do que conterem as suas coleções de plantas, são laboratórios vivos. Perante o comportamento das espécies vai acumulando certezas, que consequentemente o autorizam a pincelar exemplares inauditos nos jardins de Lisboa. Reconhece, no entanto, que é “o clima que mais ordena, e rapidamente tudo se altera”.

A magia de compor, para o Nuno, está em chegar a um local e “operar uma transformação imediata para dar lugar a uma paisagem nova.” Este é um dos maiores prazeres em ser jardineiro, criar paisagens onde no próprio dia os pássaros podem encontrar moradas imediatas. Dispor as plantas que emprenham a terra é algo que faz de um modo furioso e instintivo, talvez na procura de tornar a paisagem o mais selvagem possível. Isso e porque, como afirma, “a inspiração é fugaz, consome-se em pouquíssimo tempo”.

Não fala com as plantas, esse é um outro elemento que, na sua opinião, enriquece a jardinagem. A comunicação vegetal dá-se nesse silêncio. Diz que não é para ouvir, mas “para sentir porque emociona”. Confessa também que raramente semeia, essa é uma tarefa deixada para os pássaros, pois é esse o seu desígnio.

O terraço alado no Saldanha

Há cerca de 20 anos, num último andar no Saldanha, criou, misturando com mestria linguagens mediterrânicas e tropicais, uma quase floresta – a possível quando exposta aos elementos de forma tão crua. Redesenhou o espaço por três vezes, porém, na última requalificação, apercebeu-se que um “ecossistema estava montado, a Natureza dominava o terraço do prédio e a avifauna tinha ali residência.”

O jardim de Nuno Prates, no Saldanha, foi desmantelado recentemente.

“A evolução do jardim estava traçada não por meu desejo, desenho ou imposição, mas pela Natureza urbana que convive com o Homem se este permitir.”

Essa é talvez a única semente que mete na terra, a ideia de que ao desenhar estes espaços dentro da cidade está a abrir caminhos para que a Natureza assuma o que é seu. Apesar deste jardim em concreto ter sido desmantelado recentemente, as centenas de plantas deram origem a vários novos jardins e esta lição da natureza urbana permanece viva para a cidade.

O que são e podem ser os jardins de Lisboa

A abundância e pujança que presenciou naquele terraço aconteceu por uma única razão, permitiu-o à natureza. E acha que essa poderia ser a realidade de todos os nossos jardins, houvesse empenho e compreensão, palavras que traduzem boa manutenção.

Por ser o Jardineiro Lisboeta, é a Lisboa que dirige as suas críticas: “A população entende que a Natureza tem de ser dominada senão torna-se uma ameaça para o Homem, então corta, desmata, poda, aniquila e esteriliza os espaços ajardinados reduzindo-os a meros vasos ressequidos pelo sol.”

Ao criar e permitir o avançar de ecossistemas em meio urbano estamos a beneficiar todos na cidade, seja ao nível do ar ou no bem estar que a mancha verde proporciona. Ciente disto, e perante a imponência do que chama de Natureza urbana, deixou de colher os frutos que brotavam das árvores para alimentar quem mais faz pela disseminação vegetal: “Toda a fruta que ali cresceu doada aos que cuidam, os pássaros que dela se alimentam e cujas sementes germinarão livremente.”

Nuno Prates no seu jardim das Plantas Doadas, em Avalade Foto: Orlando Almeida

Aos seus olhos, Lisboa é “preconceituosa nas escolhas de espécies” para os seus jardins públicos, o que lhe parece ficar aquém da nossa História. “Lisboa carrega uma faceta multicultural na arquitetura, na população e na culinária, mas falta-lhe plantas que carreguem em si essa vida, o calor, o verão, o lazer e a luminosidade.” A razão parece-lhe clara: “elitismo e preconceito, sem razão, já que temos as condições para ser a cidade tropical do novo mundo no continente do velho mundo”, remata.

Muitas vezes, além da prática profissional e do celebrizado Jardim das Plantas Doadas, que deu origem a um regulamento pioneiro na cidade de Lisboa, planta em jardins e caldeiras, na esperança que isso desperte transeuntes e em quem manda nos desígnios verdes da cidade.

Apesar das desilusões que vai tendo com as ações sobre o coberto vegetal da cidade, continua a querer dar a Lisboa. Afinal, é de “partilha que se faz a vida e o conhecimento guardado de nada serve sem isso”.

E isso isso mesmo que fará nesta Academia no coração da cidade.


Leonardo Rodrigues

É aluno de Ciências de Comunicação, na Universidade Nova, e também autor do projeto Lisboa Quase Verde. É membro da Assembleia de Freguesia de Alvalade, eleito pelo Bloco de Esquerda, e autor do blog Leonismos.com

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