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O meu amigo Fábio Marcelo é arquitecto. Há uns anos, casou com a Marcela Maria, designer de interiores. Os dois são activistas pelo direito à habitação. No primeiro confinamento (onde é que isto já vai), tinham empregos decentes, um casamento sólido, uma criança a deixar baba na carpete. Só lhes faltava uma casa.

Há uns anos, a Marcela fez a maratona de Praga. Treinou em Monsanto durante meses, chegou lá e apanhou uma amigdalite em Novembro. Ainda assim, correu 42 quilómetros ao frio. Ao chegar a Portugal, tinha uma pneumonia que lhe valeu uma semana de internamento e uma tendinite num gémeo. Ainda hoje garante que nada disto se compara a encontrar um T2 em Lisboa.

No início, fiz-me de amiga e apoiei, sem saber que estava a apostar num suicídio. Eles avançaram porque a vida ia para a frente e o optimismo alavanca. Passaram horas nos sites da Remax, no OLX, no Uniplaces. Foram às duas da manhã à Damaia porque havia um gajo que conhecia um tipo. Nada.

Ao fim de dois meses de busca, a única solução era clara: um deles teria de vender uma córnea no mercado negro na Arábia Saudita. Fizeram as contas, falaram com um traficante do Iraque, havia um interessado no Dubai, mas, como ele tinha astigmatismo e ela miopia, as córneas não valiam nem um T0 sem mobília.

A Internet não deu em nada, arranjaram um agente imobiliário. A mãe da Marcela conhecia alguém que conhecia alguém que conhecia o Diogo, e foi ele o escolhido: 24 anos, bíceps bombadinhos, calças justas a ver-se o telefone e à espera de alguém que pagasse a proteína hidrolisada. A fama precedia-o. No fim, só tinha fama.

Delimitaram as zonas, falaram de valores. Dizia o Fábio: “No máximo dos máximos, 250 mil, mas preferíamos ficar abaixo dos 230.” Ele ouviu com atenção e ignorou-os, procurando à toa. Da mesma forma que tinha impingido creatina ao corpo, queria impingir-lhes uma casa. “Mas, olhe, não pode ser em Sintra?” Eles respondiam com mapas, mas queriam responder com palavrões. Quando o gajo acertava na zona, batia ao lado no preço: “Conheço uma óptima, mesmo a vossa cara, mas está nos 285 mil. Não querem pôr mais uns pozinhos?” Pó devia ser o que ele metia na veia.

Pelo meio, enviava 20 links para o WhatsApp – links que eles podiam ter visto no Google. Desses 20, um fazia sentido. Para o Diogo, o limite monetário era o detalhe, julgava que quem dava X dava mais 50 mil, que são só cerca de 75 salários mínimos líquidos.

“Mas não gostam desta?”, perguntava ele a apontar para um palácio, ignorando que gostar e conseguir pagar não são equivalentes. Além disso, quem procura casas sabe que conta mais o segundo do que o primeiro. Não fosse isso e os meus amigos iam morar para o Estádio da Luz.

O gajo insistia na pressa, “Isto é como os vestidos de noiva, não vale a pena ver muito”, comparando a festa do casamento à escolha do marido. Não corria bem e ele continuava, “Se calhar, é mesmo esta. Não vale a pena andarmos a engonhar”, porque a comissão chegava na mesma ao bolso.

Eles lá quiseram ver outra, marcaram visita para uma terça-feira e disseram que levariam os pais. “Os pais arranjam sempre defeitos. Mais vale não levá-los.” Faltava-lhe em idade o mesmo que em noção. Não lhes arranjava uma casa decente, mas dizia e repetia que ganhara o prémio de melhor vendedor na agência e também que era o gajo que levantava mais peso em supino no Fitness Hut da Almirante Reis. Provas é que nem vê-las, era incapaz de arranjar casas compatíveis.

“Ele não percebe o que nós queremos ou é só preguiçoso?”, perguntava-se o Fábio, exausto, ao fim de mais um dia inútil. Ainda por cima, tinha de estar sempre a aturá-lo ao telefone. Ligava sempre para ele porque homem é quem manda.

Chegou a noite e mais uma videochamada, depois de terem visto um T3 manhoso. Ele estava farto, atendeu a Marcela.

– Não quer? Mas o seu marido gostou. Fale com ele, pode ser que ele queira ver.

E ela irritou-se:

– É, vai sozinho. Leva o gato, o filho e a mobília.

– Leva-a a si também.

– Eu acabei de lhe dizer que não gostei da casa.

– Mas ele gostou. A sério. Fale com ele.

Piscou-lhe o olho. E só não levou duas chapadas porque isto foi ao telefone.

Em caminho paralelo, o Fábio e a Marcela continuavam nos sites em busca de uma hipótese. Lá encontraram uma casa que parecia no ponto, à venda por um particular. Só cometeram o erro de tentar falar com ele via Diogo, que ligou ao gajo e depois ligou ao Fábio a dizer que o outro já tinha vendido a casa. Mas a Marcela teimava: “Eu tenho a certeza de que a vi de manhã no Idealista. Como é que já foi vendida?” Desconfiados por natureza, ou não tivessem de lidar comigo, os meus amigos ligaram ao senhor, que logo disse: “Se quiserem ver a casa, até são os primeiros.” Ele só dissera ao Diogo que não lhe queria dar o valor pedido porque queria vender a título particular em vez de encher os bolsos à agência. O Diogo, claro está, foi logo arrumado e não foi trocado por um mais velho. Aliás, não foi trocado por ninguém. Iam fazer negócio com o homem da casa, a quem chamavam senhorio.

O crédito já estava aprovado pelo banco, só era preciso mandar avaliar a casa. O banco só emprestava 85% da avaliação.

Fecharam a casa em 240. Precisavam de que fosse avaliada em 254. Mas já se sabe como é a vida que chega às crónicas. Primeira avaliação: 200 mil euros. O banco dava ideia de que se vive em Lisboa em saldos. O proprietário, claro, recusava-se a descer o preço da casa: “Eu baixar não baixo, sei que a casa vale isto.” E eles, que já tinham visto metade das casas de Lisboa, mais do que um Uber eats, também achavam que sim.

Pediram reavaliação ao banco, mais 260 euritos. Ou seja, meio mês de salário mínimo metido em meia hora. Ora, 260 euros de investimento deram mais 5 mil de avaliação.

Tentaram encontrar-se a meio caminho com o proprietário, quais amantes que caminham um para o outro. Não houve caminho nenhum, foi cada um para seu lado, e a Marcela nem podia reclamar com um “Ó homem, tenha juízo, a casa não vale isso”, porque o banco é que parecia já não ter noção dos preços.

Começaram a ver outras casas, sempre a meia distância com um agente imobiliário, poupando alguns trocos em ben-u-ron para as dores de cabeça que eles dão. Como já tinham escolhido a zona onde queriam morar para sempre, procuraram creches lá. O problema é que ainda moravam na outra ponta da Lisboa. Todos os dias, continuavam na casa arrendada e faziam 15 quilómetros para deixarem o miúdo na escola. Eu ainda dizia: “Então não é meio bizarro terem creche antes de casa?”, mas estamos a falar de gente minha amiga, não se pode esperar que sejam razoáveis.

Pela Internet, viram uma casa. Telefonaram e descobriram que era de uma agência imobiliária dos Açores, que não conhecia sequer Lisboa. Mas que não se apoquentassem: “Vamos tentar arranjar alguém do continente para vos ir mostrar a casa.”

Combinaram um dia e chegou uma senhora romena que fazia limpezas lá e tinha a chave. Abriu-lhes a porta e disse “Vejam lá”, deixando-os a vaguear num T2.

Caraças. Fim de busca. Era aquele.

A casa estava à venda por 250 mil. Propuseram 240 mil. Na agência, disseram que, para fazerem a proposta, tinham de deixar um sinal de 2 mil euros.

Só para fazer a proposta? Bizarro.

– E se os proprietários não aceitarem? – perguntou a Marcela.

– Nesse caso, devolvemos o dinheiro.

Fim de problema. Silêncio.

– É para ter a certeza de que não desistem.

– Mas não prefere falar com os proprietários e perguntar?

Era difícil compreender, mais pela lógica do que pelo sotaque, mas a senhoria insistia nos 2 mil euros, como trocos corridos daqui para ali. Enfim, lá transferiram. Era um contrato de promessa de compra e venda pré contrato de promessa de compra e venda.

Acabaram por fechar a proposta nos 240 mil. O banco avaliou a casa nos 250. Eles precisavam dos 254 mil. Mas, nesta altura da vida, estavam fartos. Fora de hipótese estava desistirem. Já tinha passado um ano. O miúdo, que a meio disto fora inscrito na creche, já estava a terminar o secundário. Pediram a reavaliação, sabendo que, em caso de subida, devolveriam o dinheiro da primeira avaliação.

Como os proprietários estavam em França, só podiam assinar o contrato de promessa de compra e venda na semana em que viessem a Portugal. Já não dava tempo para uma nova avaliação. Na pior hipótese, pagariam 4 mil euros a mais de entrada e pronto.

Até aqui, tudo correu bem. Só depois descambou, já que os proprietários não queriam fazer reconhecimento de assinaturas. Ali havia gato de certeza absoluta.

Estavam prestes a receber 240 mil, mas não queriam pagar 10 euros cada. Furibundos, o Fábio e a Marcela chegaram-se à frente. Investiriam mais 20 euros por um lar. O assunto ficou resolvido e só aí descobriram a penhora que havia sobre a casa.

Sim, sim, tinham a penhora, mas havia um papel a dizer que tinham pago tudo, só não havia documento oficial saído de fresco do registo. E para aquilo sair do registo era preciso um rim e dez papéis.

E a Marcela, sensata:

– Então é melhor assinarmos o CPCV quando resolverem isso.

– Não, porque os senhores querem ir para França. Para isso não se faz negócio – dizia a agente deles.

E o Fábio, passado:

– Paguei 2 mil euros, levantei cheques, e agora isto?

E a gaja da Remax:

– Mas quer isto? Quer isto? Eu não quero isto para nada.

E atirou-lhe o cheque à cara.

Eu nunca vi o Fábio enervado, mas nesse dia trovejou sobre o Tejo, e os metereólogos dizem que não foi coincidência.

A Marcela, calma como nunca:

– Por acaso não está aí o seu gerente?

– Por acaso está.

E lá veio o gerente.

– O que é que se passa aqui? –  disse, à GNR.

– Queríamos comprar uma casa, mas parece que a sua colega não quer vendê-la.

– Vocês para assinarem o CPCV têm de deixar aqui 24 mil euros.

– Nós ainda estamos a tentar perceber se queremos assiná-lo.

– A sua colega diz que não assinamos porque há uma penhora.

E a gaja interrompe:

– Não é só por isso, é porque os meus clientes não querem fazer o reconhecimento de assinaturas.

Eles já se tinham oferecido para pagá-lo, mas o problema era outro: 10% de entrada sem saber se havia porta.

– Temos de ter garantia de que a penhora vai sair do registo da casa – dizia a Marcela.

– Ah, pois, faz sentido, podemos chegar a um compromisso, escrever isso no CPCV – dizia o gerente. – E o cheque só é depositado quando o registo da penhora sair da conservatória.

Mas a senhora da Remax insistia no reconhecimento das assinaturas.

O gerente, sensato:

– Liga-lhes e eles que venham cá.

– Vão a caminho de França – argumentava ela.

– Liga-lhes, pergunta onde estão e eles que venham.

Muito simpáticos, disseram ao telefone que se punham o caminho, que o voo era só ao fim da tarde.

Quando chegaram, pareciam gente normal, queriam lá saber do reconhecimento de assinaturas, e a Marcela veio a perceber que a agente não queria fazer negócio para não ter de dividir a comissão. O que lhe interessava era marcar férias no Havai com o marido.

Lá assinaram, cada uma das agentes só pôde pagar férias em Melides, havia 3 meses para assinarem o contrato e o banco subiu o valor da avaliação e pronto. Nem foi ver a casa, fazer tudo às três pancadas era mais rápido e servia. Subiu para os 253.900 e os meus amigos tiveram de dar 100 euros, quase só no gozo.

Isto foi a 28 de Junho. Estava o assunto resolvido, viesse a escritura. Como ruído de fundo, havia a penhora, que não estava resolvida. Ninguém conseguia encontrar a agente de execução, que tinha recebido o pagamento da penhora. Em Agosto, metiam-se as férias judiciais. Chegou Setembro e a validade do CPCV a chegar ao fim.

O Fábio chegou-se à frente, encontrou a senhora pelo Facebook e conseguiram o original do pagamento da penhora. Iam depositar os 24 mil euros para marcarem a escritura. Na véspera, tinham de ir às Finanças dar uma garantia de não haver nenhuma dívida.

Mas não era possível, uma das partes tinha uma dívida. Os meus amigos não tinham, só podiam ser os vendedores, mas a parte que comprava é que tinha de arranjar os papéis. A agente deles ligou à outra, ainda fula.

– Se alguém tem dívidas, não são os meus clientes, deve ser da sua parte – dizia ela, just because.

Eles verificaram, sabendo que não, nem IUC nem nada, mas a gaja do outro lado continuava a insistir.

Os vendedores lá foram às finanças e descobriram que tinham um dívida de 16 euros. Tinham pago o IMI com atraso e esqueceram-se dos juros. Ou seja, 16 euros de empecilho, um jantar sem bebida no Sakura.

Ficaram de resolver o problema e disseram aos meus amigos que, até nova escritura, poderiam mudar-se para a casa. Fizeram-se na semana seguinte, embora só oficializassem a compra, se tudo corresse bem, um mês e meio depois. Pelo meio, pagaram uma renda superior à prestação.

Na segunda escritura, tudo correu bem, graças a Deus. E agora os meus amigos moram ali, com uma lareira, ao lado de uma fábrica de unicórnios que relincham toda a noite. O WC de serviço tem vista para dois metros de Tejo.

Fui lá jantar no outro dia, a ver se o esforço tinha valido a pena. Tanto barulho para tão pouco. Os meus livros não estavam em destaque na estante e a casa nem sequer tinha carpetes.


Ana Bárbara Pedrosa

Veio para Lisboa estudar Literatura em 2012. Daqui só saiu para o Brasil, onde, à portuguesa, teve saudades dia e noite. Regressada, escreveu Lisboa, chão sagrado e a cidade foi a diva onde se perderam personagens. Anos depois, numa casa em Benfica, foi ao Médio Oriente e escreveu Palavra do Senhor. Para os de cá, tem sotaque minhoto; para os de lá, engravatado.

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