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O estridente toque dos sinos da igreja dos Santos Reis Magos anuncia as onze horas e no prédio vizinho, no Centro Social Paroquial do Campo Grande, Leonor Afonso, sempre atenta ao horário, parte alegre para mais um passeio matinal. O sol aquece a fria manhã de outono enquanto a senhora de 96 anos caminha lentamente, amparada por uma das cuidadoras, em direção ao trishaw estacionado no passeio.

Tem sido assim nos últimos meses, desde que a utente do centro de dia aceitou o convite para uma volta pela vizinhança a bordo do curioso veículo, uma espécie de riquexó invertido, na companhia de um dos voluntários do Pedalar Sem Idade, o serviço inspirado na iniciativa dinamarquesa de passear os idosos pela cidade, uma ideia lúdica com propósitos terapêuticos, já presente em mais de 50 países.

Em Portugal, o Pedalar Sem Idade chegou em novembro de 2018 e lenta e cuidadosamente, como os voluntários que conduzem o trishaw, angariou passageiros não só em Lisboa, mas também em Cascais, Castro Verde e no Porto. Na capital são seis os veículos – um deles está em Cascais -, um número ainda reduzido e condicionado pelo abre e fecha da pandemia, mas inversamente proporcional aos resultados alcançados.

Os dois voluntários num passeio que terminou no Campo Pequeno. Foto: Inês Leote

“O nosso propósito é quebrar o isolamento e a solidão”, resume a diretora executiva do Pedalar Sem Idade em Portugal, a lisboeta Margarida Quinhones. Segundo explica, a ideia concebida há uma década por Ole Kassow, em Copenhaga – e como outras boas ideias, surgidas um pouco por acaso – revelou-se um sucesso quando se verificou a melhoria no estado de espírito dos idosos ao voltarem dos passeios de bicicleta.

Ciclista, em 2012 Kassow decidiu alugar um trishaw e passear os idosos de lares da capital dinamarquesa, muitos deles adeptos das bicicletas na juventude, como o próprio Kassow, mas sem atuais condições de saúde para continuarem a pedalar com autonomia. O que começou como uma iniciativa simpática provou trazer benefícios terapêuticos, com os resultados atestados por universidades e hospitais.

Margarida conta que só a oportunidade de sair de casa para um passeio semanal, aliado ao revigorante banho de sol, tem um impacto positivo no humor dos passageiros. “É comum ouvirmos o feedback de médicos e familiares sobre as melhoras dos pacientes e parentes”, explica, ressaltando os benefícios da sensação de liberdade.  

Não por acaso, o lema do Pedalar Sem Idade em Portugal é bem sugestivo. “Pelo direito ao vento nos cabelos”, revela Margarida.

Das ruas de Copenhaga para Lisboa

“A doutora sabe que quando chega o dia de vir, estou sempre pronta”, conta a sorridente dona Leonor, já confortavelmente acomodada no trishaw, à espera de sentir o vento nos alvos cabelos. O roteiro prevê uma volta por Entrecampos e a Avenida da República, pois é comum os cinco percursos traçados em Lisboa contemplarem os sítios vizinhos de onde estão os passageiros, sem impedir eventuais rotas mais distantes, como uma visita à Quinta das Conchas, no Lumiar.

Fabricado na Dinamarca com o custo de 9 mil euros, o valor do trishaw ainda é o principal obstáculo à expansão da iniciativa.

O trishaw utilizado em Portugal é idêntico ao idealizado pelo fundador do projeto. Trata-se de um veículo com um assento duplo na dianteira, guiado por um condutor numa bicicleta elétrica. A viatura tem uma capota retrátil para evitar contratempos climatéricos – embora os passeios nunca se realizem em dias de chuva – e uma manta para o aquecimento dos passageiros em dias mais frios.

Fabricado na Dinamarca com o custo de 9 mil euros, o valor do trishaw ainda é o principal obstáculo à expansão da iniciativa, cujas receitas vêm exclusivamente de doações. Além da aquisição, há ainda as manutenções de praxe das viaturas. Uma alternativa para cobrir as despesas tem sido a procura de parcerias com instituições, como a Câmara Municipal de Cascais, que adotou os passeios regulares para os munícipes.

As doações costumam vir também dos filhos e parentes dos passageiros que embarcam nos trishaws, embora Margarida sublinhe que o Pedalar Sem Idade nunca cobra pelos passeios nem sugere valores para os donativos.

O marinheiro que trocou o navio pela bicicleta

Por ser financiado por doações, o Pedalar Sem Idade depende também da dedicação dos voluntários. Em Lisboa, atualmente, são 36 pessoas que reservam cerca de uma hora da sua semana para conduzir um idoso pelas ruas da cidade. Estudantes, profissionais e até reformados treinados pelo indonésio Amos Pannesse, 27 anos, um dos pioneiros a envolver-se com a iniciativa em Portugal.

Amos é instrutor, mas também conduz os trishaw. Foi ele o responsável pelo passeio com dona Leonor. Atento e simpático, mais do que uma nova amiga, ganhou uma fã. Ou um pouco mais do que isso. “Se fosse mais jovem, casava com ele”, declara-se a nonagenária viúva, mãe de cinco filho, entre risos, alheia ao facto de o simpático condutor estar em Portugal justamente por ter encontrado um amor.

Marinheiro de formação, há um ano Amos desembarcou de um cargueiro abarrotado de dispositivos eletrónicos e outros produtos que se compram através da internet. O navio estava ancorado nas Canárias e o indonésio fez o percurso até Lisboa para reencontrar a portuguesa que havia conhecido numas férias em Bali. O bilhete aéreo partindo da Portela com destino a Jacarta nunca foi usado.

“É preciso ter, acima de tudo, responsabilidade”, resume Amos, sobre as qualidades de um bom voluntário a pedalar. Embora não seja obrigatória, uma experiência anterior como ciclista é bem recebida. Ele explica ainda que o treino acontece em algumas etapas, que incluem a formação teórica e prática, e após dois dias acompanhando o instrutor em ação, o candidato faz um passeio com o próprio Amos como passageiro.

Um exercício bom para o coração

As primeiras saídas com um idoso são escoltadas pelo trishaw de Amos, até se ter a certeza de que o voluntário está seguro para conduzir sozinho. Foi o que aconteceu no dia da sessão de fotografias para esta reportagem, quando a tradutora e intérprete Inês Costa, 36 anos, guiou o seu segundo passeio acompanhada pelo instrutor, tendo como passageira a fotógrafa da Mensagem, Inês Leote.

A tradutora Inês Costa, em dia de voluntariado: pedaladas solidárias com a esperança de um dia usufruir da iniciativa. Foto: Inês Leote

“Tem sido uma experiência gratificante”, traduz em palavras Inês Costa o sentimento de se ter tornado voluntária. “De alguma forma, espero que ao fazer isso contribua para dar continuidade ao projeto e que, quando for mais velha, encontre alguém para passear comigo”, completa a intérprete.

Mais uma volta, desta vez com a passageira Ana Alves, 73 anos, que, por ter limitações de mobilidade, não embarcou no Centro Paroquial do Campo Grande, mas junto à sua residência. “Nestes casos, o parente telefona-nos e combinamos apanhar a pessoa em casa”, explica Amos. Dona Ana, assim como os demais utentes, esteve acompanhada na volta até ao Saldanha por uma das animadoras do centro, Emília Quinta Feira.

Foto: Inês Leote

O marinheiro que trocou as milhares de toneladas de um navio pelos poucos quilos de um trishaw sabe que a condução de ambos requer o mesmo nível de cuidado, embora o Pedalar Sem Idade tenha trazido gratificações especiais.

“Como já perdi o meu pai e a minha mãe, quando estou com eles é um pouco como se estivesse a passear com os meus pais”, confessa Amos, enquanto pedala por Lisboa, na companhia de ciclistas e estafetas das plataformas de entregas.

Uma prova de que o exercício físico e da solidariedade fazem bem ao coração.


Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 48 anos, há cinco em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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1 Comentário

  1. Maravilhosa iniciativa. Bom seria se fosse válida também para os visitantes idosos. A sensação causada por esse passeio deve ser muito gostosa !!! Ótima reportagem, Álvaro Filho !!!

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