Receba a nossa newsletter com as histórias de Lisboa 🙂

Quando eu era pequena, no princípio de Dezembro, a minha mãe pedia-nos que escrevêssemos uma carta ao Menino Jesus (nesse tempo, não se falava em Pai Natal) com os presentes que gostaríamos de receber.

Lembro-me de estar com um dos meus irmãos na sala e de a minha avó estar a ajudar-nos com a redacção: era impensável que o Menino Jesus recebesse uma carta com erros de ortografia e mal apresentada, até porque, se isso acontecesse, era capaz de se zangar connosco e ignorar os pedidos…

Nesse ano, eu queria uma boneca loira e um conjunto de tábua e ferro de engomar; já o meu irmão escolhera uma diligência e o fato de escafandro do Action Man.

Pode parecer estranho que eu tenha guardado estes presentes tão vivos na memória, mas é fácil perceber porquê: uma bela tarde, enquanto brincávamos às escondidas, eu tentei enfiar-me, como fizera de outras vezes, atrás do cadeirão do quarto dos meus pais e não consegui – o espaço estava integralmente ocupado por… embrulhos!

Chamei imediatamente o meu irmão, fechámos a porta sem ruído e, apalpando com muito jeitinho para não rasgar o papel, lá descobrimos os brinquedos que tínhamos pedido. Mas então as nossas cartas para o Menino Jesus nem chegavam a sair lá de casa? Foi um choque valente.

Mesmo assim, ainda demos uma chance ao Menino de provar que não era pura invenção, deitando-o nas palhinhas da manjedoura, que eram verdadeiras: a nossa avó fazia um presépio fabuloso, construindo uma espécie de gruta em papel pardo onde dispunha as figuras principais (incluindo a vaca e o burro, evidentemente); e depois criava os caminhos que os Reis Magos e os pastores percorreriam para visitar os pais babados e presentear o recém-nascido, caminhos esses que se estendiam por uma boa área da nossa sala e nos quais havia árvores, pedras, espelhos fingindo ribeiros e lagos, rebanhos de loiça pastando em campos de musgo, gente levando alimentos e feixes de lenha às costas para que o bebé que acabava de vir ao mundo não passasse fome nem frio.

A nossa árvore de Natal cheirava a pinho até ao dia de Reis; já os sapatinhos eram deixados na cozinha, junto à chaminé, na véspera de Natal, e levávamos a noite toda acordados à espera de podermos abrir finalmente os embrulhos, mesmo quando já sabíamos o que tinham dentro.

Recordo-me também de serem pousados numa mesa os numerosos postais de Natal enviados à família; de haver prendas para nós das empresas para as quais o meu pai trabalhava (foi assim que recebi a minha primeira máquina fotográfica); e de, uns dias antes do Natal, irmos ter com o pai ao escritório, no Chiado, para ver as iluminações de Natal na Baixa, que então eram as únicas que havia em toda a cidade. No fim, vínhamos para casa maravilhados, apertadinhos no banco de trás do carro, sem cinto nem cadeirinhas, mas seguros… de que éramos felizes.

Hoje, montam-se iluminações em qualquer rua de Lisboa – e tão cedo que, no Natal, passamos por elas e já nem reparamos; os postais são virtuais e cada vez menos; as empresas já quase só oferecem presentes, e raramente às crianças, quando precisam de alguma coisa em troca; compra-se uma árvore de Natal de abrir-e-fechar na loja do chinês, e o presépio, meia bola e força, é uma cabaninha polvilhada de neve (neva na Palestina?) com o trio-maravilha.

As crianças querem mais do que podem (e muitos pais dão, mesmo não podendo), e a carta, se a escrevem, deve ser um e-mail dirigido ao Pai Natal de alguma marca de brinquedos (e quase de certeza com erros, por causa das pressas); Jesus, para muitas delas, é apenas o nome de um treinador de futebol. E, para coroar esta tristeza, o mais certo é o passeio da família ser a um centro comercial… Claro que tenho saudades da infância.


Maria do Rosário Pedreira

Nasceu em Lisboa e nunca pensou viver noutra cidade. É editora, tendo-se especializado na descoberta de novos autores portugueses. Escreve poesia, ficção, crónica e literatura infanto-juvenil, estando traduzida em várias línguas. Tem um blogue sobre livros e edição e é letrista de fado.

Entre na conversa

3 Comentários

  1. Também recebi uma máquina fotográfica da empresa, também fui ao Chiado ver as iluminações. Uma das mais agradáveis recordações foi ter ido às compras com a minha avó, apanhando boleia do meu pai, que levava também a cunhada de um colega e um sobrinho dessa senhora que me dizia «Adoro este espírito de Natal». A outra recordação foi de uma véspera de Natal, teria eu 8 ou 9 anos em que fui à Lord comprar uns mocassins lindos e depois um anoraque (moda desse ano 1961/62) azul. Nem quis mais presentes. Também me lembro do Natal em que descobri que afinal não havia Menino Jesus. O último que passei em Vila Real de Santo António em casa da minha avó materna. Tinha visto no corredor uns embrulhos suspeitos que depois apareceram no meu sapatinho.

  2. Querida Rosarinho, acabei de ler o teu livro, Adeus futuro, comprado há umas semanas na Bertrand, onde fiz questão de dizer ao vendedor que a autora é minha prima. E fiquei deliciada por recordar maneiras de viver idênticas, memórias idênticas, com a diferença que vocês tiveram um peixe, de que me lembro muito bem nadar no lavatório enquanto se fazia a limpeza do aquário, e nós tivemos antes um pinto, chamado Miguel, que em adulto acabou numa panela de uma tia, para não ser comido em nossa casa. Há muito tempo que não me transportava aos natais da nossa infância, como tu me fizeste transportar. E adorei. Beijinhos, Feliz Natal e muitas sausades da Lu

  3. Olá bom dia
    Fiz nas suas palavras uma viagem à minha infância, e que descreve tão bem. Também pedi ao Menino Jesus uma tábua e o ferro de engomar , e linhas de filosel para bordar. E fazer o presépio tal e qual como o descreve era um acontecimento muito esperado, nos enchia de felicidade e que começava pela viagem à mata para apanhar o musgo, as pinhas e o pinheiro. Obrigada …. Pela viagem que me fez voltar à infancia…..

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado.